neste ano, o meu outono chegou alguns meses mais cedo.
eu fui ganhando a cor vermelha conforme o teu humor mais seco ventejava pelo jardim da nossa casa. até que mesmo despido de todas as folhas, rasgadas tão facilmente pela tua indecência, não fosse possível que me admirasse como antes,
e pelo contrário, você me lançou um olhar tão sólido, que parecia ser possível pegar com a mão a linha feita na trajetória. mais parecia um olhar reto talhado em madeira nobre,
uma pancada de vara seca.
fez que eu me sentisse ainda mais nu do que já estava.
e pior: com o corpo marcado como se fosse seu.
tolo: eu já tenho uma daquelas marcas que são feitas a canivete. perto das costelas, no tronco.
nessa hora eu fiquei plantado, feito uma árvore, com os pés bem enfiados no chão, braços abertos em direção ao céu. feito a árvore da vida dos que estudam a cabala. levantar as mãos só se for para agradecer.
(a voz de Deus é uma trovejada de calmaria.)
os céus se abrem frente a sua gana. eu bebo cada gota dessa água turva que você chove.
um banho de água fria que só serve pra me alimentar por fora,
porque eu continuo procurando o que há de mais profundo no teu chão, como as raizes de uma árvore. quanto mais alta nos céus, mais fundas no chão.
eu sou imortal até que alguém me derrube
e me prove do contrário.
a tua prova é uma lâmina de machado,
ou uma das tuas tempestades.
ninguém sabe, mas eu amo os teus períodos de catástrofe,
e, assim como uma árvore,
há quem aprecie inclusive por causa das sombras.
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duas crendices populares falam sobre as manchas na pele.
o bebê ganhará marcas se a mulher grávida deixa cair um pouco de vinho sobre o ventre. ou então se a futura mãe tiver desejo por frutas vermelhas e o desejo for-lhe negado.
eu posso dizer que nasci envolto a uma mitologia popular: os príncipes-sapos pantanosos, os dentes debaixo do travesseiro, as mandingas das notas de um real, os amantes escondidos entre as linhas do horóscopo.
não bastasse esse mundo de fantasia, nasci com o corpo respingado de sinais,
como em uma noite de festa regada a vinho, quando se brinda à saúde de um novo ser.
o brinde me respingou no meio da minha gestação.
ou como um desejo intenso e intermitente, que por vezes foi e voltou. ao invés de uma grande mancha, fiquei com inúmeros pontinhos –
– desejo por frutas vermelhas:
morangos, amoras, framboesas,
maçãs –
somente frutas que remetam à paixão.
eu sou uma pessoa marcada pelo desejo,
feito uma constelação de pontos marcados sobre a minha pele.
da mesma maneira que as estrelas formam figuras, guardo símbolos fáceis de se encontrar. marque os pontos com uma linha até formar um caminho, uma rede:
eu levo um código secreto por onde eu for.
um mapa astral,
uma carta natal.
eu tenho um desejo forte, que é feito estrelas acendendo e apagando no céu da minha boca,
como Deus atirando um ponhado de luzes num taboleiro de búzios.
eu quero ler o futuro:
eu te atiro o que eu tiver de melhor
só para ver teu sorriso de sol acender os meus dias.
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estou passando pelas minhas doenças mais graves de uma forma bastante controversa,
porque eu fico doente, funcionando todo errado, quando te vejo no meio daqueles outros. mal sei se são de cura ou maldição.
eu me sinto um vírus em meio a esta roda de gente tão adversa.
eu venho me tratando do modo mais religioso possível, que é a ciência das pequenas doses. homeopaticamente.
quem tem dor e tem pressa não pode exigir da cura a sua compaixão por se viver de modo errado.
não é à toa que se chamam os doentes em tratamento de “pacientes”. é preciso paciência para drenar o sangue sujo para fora do corpo. é preciso grande força para represar o mal que eu não quero que se espalhe.
estou mudando o método para não precisar de mais sangrias.
nessa minha doença eu estou paciente: é mais uma questão de crença do que de resultado.
eu tenho um remédio que se deve tomar aos poucos, bem poucos, que é para não haver efeitos colaterais dos mais diversos.
e você é um dos poucos, bem poucos.
mas você me dá pouco do que eu preciso, só pra me fazer voltar mais tarde pedindo por mais.
eu venho religiosamente todos os dias para uma pequena dose tua, como uma irmã que pratica eucaristia. venho para a minha hóstia. sempre morder um pedaço do corpo de Cristo e me aproximar de Deus.
eu até gosto. mas pouco me serve. quero mais. sempre muito.
eu sou uma irmã beata pronta para largar o véu. começar a pintar as unhas, tingir o cabelo e, quem sabe, encurtar o vestido.
posso largar todos os símbolos, mas ainda virei, homeopaticamente, dia após dia, recolher outros pedaços:
esses não serão mais as pequenas doses tuas que você me obriga a vir consumir aos poucos,
mas serão os pedaços meus que foram se quebrando conforme eu andava por onde não é direito.
dessa vez, só mesmo uma sangria para me aliviar a moléstia. nada de doses vagarosas de algo que nunca será de todo meu.
–
eu me sinto um vírus em meio a esta roda de gente tão adversa.
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há um momento do dia que se diz ser ideal para quem trabalha com criatividade.
é o momento que precede o sono, no qual as faculdades já estão desaceleradas
e é possível agir com menos pudor.
deve ter sido em um desses momentos que eu fui gerado. eu e mais grande parte dos que vivem. a hora em que os amantes perdem o medo — e a vergonha –, as roupas ficam espalhadas no chão e as pessoas se entregam aos divertimentos mundanos.
eu estou no mundo e eu sou do mundo,
mas estou acordado e vigilante quase sempre para deixar fluir a veia criativa. se eu passar dias sem escrever, não será porque estive dormindo. será, ao contrário, o período em que estarei mais acordado,
prestando mais atenção a todos os movimentos.
enquanto eu procuro recatadamente ser genial, as idéias me passam blasé sem um relance para ver que eu chamei.
se eu fecho a porta, apago a luz, abotôo a camisa, adianta pouco, ninguém repara.
as idéias me passam blasé sem um relance para ver que eu chamei.
se eu não for escandalosamente pervertido com a minha gana de pôr letra em papel,
as idéias me passam blasé sem um relance para ver que eu chamei.
não queira dormir quando anoitecer, porque não haverá silêncio.
farei escândalo.
quando chegar esta hora, vou me despir de todos os excessos para escrever um verso nu, com menos pudor.
vamos fazer arte, mas deve ser arte completamente sem pudor,
como várias idéias correndo juntas para ver qual fecunda primeiro. bata com cuidado nela quando nascer para ver se chora. se fará barulho quando for adulta.
se faltar papel para tua escrita, eu cedo meu corpo. escreva na minha pele.
eu já tenho em mim todas as etapas dessa história.
tudo, alguma hora, volta ao silêncio.
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não, obrigado.
eu me abstenho.
não vou me sentir menor por passar a noite sem beber. eu quero os meus olhos mais que sóbrios para me lembrar dos os teus trejeitos quando acordar de manhã.
o delírio insano da tontura do teu álcool não nomeia as flores que eu estou habituado,
e tampouco o gosto de chocolate que eu tenho no meu copo aparece nos bares do teu convívio.
continuo aqui com o meu copo de leite. estou cultivando uma horta de flores para entregar um buquê a quem mais mereça. nada do que você bebe tem nome de flores.
eu sou dado a prazeres dos mais simples
e os meus superlativos só server se forem sublimes.
se for para cruzar extremos, que sejam os bons.
não os recordes de ressaca,
de acidentes,
promiscuidade,
de tragédia.
não basta ser um dos que esbarra na porta. é preciso ser o que quebra as vidraças, e isso eu não quero.
eu gosto do vento das altas velocidades, mas ter o controle do processo me faz me sentir senhor do meu caminho.
estou de olho no quanto piso para poder frear no sinal vermelho.
e superlativo vicioso eu não aprecio:
esse teu modo de vida é agitadíssimo,
divertidíssimo –
e aborrecidíssimo.
não vou recolher os restos que sobrarem desse vício. o meu maior prazer vem de poder chegar inteiro até o final.
se for para ter vício, que seja vício em bondade.
assim poderei apreciar um modo de vida belíssimo.
um superlativo feito para o bem.
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é com a ponta da língua que se sente o sabor dos doces.
eu ando te sentindo em cada centímetro com a ponta da língua porque os dias amargos já ficaram para trás. me dá uma gula insana de te devorar numa mordida só, de forma egoísta, sem deixar ninguém ver. como uma criança meio gorda diante de uma barra de chocolate, sem deixar nenhum pedaço.
te ter às vezes é doce demais até para mim.
que culpa tenho se você vem embrulhado em papel brilhante, como para presente. comer com gula vai me causar indigestão na certa. não tenho dúvidas de que será imensamente prazeroso, mas aprendi a me deixar com uma carapaça dura tal qual um caramelo em ponto de bala:
um açúcar concentrado que só me faz mal mas me enche de prazer. isso me traz doces dias, mas maltrata o meu sangue ao longo da vida. não vai me servir de nada além de me dar energia no começo, mas me deixar mais pesado com o tempo.
te ter me deixa lento com o tempo.
eu não quero me perder sozinho depois desses dias.
será como me perder em deserto branco. uma duna inteira de açúcar bem fino.
“insano do homem que constrói sua casa em uma duna”.
sou mais o açúcar saudável das frutas, que dá pra comer com casca e tudo.
–
tem um secredo que é guardado em sementes minúsculas como as de morango: ela, tão miúda, sabe como fazer uma floresta inteira.
e eu, com a capacidade de comer vários morangos de uma só vez,
ainda não descobri como elaborar esta façanha.
–
me desculpa, mas deixarei você e seus doces de lado.
vou abdicar desse prazer intenso por enquanto
para ter para mim uma vida mais saudável.
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finalmente os meus dias dedicados a você ganharam paz.
mas estaria mentindo se dissesse que é uma paz que me deixa contente.
a paz que você me dá é inquietante de tão quieta. é feito o silêncio ensurdecedor causado pela angústia da quietude.
tanto dessa paz que eu chego a guerrear para alcançar os teus pontos mais altos.
há que se lembrar da nossa simbologia: na antiga china, uma pipa no céu representava a guerra se aproximando. de longe já dava pra ver.
e de tanto lutar pela nossa paz, a minha rua ficou cheia de crianças brincando de pipa num céu de brigadeiro, bem na frente da nossa casa.
essas pipas com nomes de bichos marinhos: tem arraia, tem peixinho — e ainda voam ao lado do papagaigo. é como o mar trocando de endereço e tendo os peixes nadando no céu –
te ter é feito uma inundação que me deixa ilhado: eu vôo de tão leve nesse céu todo trocado. –
só mesmo essas crianças para transformar em paz os meus maiores símbolos de guerra.
só mesmo a densidade dessa paixão para fazer os peixes voarem tão alto.
tão logo a nossa disputa coloca as baleias para o alto: repara que eu não sonho baixo. logo as baleias, que são os maiores bichos da terra. faça-as voar tal como os peixinhos das pipas, que será a maior paz do mundo caminhando em minha direção.
e dessa vez sim, será uma paz acolhedora.
amado,
um dia, eu vou querer ter filhos teus.
serão filhos dessa guerra,
e brincarão contentes com suas pipas
bem no quintal da nossa casa.
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Dois anos de Pseudônimo [antigo nome do Barco a Vela]. Para marcar a data, blog de cara nova. Ideas in Utero: feito via láctea na cabeça do feto — uma idéia nova que quer nascer. Alguns leitores cativos desde o início, outros adquiridos no meio do caminho. Muitos ainda a serem conquistados. O melhor de tudo é que o que se escreve aqui hoje é bem diferente de há dois anos. Se houve evolução ou retrocesso, nada como permanecer para descobrir. Em todo caso, sinto uma boa resposta.
A todos, muito obrigado pelas visitas. Espero poder completar mais dois anos. E mais dois, e mais dois. Este é um espaço infinito de ensaios, e estamos sempre precisando aprender mais, e sempre na companhia de amigos. Como o texto sugere, escrever é remédio (e veneno).
Doug
Medusa
pernoite para acordar com sono.
comilança para sentir mais fome.
multidão para sentir solitário.
modernidade para sentir arcaico.
remédio amargo para desapontamento. estou com boca amarga de tentar remediar. remédio para vida torta não tem.
estou me despindo para me sentir mais quente.
distanciando para chegar mais perto.
silenciando para ser mais ouvido.
esclarecendo para ficar no escuro.
vou ficar nesse escuro perto, quente e quieto. não fala, só escuta: porque eu tenho remédio pra tudo enquanto escrevo, feito as bruxas ranzinzas que sabem curar o mundo, mas vivem sozinhas em suas cabanas. vestidos rotos.
feito as cobras que enfeitam os medalhões dos que estudam medicina.
vê: o símbolo dos médicos guarda todos os meus remédios: é uma cobra enrolada em uma taça, rastejando até o topo.
deus não dá asas a cobras,
mas há cobras representando cura ?
e é do veneno que vem o remédio.
eu venho sendo venenoso enquanto humano bárbaro que sou. modos grosseiros. venho me rastejando feito a cobra da taça -?aquela do símbolo dos médicos–, subindo pela haste para chegar ao bojo. que seja então eu me enrole em suas pernas para chegar à tua cabeça, atingir tuas idéias.
ando com idéias tão venenosas que é feito uma medusa em corpo de homem. serpentes dependuradas se emaranhando na cabeça. cuidado, que se te olho com muito afinco, logo é corpo de pedra em lugar de gente. as fotos em que te olho já estão todas em preto e branco.
mas não me condene por antecipado. do mesmo veneno vem a vacina. a minha cabeça é feito ambulância correndo atrás de acidente. não fica no caminho, que eu trago alto número de mortos e feridos.
acendo vermelho-sirene, que é pra chamar mais atenção: esta doença tem cura previsível demais:
relaxa no sono profundo do soro da anestesia,
enquanto eu preparo o elixir para o nosso desassossego.
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eu tenho paixão pelas águas.
mas água de chuveiro, de torneira, de garrafa. se for limpa, água de rio também vale.
mas morro de pavor de água de mar. grandes extensões profundas sem nada com que me segurar.
mas eu descobri rápido: não é o pavor pela água. é o pavor pela grandiosidade. de água pouca eu me esbaldo. de água muita eu me encolho.
então eu descobri rápido: não é pavor pela água. é pavor por paixões. paixão pouca, eu sonho alto. paixão muita, eu desfaleço.
foi preciso eu me afundar fundo no mar — paixão por água — para descobrir que homem nenhum é uma ilha. para se afogar ou flutuar, todos vão em grupos. vão em duplas. somos mais extensos aqui em terra firme. mas eu notei que por um tempo, esse medo de paixão fez com que meu território fosse menos: quando eu digo “aqui”, eu me refiro só até a porta do meu quarto. “aqui” é só o lugar onde eu moro.
“aqui” é só um lago de água rasa que mal te molha até as canelas.
eu sei que quanto mais cresço, mais a minha vida se expande. posso dizer “aqui” me referindo ao mundo inteiro. reafirmo a minha fobia por paixões: estamos em continentes diferentes. para chegar “aí” é preciso cruzar mares. não quero estar onde sinto medo.
se meu “aqui” é limitado, moramos em casas diferentes: eu estou aqui e você está aí.
mas se meu “aqui” é evoluído, estamos juntos no mesmo barco,
e cruzar o mar se torna uma tarefa mais simples.
se meu “aqui” é limitado, vivo em paz com minhas plantas,
mas se meu “aqui” é evoluído, há guerra santa em meu oriente. gelo glacial sobre os meus pólos. terras inférteis tentando ser cultivadas.
eu estou tentando não ser ilha. ser terra firme e bem extensa. estar “aqui” e estar presente, te ter presente.
ter tua presença é ter chuva de torrente no meio dos meus desertos.
derrama os teus líquidos no meu lago raso
para que eu seja uma pessoa mais profunda.
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aprendi muito pequeno a fazer uma brincadeira com as mãos.
um barbante amarrado para que não tivesse pontas era entrelaçado entre os dedos para formar uma figura a qual davam o nome de ‘cama de gato’. era preciso sempre duas pessoas para o jogo, já que uma passava a cama para a outra, formando figuras diferentes.
aprendi muito pequeno a montar a minha cama com barbantes nas mãos. a amarrar os dedos. a ter a cama com gatos. a cama de gato — figura diferente a cada pessoa que passa.
tem muitos gatos na minha cama.
gato vadio que sobe no telhado à noite. eu me divirto com seus miados e gemidos, o corpo que se contorce para dormir, se estica para espreguiçar.
que pula a janela sem ninguém perceber.
gato de luxo que sobe pelas cortinas, brinca com a bola de lã, arranha a minha porta para entrar.
gatos presos pelos barbantes.
é preciso quatro pernas para sustentar uma cama. eu preciso das minhas e mais as tuas. quatro pernas entrelaçadas tal como meus barbantes, os barbantes da cama de gato. gatos que sabem como pular alto, e altos vão os meus pulos pela noite adentro.
preciso de quatro pernas para o meu descanso. o meu e mais o seu.
a cama de gato só se faz com barbantes amarrados.
deve ser porque os gatos são bichos fáceis de escapar.
por favor, não se incomode se eu te prendo de forma tão voraz:
sinto que mal não faço em te manter na minha cama de gato.
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