O monstro
Entrei pelo portãozinho de ferro. Do jardim, já dava para ouvir o que o Bruno tocava no violino. O homem e sua maravilhosa máquina de voar. Travei a fechadura enquanto ouvia aquele som que mais parecia o uivo de um lobo. Lua cheia. Percebo subitamente que o jardim é bem maior do que eu tinha na memória. É meia-noite na floresta. E eu preciso fugir da fera para me defender. Ouço um farfalhar de folhas que me faz correr para o abrigo do tronco de uma árvore frondosa. A donzela pede ajuda.
Donzela nada. Eu sou um ser da noite, desses com olhos brilhantes quando todas as outras luzes se apagam. Mulher-morcego. Caminho entre as árvores até encontrar o lugar perfeito para os festejos. A convenção das bruxas. O caldeirão borbulhante no meio da clareira. Vamos, irmãs, dancem em torno do fogo sagrado, que o nosso tempo é curto. Eu peço aos deuses que nos dêem o poder de despertar a paixão que adormece. Possa o homem ser um animal irracional domado pelas nossas mãos.
Algumas nuvens se dissolvem e a lua volta a aparecer. Eu volto a mim a tempo de perceber que o jardim à minha frente é inofensivo. Bruno volta a tocar. Eu caminho em direção ao uivo, direto para a toca do lobo.
O lobo. Ele não sabe, mas tem sangue de lobos correndo nas veias. Nos braços. Patas que arranham. Os dentes quase me mordem. Come tudo cru.
Abro a porta e o encontro na sala, violino em punho. “Você chegou!”, abre um sorriso, mostrando os caninos, e eu já tenho um arrepio na carne – eu sou crua por dentro e por fora. É preciso olho clínico para saber identificar as espécies selvagens. Outra garota o consideraria inofensivo, um cão crescido. Leal e sem a menor ferocidade. Esclareço o engano guardado no meio de uma dessas noites que eu já vivi. Agora ele é o médico. Mas quando menos se espera, o monstro acorda e arrebenta a porta da frente, destrói as plantações.
Aqueles dentes.
“Engraçado. Você parece diferente a cada vez que eu te vejo”, ele me diz, colocando sobre mim a mira daqueles seus olhos vagos. Eu sempre fico um tempo em silêncio – ele reparou? – tentando adivinhar para que direção ele olha. “Diferente como?”, eu pergunto, sem saber se fico contente por ele ter prestado atenção em mim. Quase um lorde. Ele sorri de novo, mas antes que eu me perca novamente em seus dentes, ele responde: “Não sei. Só diferente”.
Eu pergunto: “O que estava tocando?” Ele então revira as partituras do pedestal à sua frente – manuscritas – e retorna para a primeira página. “É uma composição minha”, explica. “Já fiz o começo e o final. Mas tem uma parte…”, pausa. Longa. “Eu não consigo terminar uma parte.”
Céus. O lobo engasgou. Um uivo pela metade.
Peguei as partituras rabiscadas, bem pouco compreensíveis escritas assim às pressas. Devolvi dizendo: “Estou curiosa.”
“Eu toco para você”, ele responde.
Bruno então encaixa o violino entre o queixo e o ombro e levanta o arco. Posição de ataque. No disparo da primeira nota, já percebo de onde vem aquela melodia. Aquela noite na sala de concerto. Fomos jantar depois. Ele ficou tão hipnotizado com a apresentação (os olhos perdidos no ar…), que passou o caminho inteiro cantarolando alguma coisa qualquer e tamborilando o volante. “Você está quieta”, ele dizia. Mas não era nada com ele. Ou melhor, era, mas nada de ruim. Eu estava encantada, vendo a música caminhando por aquele corpo todo, que não parava de se mover. E ele balbuciando sílabas dispersas.
“Sabe de uma coisa?”, ele tinha comentado durante o concerto, vendo o pianista e o violinista quase se fundindo em seus instrumentos, “Se eu fosse uma madeira, gostaria de ser um violino. Não seria feliz se fosse uma cadeira ou uma porta.”
Fiquei sem ação. Agora, quem estava hipnotizada era eu. Ele, um violino em minhas mãos, sem que eu pudesse tocar. Tenho que aprender o nome das cordas, a afinação, como funciona teu corpo, e só depois chamar o instrumento de meu. Quase uma anatomia de anjo. As curvas da cintura. O braço. As cordas (vocais?) soando tão perto do ouvido – justo aquela nota que estremece o meu corpo inteiro. Violino você já é, amor.
Voltei a mim quando a melodia foi interrompida bruscamente. Era aquele trecho que faltava.
A música estava incompleta, mas alguma coisa acontecia naquele momento. Bruno estava paralisado, atônito. Os olhos estavam diferentes. Tinham ainda o mesmo brilho – como se fosse possível deixar de tê-lo. Mas agora… eles olhavam para mim, sem aquela estranha dúvida quanto à direção de seu foco. Eles me viam e eu cabia inteira naquele olhar urgente.
Me assustei um pouco com tanto silêncio. Mas não quis interromper o momento. Pela janela, pude ver algumas nuvens se afastando, deixando à vista um imenso disco iluminado. A fera desperta durante a lua cheia.
“Aquele trecho que faltava…”, ele disse, mais para si do que para mim. “Ele surgiu…”
Em vez de tocar, porém, ele deu um passo à frente. De tão absorta que fico com a transformação, esqueço até de pensar em correr. O faro se apura e suas narinas se contraem. A respiração fica mais forte. Ele me fareja. Os pêlos se arrepiam. O lobo do homem. O homem do lobo.
A mulher do lobo. O feitiço se concretiza.
Ele deixa o violino e o arco em um canto e dá mais um passo. Algo parece vir à mente para ser dito. Ele entreabre a boca, mas nenhum som é emitido.
Só os dentes ficam um pouco à mostra.
Os dentes de fera.
Eu rezo por clemência, ó Deus. Uma filha batizada nas santas águas. A bruxa capturada, momentos antes de ser atirada na fogueira. Salvai-me, mas não do monstro. Mas das idéias monstruosas que tomam conta do meu corpo, já que não penso em oferecer qualquer forma de resistência.
Vem, fera. Abre um buraco no chão com as tuas patas para enterrar meus ossos, me guarda só para você. Eu perco a minha civilização, viro selvagem. Quero viver na floresta, com os lobos. Me caso com o macho-alfa, o líder da matilha. Luto por território.
Tarde demais. Ele me ataca o pescoço, o lobisomem-vampiro. De tão selvagem que me torno, de uma hora para outra nem roupas tenho mais, e me abrigo fácil em seus braços enquanto desafio seus dentes monstruosos com a minha própria boca. Rômulo e Remo, os filhos da loba, se atracando pela casa. O império é nosso dentro dessa imensa floresta. A nossa Roma foi inteira erguida em um dia. Eu moro com os lobos enquanto você mora dentro de mim.
Eu uivo às estrelas, gloriosa.
O mundo pode ter o tamanho da nossa cama enquanto a fera está acordada. Não importa. Eu adormeço tranqüila na tua presença.
Sem medo de predador.
Sem medo da tribo rival.
Acordo com o dia ainda escuro e junto minhas coisas em silêncio.
Saio da casa enquanto a fera ainda dorme pacífica. Antes de ir para o jardim, me olho em um espelho da sala. Agora sou eu quem está com o olhar perdido, como que sem saber para onde olha.
O violino ainda estava em um canto.
Ouço um ruído vindo do quarto e resolvo sair de uma vez.
No meio do jardim, volto a ouvir o som do violino. Desta vez, sem a interrupção no trecho que faltava.
Chego ao portãozinho de ferro na hora em que os primeiros raios de sol surgem no céu. Ganho a rua e vou me distanciando da música.
O feitiço funcionou:
Este é o lobo que uiva também para o sol.