Síntese

Dezembro 21, 2011 at 12:57 am (Uncategorized)

É curioso: o que não tem explicação é justamente o que é mais fácil de se explicar.

Me dá um instante. Eu explico.

Ninguém te pergunta por que você trabalha. Ou por que você gosta de azul. “Trabalho porque preciso” é uma explicação apenas aceitável. “Azul é bonito” não fica longe.

São coisas que já têm alguma resposta pronta. Difícil é responder de forma humana o que fazemos mecanicamente.

(Por que é mesmo que você escreve?)

O que não tinha explicação mesmo foi o que eu saí de casa para fazer hoje pela manhã. Não tenho como explicar o porquê de eu pegar a minha moto, colocar meu capacete e me dirigir para a frente da tua casa. Não é caminho para o meu trabalho, ou para a academia, ou para o supermercado. Não entrei na tua rua porque a avenida por onde eu ia estava interditada. Nem porque acho as árvores de lá mais bonitas.

Entrei ali porque queria te ver.

E nem era porque te acho bonito. Nem porque você gosta de mim enfurecidamente. Ou porque esqueci alguma coisa na tua casa.

Eu só entrei ali porque queria te ver.

E sem explicação nenhuma, visto que eu te odeio. Te odeio tanto, que por mim você só dormia se fosse na minha cama. É tanto ódio, que passei a ouvir as tuas músicas favoritas e decorar todas as letras. De tanto que te quero longe, foi o teu nome que escrevi na contracapa de um livro que comprei esses dias.

Motivos demais para explicar o que não tem explicação. Esse ódio que me faz te querer por perto. Parte das coisas que fazemos unicamente para ser contrário.

Contra.

Eu contra você.

Às vistas de milhares de pessoas.

Preparo o meu arsenal para executar um ataque certeiro. É vergonhosa a derrota em uma disputa alardeada. Canto vitória antes do tempo, subo no salto. Encho tua calçada de bombas-relógio. Eu quero é um manual de instruções. Saber como te ataco para matar a tua parte que ainda vive dentro de mim.

Como tomar um veneno que não me leve junto com o que eu quero destruir de você

mas que na verdade só existe em mim?

Me explica coisas simples. Minhas dúvidas são complexas demais.

Se te tenho nas mãos, te estrangulo. Te sufoco no beijo que sempre quis provar,

e meu ódio me faz descansar a cabeça sobre o teu peito.

Amanhã, eu vou para o trabalho de novo. O céu me mostra diariamente uma das minhas cores preferidas — não me pergunte por quê.

(Por que é mesmo que eu escrevo?)

Eu só sei explicar as coisas que eu faço sem motivo.

1 Comentário

  1. will disse,

    Ei, Doug
    Você está cada dia melhor, cara!
    Parabéns!

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