Transparência
gosto de dizer que as pessoas transparentes têm o rosto feito de vidro.
assim, por mais máscaras que vistam, sempre é possível encontrar o que há por dentro.
mas sinto na pele os efeitos desta comparação - os materiais que compôem o mundo possuem uma imensa contradição:
quando mais rígidos, mas facil se quebram quando caem no chão.
isso coloca em prova a hora que eu protejo o meu coração -
que às vezes parece de pedra, de tão macia a tua mão.
mas tal esforço é em vão: coisas de vidro são feitas para manterem repouso,
e não serem jogadas para lados diversos
sob o risco de se quebrarem na queda brusca.
ainda tenho nos olhos aquela luz da tua transparência, que mais parece vinda do vidro das janelas da tua alma - fresta clara na escuridão das minhas núvens.
mas eu sei prever as tuas tempestades vendo o canto dos teus olhos. as mínimas linhas de expressão do teu desencanto, feito uma rachadura num vidro quente ao passar por água fria.
o canto dos teus olhos formou uma rachadura de vidro bem fina, que mais parecia com a linha do raio de trovão que rasga o céu em dia de chuva.
eu não posso com a tua chuva.
não sou dado a tempestades.
eu sou feito um pó de açúcar entre os teus dentes, viajando ao redor da língua - milhares de cristais quebrados.
uma areia de caquinhos espalhados dos teus vidros.
cristal de areia.
eu sou um cristal de açúcar.
não destempere o meu doce, que eu derreto em meio as chuvas -
copo d’água
que transborda
no teu choro
compulsivo -
perco a rima
há muito tempo.
toma a água do copo - chovida de tempestade - com colher de açúcar pra se acalamar.
não fique bravo, que eu já te dou colher de chá.
me derreto com teu calor, que é pra depois recompensar:
carapaça, caramelo,
transparente -
eu sou uma estátua feita de doce.
–
ainda te vejo através dos teus vidros,
muito antes de o tempo se fechar.