Cruz

Fevereiro 10, 2008 at 12:27 pm (Uncategorized)

engana-se quem imagina que o desencontro é uma história de “não se ver”.
o meu maior desencontro começou justamente quando eu cruzei o teu caminho.

é neste cruzar de caminhos que eu guardo fé.

as rotas dos teus passos traçadas nos meus mapas formam uma rede cheia de encruzilhadas,
como aguardar em vias engarrafadas o sinal abrir para presseguir viagem.
mas o sinal está fechado.

eu traço uma série de desencontros meticulosamente planejados. eu tenho que saber por onde você vai passar para me desencontrar urgentemente,

como alguém que planeja chegar atrasado ao próprio enterro

e fica mais tempo rezando em casa na frente de uma cruz.

(eu tenho fé no que peço)

justamente por isso eu me recordo:
te olhar asism, distraído, de braços abertos, é como ver uma cruz de pé na terra

que acalanta um povo desconsolado.

eu sou fiel ao mandamento de amar ao próximo mais do que a mim mesmo. desde que o próximo tenha a tua feição benevolente. para isso preciso estar perto, mesmo que meio de longe, me encontrando sóbrio para te desencontrar.

tocar a borda das vestes para receber o milagre da cura.

eu carrego este peso ao te acompanhar, na emergência de quem tem o corpo mutilado -
cruzar o teu caminho é traçar uma ferida sangrenta, aberta tal como a cruz vermelha dos carros de ambulância.

é preciso abrir caminho no meio dessas ruas obstruídas, com o estrondo da sirene portadora de mensagem de pânico -

esta rua morta é uma gangrena nas veias da cidade,

e a cruz vermelha dos feridos não é igual à cruz da igreja dos que têm fé.

doença mais forte é a que afeta corpo e espírito: você grita comigo como um padre que exorcisa os demônios.

mas não me crucifique por conta destes pecados:

os males do coração devem ser tratados com rapidez.

a minha religião é amar os homens.

você está no centro da minha cruz.

13 Comentários

  1. meyviu disse,

    Fevereiro 13, 2008 às 2:04 am

    O acaso e o desencontro são feitos da mesma substância, em síntese, e os meus começaram quando resolvi escrever…

  2. Paula disse,

    Fevereiro 19, 2008 às 2:29 am

    Ok! Demorei para passar aqui. Amiga negligente essa que você arranjou.
    Mas nesses vinte minutos em que me vi entretida em seus mais pensamentos soltos, as vezes, quase desconexos, pensei em muitas coisas.
    Um delas, me fez entrar no google, digitar uma pequena frase: “te mastigo dentro de mim, enquanto me apunhalas com lenta delicadeza”
    Lembrava que esse era um trecho de um livro que tenho, daquele bom e velho Caio Fernando Abreu. Jornalista no sentido mais romantico que possa existir, o gaúcho que escreve de forma visceral me veio à mente quando li esse seu texto da cruz.
    Bom, depois do “google nosso de cada dia” achei o trecho que queria transcrever… acho que ele define exatamente, o que eu -de forma tão pueril que chega a ser tola- tentei retratar nessas linhas a cima.
    (DÁ-LHE -rs- Caio!)

    “então me vens e me chegas e me invades e me tomas e me pedes e me perdes e te derramas sobre mim com teus olhos sempre fugitivos e abres a boca para libertar novas histórias e outra vez me completo assim, sem urgências, e me concentro inteiro nas coisas que me contas, e assim calado, e assim submisso, te mastigo dentro de mim enquanto me apunhalas com lenta delicadeza deixando claro em cada promessa que jamais será cumprida, que nada devo esperar além dessa máscara colorida, que me queres assim porque é assim que és…”

    (Caio Fernando Abreu)

  3. Thá disse,

    Fevereiro 22, 2008 às 12:26 am

    Eu li, Dado! Esses desencontros “meticulosamente arranjados” sempre me deixam desesperada. Textaço, como sempre, aliás. Um beijo!

  4. Jaq Spíndola disse,

    Fevereiro 24, 2008 às 2:43 pm

    Adorei seus textos!!!
    minha vida é uma rota cheia de encruzilhadas…
    um abraço menino

  5. Lilian Milena disse,

    Fevereiro 29, 2008 às 1:03 pm

    Olá Douglas, estou te escrevendo pra dizer que uma felicidade estranha tomou conta de mim desde que me contou aquilo ontem…Então obrigada.

  6. Sara disse,

    Março 11, 2008 às 5:39 pm

    Doug!!

    Acho que nunca me encontrei no seu blog..Nunca até seu último post. Parece que foi escrito pra mim…

    Parabéns pelo texto!
    Beijão
    Sara Heck

  7. Luciano disse,

    Março 13, 2008 às 4:32 am

    engana-se quem imagina que o desencontro é uma história de “não se ver”.
    o meu maior desencontro começou justamente quando eu cruzei o teu caminho.

    Caralho, FODA isso

    não tinha entrado no endereço novo, que mandaca…gora atualizei no spleenbar.

  8. Antonoly disse,

    Março 16, 2008 às 10:05 pm

    Que texto heim? meus parabéns, você escreve muito bem.
    Um abraço!

    http://www.blogonauta1.wordpress.com

  9. Bia disse,

    Março 18, 2008 às 2:46 pm

    Simplesmente, perfeito.
    Inspiração à flor da pele.
    beijo pra você!

  10. diogo disse,

    Março 19, 2008 às 10:19 pm

    Até que enfim te achei rs! Cara, leia um texto chamado “Pequenas Epifanias”, de Caio Fernando Abreu. Está num livro de mesmo nome. Acho que vai gostar muito e dialoga demais com o seu texto!

  11. Renateenho disse,

    Março 24, 2008 às 3:15 pm

    frases profundas hein!
    muito bom o seu texto… me doeu a frase: “os males do coração devem ser tratados com rapidez.”

  12. Natacha disse,

    Abril 22, 2008 às 1:52 pm

    Demorou muito tempo para que eu postasse o meu comentário aqui. Uma vez eu vinha e não conseguia comentar, outra o site expirava, e depois a correria. Não, não é dar explicações. Ou é? Enfim… não importa, estou aqui.

    Máscaras de vidro. Personas quebrantáveis. Mas não se desespere. Se existe alguma coisa nessa vida totalmente aproveitável é o vidro. Pode ficar na estante, pode virar prato, tela de TV. E depois, quando inútil, pode renascer do fogo. Derrete-se e toma outra forma, a que melhor apraz. A máscara é a forma, mas a essência do vidro, jamais é perdida.

    Estou de volta.

    Beijos!

  13. Natacha disse,

    Abril 22, 2008 às 1:57 pm

    Ah, não sei o motivo do meu comentário ao outro texto aparecer aqui, mas esse texto em particular. Do desencontro. Eu achei espetacular…

    Vai cozendo que a tua colcha de retalhos já vale mais do que o manto de qualquer rei.

    Adoração ao homem na cruz… o homem humano… pertfeito, Doug!

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