Cruz

Fevereiro 10, 2008 at 12:27 pm (Uncategorized)

engana-se quem imagina que o desencontro é uma história de “não se ver”.
o meu maior desencontro começou justamente quando eu cruzei o teu caminho.

é neste cruzar de caminhos que eu guardo fé.

as rotas dos teus passos traçadas nos meus mapas formam uma rede cheia de encruzilhadas,
como aguardar em vias engarrafadas o sinal abrir para presseguir viagem.
mas o sinal está fechado.

eu traço uma série de desencontros meticulosamente planejados. eu tenho que saber por onde você vai passar para me desencontrar urgentemente,

como alguém que planeja chegar atrasado ao próprio enterro

e fica mais tempo rezando em casa na frente de uma cruz.

(eu tenho fé no que peço)

justamente por isso eu me recordo:
te olhar asism, distraído, de braços abertos, é como ver uma cruz de pé na terra

que acalanta um povo desconsolado.

eu sou fiel ao mandamento de amar ao próximo mais do que a mim mesmo. desde que o próximo tenha a tua feição benevolente. para isso preciso estar perto, mesmo que meio de longe, me encontrando sóbrio para te desencontrar.

tocar a borda das vestes para receber o milagre da cura.

eu carrego este peso ao te acompanhar, na emergência de quem tem o corpo mutilado -
cruzar o teu caminho é traçar uma ferida sangrenta, aberta tal como a cruz vermelha dos carros de ambulância.

é preciso abrir caminho no meio dessas ruas obstruídas, com o estrondo da sirene portadora de mensagem de pânico -

esta rua morta é uma gangrena nas veias da cidade,

e a cruz vermelha dos feridos não é igual à cruz da igreja dos que têm fé.

doença mais forte é a que afeta corpo e espírito: você grita comigo como um padre que exorcisa os demônios.

mas não me crucifique por conta destes pecados:

os males do coração devem ser tratados com rapidez.

a minha religião é amar os homens.

você está no centro da minha cruz.

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