Seda

Janeiro 31, 2008 at 1:03 pm (Uncategorized)

as aranhas são seres com hábitos bastante curiosos:

não bastasse serem engenhosas a ponto de tecer suas próprias teias (e caminhar no alto mesmo sem poder voar), elas ainda são mestras em cuidar de coisas que levam tempo.

terminada a delicada tapeçaria, elas esperam até que uma mosca desavisada pouse as inocentes patas nos fios grudentos amarrados.

agora a presa está presa.
mas ainda deve aguardar
até que a aranha apareça, sádica, para enrolá-la toda em mais teia.

a pobre mosca fica coberta de seda

instantes antes de virar banquete.

talvez coincidentemente, tenho um medo mais do que primitivo por aranhas. aquelas oito patas ágeis que sobem em qualquer lugar me dão arrepios agudos.

uma das espécies mais perigosas deste monstro é chamada de viúva negra.

misteriosamente, a viúva negra tem estampada no ventre uma mancha vermelha no formato de uma ampulheta. dois triângulos, um apontando para o outro, justo na região do corpo onde ela produz a seda das teias.

é como se a aranha mostrasse maliciosamente que é capaz de gerar no ventre a hora de nos prender,
justamente como ela faz com as coisas antigas e há tempos intocadas.
feito os móveis daquele nosso quarto, cobertos de teia.
como o tempo tricotado ao redor da existência,
e todo o pó numa crosta de um cinza,
típico daquelas coisas que
já estão velhas
demais

eu saio de perto sem apagar a luz, já que você mantém o quarto ocupado (sem mim).

fica na porta fechada, olhando daqui de fora, o contorno do retângulo iluminado no meu corredor escuro. é feito o fio mais do que fino tecido por uma aranha conforme o nosso tempo foi esgotado — toda a areia da ampulheta jogada embora –

e só me sobrou esta porta fechada,
tecida enquadrada,
no formato do caminho que me levava até você.

eu ainda me penduro neste fio de memória que tenho de ti, de quando subitamente me acendia um sorriso bem mais forte do que a luz dessa (velha) lâmpada,

eu era como a mariposa girando ao redor do lustre,

de tão ilustres que eram os meus dias

(mundo que gira em torno do sol)

acho que vivi no estranho móbile das linhas deste tempo antigo
sem ligar de correr para longe da teia
que conduziria ao nosso fim.

(é tão bom deitar na tua rede
para participar do teu balanço
e me acomodar no conforto
do teu luxo
sem perceber que é justamente nesta
hora que eu acabo coberto
pelo teu manto de seda
vermelha
como a ampulheta do ventre
da viúva negra)

nosso quarto ficou todo empoeirado

como se toda a areia do tempo tivesse se espalhado pelo lugar.

(eu tenho aracnofobia).

3 Comentários

  1. Rodrigo Sampaio disse,

    Fevereiro 1, 2008 às 2:18 pm

    Salve! Douglas, que paciência de Jó passar texto por texto pra cá.
    Eu não tive problemas em me desapegar do meu velho blog. Mas cogito selecionar algum material para copiar ao meu blog atual também.
    Ferramenta Maravilhosa, o WordPress.
    Aqui, comentaristas anônimos podem ser vetados, rs…

  2. Thá disse,

    Fevereiro 1, 2008 às 10:27 pm

    Fala, Doug! Tava com saudade dos seus textos. Me supreendo sempre com eles. Com a sua capacidade de transformar as palavras, dando novos significados e sentidos a elas.
    O blog novo é lindo. E já tá linkado.
    Bom Carnaval, a gente se vê, na próxima semana.
    Beijos, Thá!

  3. Diego Leporati disse,

    Fevereiro 6, 2008 às 11:35 pm

    Simplesmente perfeito… Ta faltano coisa boa assim, bem escrita, circulando por ai…

    Abração

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