Roda
de todo o léxico do meu vocabulário, há uma palavra que eu não ouso proninciar.
é uma palavra que tem como significado o extremo oposto da “sorte”.
por superstição, esta e mais algumas outras devem ser ditas de trás para frente.
assim, a falta de sorte é “raza”.
ter uma má sorte é ter “raza”.
ser uma pessoa rasa é falta de sorte.
rasa é a cova que eu cavo para me esconder de você, tão profunda quanto uma poça de água. não tive a sorte de te despertar incêndio, mas só causar uma faísca. feito uma pedra que faz atrito em outra com força e quase não clareia, mas já é um desejo aceso.
quem sabe seja melhor esta pouca luz da faísca. assim mal vejo o futuro, e fico vivendo ao sabor da novidade. melhor mesmo é quando ficamos quase no escuro e mal posso te ver, de modo a poder te provar com todos os outros sentidos.
o destino é uma vela que se espera queimar até o final, para desmanchar toda a cera que é posta de pé.
então vou esperar queimar a cera da vela intuindo que sejam barras de uma grade. é a esperança que trago, tênue como uma faísca — a mesma que espero ter despertado em você –, de que a ação do destino derreta essas barras para abrir meu caminho.
assim, eu me atiro à própria sorte para me embrenhar por uma trilha que te siga. andar à tua procura é marchar descalço em um chão de pedras brutas. elas vão colidir entre si e faiscar conforme passo. vai ser como um chão de estrelas formando as constelações do meu futuro.
futuro profundo, sem “raza”.
eu atiro essas constelações abrindo os braços, como quem gira a Roda da Fortuna para saber do porvir. é como se eu espalhasse luzes sobre a rua negra para formar um emaranhado luminoso girando em formato de redemoinho. a via láctea é inteira uma roda da fortuna variando o meu destino.
estamos distantes como o idoso e o bebê do baralho de tarô, mas o meu destino gira rápido na Roda da Fortuna,
feito uma roda de automóvel, que se pára buscamente, derrapa e muda a direção do veículo.
o meu destino é ir pra longe, muito longe, rápido e sobre rodas. faiscar como as velas de um motor.
eu vou fazer o possível. cavar fundo no teu presente, sem falar pelo contrário
(o teu nome, eu pronuncio com todas as letras):
daqui pra frente, só sorte na vida.