Caracol

Outubro 20, 2007 at 8:16 pm (Uncategorized)

o purgatório é um redemoinho.

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entro no meu quarto denso de atmosfera e tranco a porta às minhas costas. fecho com tanto afinco que falta quebrar a chave. fosse possível girar pela terceira vez, eu a girava, porque eu me atenho às formas circulares. tudo para que eu possa tratar em paz dos caracóis que me embolam as idéias. eu coleciono conchas daquelas em forma de redemoinho, que só os caracóis são capazes de gerar.

caracóis são animais divinos.

podem não parecer à primeira vista por causa da sua textura viscosa, o corpo malemolente, os olhos na ponta das antenas. eles deixam rastros por onde passam.

eu tive paixão por esses seres quando fizeram com que eu conhecesse o mar. repare: não conheci o mar pessoalmente, mas por causa das conchas dos caracóis, é como se eu conhecesse. quando se leva uma delas às orelhas, é tal qual milhares de ondas quebrando em branca areia. há um som ressonante de mar lá dentro daquela estrutura óssea minúscula.

é como se o caracol carregasse o mar inteiro nas costas sem reclamar. deve ser por isso que aquela concha tem um formato de espiral. um redemoinho moldado em osso,

feito o redemoinho das águas num ralo, que brigam para correr rumo à única saída.

no percurso dos rios, quando há curvas muito bruscas, forma-se um redemoinho por causa velocidade da água. ela não se curva a tempo e dá voltas antes de prosseguir — voltas em torno de si.

este redemoinho também não deixa passar o que for intruso ao fluxo. fica tudo preso ao centro, como Moisés bebê em seu barco abandonado, à deriva para não ser morto.

aquele que veio das águas
foi o que teve poder sobre as águas.
poder para, com uma batida de vara, abrir o mar ao meio e atravessar com o seu povo.

sabendo desta dinâmica, me atribula meu atual estado. tanto medo, que o perfil das minhas mãos formam caracóis de tão fechadas que ficam. se eu mergulhar na tua concha, posso não me curvar a tempo quando alcançar a virada do teu colo, e passo a girar apenas em torno de mim.

por favor, não viole o meu ritmo enquanto eu procuro pelos os teus caminhos.

violar-me será como trincar rachaduras em milhões de conchas — e assim, todo aquele mar nas costas dos caracóis se desabriga e escapa pelos ares.
violar-me fará com que os céus se escureçam em uma chuva de lágrimas.

te seguir é feito um peixe dourado nadando num turbilhão de liquidificador — o céu descendo à terra em um redemoinho que me tira os pés do chão.

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tal como o mar, eu só conheço o teu mundo através de uma concha.

chegue um pouco mais perto,
acabe com esta distância.

este é um peso leve de se carregar.

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 o purgatório é um redemoinho.

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