Útero

Outubro 1, 2007 at 11:58 pm (Uncategorized)

às vezes, se tampo os ouvidos com força, posso ouvir, feito uma ressonância, as batidas do meu próprio coração.

estranhamente, passei a ter que tampar os ouvidos todas as noites para me refugiar dos barulhos e assim poder dormir.

mais: me viciei nesta ausência de sons, e mesmo em noites de maior silêncio, preciso voltar meus ouvidos para mim mesmo, entrar no ritmo do meu coração para adormecer em paz.

assim é meu sono, coisa comum dos que dormem sozinhos: se prender a pequenos barulhos, como companhia constante no quarto, tv ligada. repara que minha maior companhia vem de mim mesmo.

eu tenho ganas de saber como funciona o teu sono, para não ter surpresas quando dormir contigo.

preciso saber se o rádio está ligado enquanto dirige rumo ao túnel escuro do inconsciente. se é preciso música para te embalar enquanto derrapa até capotar. logo você, que parece sonoro desde o momento em que acorda. tem uma casa que não sossega, amigos que te visitam. tua casa é inteira viva para conter o teu descanso. eu quero saber como funciona:

por isso,
eu colo o ouvido nas tuas paredes como um futuro pai cola o ouvido no ventre da esposa para sentir a vida do novo filho,

eu, como um desses moços que criam gatos em casa, vou andando devagar, com a pata leve, pelos teus corredores para adentrar esta vida. até os cantos mais distantes são sonoros neste teu convívio. o teu momento de silêncio deve ser feito uma orquestra afinando os instrumentos para uma performance memorável.

o meu sono é quase uma prática ancestral:
como uma nova vida ainda em útero, eu ouço o som surdo do coração pulsante de uma mãe que gera vida.

poderei dispensar o minha forma de sono auto-referencial enquanto o teu abrigo me acolher de braços abertos,

mas precisarei pousar minha cabeça no teu peito para ter paz em nossa vida. entrar no ritmo do teu coração e ter um corpo que funcione como o teu.

sobre o teu peito, eu estou no útero do meu novo gerador. é como um batismo que me dá nova vida. eu renasço com todo esse acolhimento.

assim, posso parar de tentar chamar atenção com a minha tensão minimalista, feito o som de uma goteira. tão pequeno, mas insuportável em sua constância.

com tua ajuda,
eu cresço até transbordar

e poder inundar o mundo.

(eu sou dado à luz –

venha se batizar nas minhas novas águas).

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