Árvore
neste ano, o meu outono chegou alguns meses mais cedo.
eu fui ganhando a cor vermelha conforme o teu humor mais seco ventejava pelo jardim da nossa casa. até que mesmo despido de todas as folhas, rasgadas tão facilmente pela tua indecência, não fosse possível que me admirasse como antes,
e pelo contrário, você me lançou um olhar tão sólido, que parecia ser possível pegar com a mão a linha feita na trajetória. mais parecia um olhar reto talhado em madeira nobre,
uma pancada de vara seca.
fez que eu me sentisse ainda mais nu do que já estava.
e pior: com o corpo marcado como se fosse seu.
tolo: eu já tenho uma daquelas marcas que são feitas a canivete. perto das costelas, no tronco.
nessa hora eu fiquei plantado, feito uma árvore, com os pés bem enfiados no chão, braços abertos em direção ao céu. feito a árvore da vida dos que estudam a cabala. levantar as mãos só se for para agradecer.
(a voz de Deus é uma trovejada de calmaria.)
os céus se abrem frente a sua gana. eu bebo cada gota dessa água turva que você chove.
um banho de água fria que só serve pra me alimentar por fora,
porque eu continuo procurando o que há de mais profundo no teu chão, como as raizes de uma árvore. quanto mais alta nos céus, mais fundas no chão.
eu sou imortal até que alguém me derrube
e me prove do contrário.
a tua prova é uma lâmina de machado,
ou uma das tuas tempestades.
ninguém sabe, mas eu amo os teus períodos de catástrofe,
e, assim como uma árvore,
há quem aprecie inclusive por causa das sombras.