Homeopatia
estou passando pelas minhas doenças mais graves de uma forma bastante controversa,
porque eu fico doente, funcionando todo errado, quando te vejo no meio daqueles outros. mal sei se são de cura ou maldição.
eu me sinto um vírus em meio a esta roda de gente tão adversa.
eu venho me tratando do modo mais religioso possível, que é a ciência das pequenas doses. homeopaticamente.
quem tem dor e tem pressa não pode exigir da cura a sua compaixão por se viver de modo errado.
não é à toa que se chamam os doentes em tratamento de “pacientes”. é preciso paciência para drenar o sangue sujo para fora do corpo. é preciso grande força para represar o mal que eu não quero que se espalhe.
estou mudando o método para não precisar de mais sangrias.
nessa minha doença eu estou paciente: é mais uma questão de crença do que de resultado.
eu tenho um remédio que se deve tomar aos poucos, bem poucos, que é para não haver efeitos colaterais dos mais diversos.
e você é um dos poucos, bem poucos.
mas você me dá pouco do que eu preciso, só pra me fazer voltar mais tarde pedindo por mais.
eu venho religiosamente todos os dias para uma pequena dose tua, como uma irmã que pratica eucaristia. venho para a minha hóstia. sempre morder um pedaço do corpo de Cristo e me aproximar de Deus.
eu até gosto. mas pouco me serve. quero mais. sempre muito.
eu sou uma irmã beata pronta para largar o véu. começar a pintar as unhas, tingir o cabelo e, quem sabe, encurtar o vestido.
posso largar todos os símbolos, mas ainda virei, homeopaticamente, dia após dia, recolher outros pedaços:
esses não serão mais as pequenas doses tuas que você me obriga a vir consumir aos poucos,
mas serão os pedaços meus que foram se quebrando conforme eu andava por onde não é direito.
dessa vez, só mesmo uma sangria para me aliviar a moléstia. nada de doses vagarosas de algo que nunca será de todo meu.
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eu me sinto um vírus em meio a esta roda de gente tão adversa.