Ilha

Maio 20, 2007 at 1:55 pm (Uncategorized)

eu tenho paixão pelas águas.
mas água de chuveiro, de torneira, de garrafa. se for limpa, água de rio também vale.

mas morro de pavor de água de mar. grandes extensões profundas sem nada com que me segurar.
mas eu descobri rápido: não é o pavor pela água. é o pavor pela grandiosidade. de água pouca eu me esbaldo. de água muita eu me encolho.

então eu descobri rápido: não é pavor pela água. é pavor por paixões. paixão pouca, eu sonho alto. paixão muita, eu desfaleço.

foi preciso eu me afundar fundo no mar — paixão por água — para descobrir que homem nenhum é uma ilha. para se afogar ou flutuar, todos vão em grupos. vão em duplas. somos mais extensos aqui em terra firme. mas eu notei que por um tempo, esse medo de paixão fez com que meu território fosse menos: quando eu digo “aqui”, eu me refiro só até a porta do meu quarto. “aqui” é só o lugar onde eu moro.

“aqui” é só um lago de água rasa que mal te molha até as canelas.

eu sei que quanto mais cresço, mais a minha vida se expande. posso dizer “aqui” me referindo ao mundo inteiro. reafirmo a minha fobia por paixões: estamos em continentes diferentes. para chegar “aí” é preciso cruzar mares. não quero estar onde sinto medo.

se meu “aqui” é limitado, moramos em casas diferentes: eu estou aqui e você está aí.
mas se meu “aqui” é evoluído, estamos juntos no mesmo barco,

e cruzar o mar se torna uma tarefa mais simples.

se meu “aqui” é limitado, vivo em paz com minhas plantas,
mas se meu “aqui” é evoluído, há guerra santa em meu oriente. gelo glacial sobre os meus pólos. terras inférteis tentando ser cultivadas.

eu estou tentando não ser ilha. ser terra firme e bem extensa. estar “aqui” e estar presente, te ter presente.

ter tua presença é ter chuva de torrente no meio dos meus desertos.

derrama os teus líquidos no meu lago raso

para que eu seja uma pessoa mais profunda.

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Cama de gato

Maio 2, 2007 at 1:57 pm (Uncategorized)

aprendi muito pequeno a fazer uma brincadeira com as mãos.

um barbante amarrado para que não tivesse pontas era entrelaçado entre os dedos para formar uma figura a qual davam o nome de ‘cama de gato’. era preciso sempre duas pessoas para o jogo, já que uma passava a cama para a outra, formando figuras diferentes.

aprendi muito pequeno a montar a minha cama com barbantes nas mãos. a amarrar os dedos. a ter a cama com gatos. a cama de gato — figura diferente a cada pessoa que passa.

tem muitos gatos na minha cama.

gato vadio que sobe no telhado à noite. eu me divirto com seus miados e gemidos, o corpo que se contorce para dormir, se estica para espreguiçar.

que pula a janela sem ninguém perceber.

gato de luxo que sobe pelas cortinas, brinca com a bola de lã, arranha a minha porta para entrar.

gatos presos pelos barbantes.

é preciso quatro pernas para sustentar uma cama. eu preciso das minhas e mais as tuas. quatro pernas entrelaçadas tal como meus barbantes, os barbantes da cama de gato. gatos que sabem como pular alto, e altos vão os meus pulos pela noite adentro.

preciso de quatro pernas para o meu descanso. o meu e mais o seu.

a cama de gato só se faz com barbantes amarrados.

deve ser porque os gatos são bichos fáceis de escapar.

por favor, não se incomode se eu te prendo de forma tão voraz:

sinto que mal não faço em te manter na minha cama de gato.

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