Ilha
eu tenho paixão pelas águas.
mas água de chuveiro, de torneira, de garrafa. se for limpa, água de rio também vale.
mas morro de pavor de água de mar. grandes extensões profundas sem nada com que me segurar.
mas eu descobri rápido: não é o pavor pela água. é o pavor pela grandiosidade. de água pouca eu me esbaldo. de água muita eu me encolho.
então eu descobri rápido: não é pavor pela água. é pavor por paixões. paixão pouca, eu sonho alto. paixão muita, eu desfaleço.
foi preciso eu me afundar fundo no mar — paixão por água — para descobrir que homem nenhum é uma ilha. para se afogar ou flutuar, todos vão em grupos. vão em duplas. somos mais extensos aqui em terra firme. mas eu notei que por um tempo, esse medo de paixão fez com que meu território fosse menos: quando eu digo “aqui”, eu me refiro só até a porta do meu quarto. “aqui” é só o lugar onde eu moro.
“aqui” é só um lago de água rasa que mal te molha até as canelas.
eu sei que quanto mais cresço, mais a minha vida se expande. posso dizer “aqui” me referindo ao mundo inteiro. reafirmo a minha fobia por paixões: estamos em continentes diferentes. para chegar “aí” é preciso cruzar mares. não quero estar onde sinto medo.
se meu “aqui” é limitado, moramos em casas diferentes: eu estou aqui e você está aí.
mas se meu “aqui” é evoluído, estamos juntos no mesmo barco,
e cruzar o mar se torna uma tarefa mais simples.
se meu “aqui” é limitado, vivo em paz com minhas plantas,
mas se meu “aqui” é evoluído, há guerra santa em meu oriente. gelo glacial sobre os meus pólos. terras inférteis tentando ser cultivadas.
eu estou tentando não ser ilha. ser terra firme e bem extensa. estar “aqui” e estar presente, te ter presente.
ter tua presença é ter chuva de torrente no meio dos meus desertos.
derrama os teus líquidos no meu lago raso
para que eu seja uma pessoa mais profunda.