há uma sensação muito peculiar na música, que só cantar me proporciona:
cantar é algo que exige participação do corpo inteiro. diferente dos outros instrumentos, que são tocados com as mãos ou os pés. cantar não.
chego a me convencer de que cantar é a única forma de participar da música de corpo e alma. é como se eu tocasse a mim mesmo. uma forma de conhecimento que me fez especialista de todos os meus meneios.
tocar a si mesmo, mesmo sem mais ninguém.
é uma música silenciosa, sem instrumentação. sem gente para acompanhar.
é uma canção à capela. meu corpo é sagrado. chego a ter sinos no ouvido. o meu próprio toque no corpo faz música em sentido sublime.
canto uma música que sempre me faz lembrar de você. penso em você quando canto — quando me toco em todas as cordas, cravelhas, sapatilhas e botões. um som metálico-amadeirado-percutido-sincopado.
se eu for um instrumento tocado em tuas mãos hábeis, posso me tornar uma música mais harmoniosa. mais bonita de se ouvir. como o lápis é a continuação das mãos para quem desenha, posso continuar o teu corpo como se fosse uma coisa só. tocador o que toca. e instrumento o que ressoa.
eu sou um instrumento de paz, daqueles sons que se colocam na vitrola para relaxar, com o chiado gostoso da agulha no disco. um ouvinte já meio velho, mas com gosto refinado, que fuma enquanto ouve. que pousa os pés na mesinha de centro, que deixa um gato dormindo no colo,
que lê os créditos de gravação do disco.
uma música meio velha.
cantar é a única forma de me fazer ser parte da música
e a única maneira de chamar a tua atenção para mim.
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eu ando descompassado, sem demarcação de tempo. com passos meio tortos mesmo. sem ritmo. o meu solfejo quartenário conta mais do que os quatro tempos limitados. eu faço caber mais sextos, mais quintos, mais quartos — mais quartos de dormir na minha casa - o compasso é uma morada. eu moro em um intervalo de terça, no meio das notas.
as notas. estou sempre atrás das notas. sempre atrás de aprovação.
eu espero pelas tuas boas notas. vamos, me julgue e me dê uma nota.
eu escolho um canto escondido para experimentar a minha voz, mas esta sucessão de tons já não cabe na minha partitura, de tão complexo que se tornou esta tarefa de tentar te surpreender. de tirar uma boa nota.
me esguelo ao máximo para me estender em sua nota mínima.
me desarmonizo, mas a nota mínima dura pouco. dois tempos e já passa.
se dois tempos forem suficiente para mudar a tua idéia, então eu convenço rápido com o meu som. mesmo que não pareça, com essa desintencionada vocação apenas para os sons ambientes. só percebe que tocou quando pára:
blasé.
nem dá a mínima para a minha escala cromática - que passa por todas as notas, todos os acidentes. minha música já anda manca de tanto se acidentar — esta escala tão lenta: minha escola me ensinou a passar por todas as etapas, muito embora eu queira uma pausa, um respiro no meio da fala — não tenho fôlego para tua refinada percepção. teu ouvido absoluto me escuta antes de pronunciar, antes da tentativa. então só me sobra a quebra brusca, a mudança de andamento.
eu faço um verso ralentado para te preparar para o meu desfecho.
nesta hora eu vou semibreve,
quase depressa,
meio lento.
vai demorar até esta música terminar.
e quando terminar,
quero só ver você se esquecer a letra.
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