eu tenho a alquimia guardada em todos os meus frascos. em todos os perfumes escondidos, e nas bebidas os que já evaporaram.
isso me traz um cheiro agudo, de tão fugidio, que não dá nem pra pegar nem ver, mas é cheiro. deve ser cheiro de memória, daqueles que quando a gente lembra, já foi embora — sente de lugar nenhum –, e eu fico cheio de um aroma que adentra fundo nas narinas.
eu sou amante dos perfumes. doces, azedos, amadeirados. perfumes feitos de espírito de vinho.
conheci um álcool antigo, esse feito desse vinho. destila-se o vinho roxo até sobrar quase nada de vinho, até desencorpar, deixar ir embora. o que fica é o álcool etílico:
é esse o chamado espírito do vinho,
um gênio aprisionado na garrafa,
um frasco de uma bebida espirituosa.
quem sabe, se eu prender a respiração, fico roxo feito vinho. daí, quando soltar, aparece esse espírito também. espírito alcoólico, pra beber aos poucos, meu caro — que quando eu destilo, transborda do gargalo, escorre pelo pescoço.
mete a boca no vidro pra não desperdiçar gota alguma. é precioso o líquido. o meu amante há de apreciar:
os meus amantes vivem de garrafas espirituosas. andam torto, tropeçando, vão caindo de bar em bar.
enxerga dupla a minha áura espirituosa — eu tenho um gênio forte esperando esfregar a garrafa para sair –
garrafa de absinto. verde, bonita, brilhante e cheirosa –.
e quais são os seus desejos?
–
eu te quero sóbrio.
–
eu causo entorpecimento.
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nesses dias tão quentes, as coisas parecem todas acontecer mais devagar.
me dá uma sonolência gostosa que só parece me incomodar quando insiste em não ir embora. fica ao redor me deixando mais lento — eu tenho um sono que nunca se acaba.
e fica como que uma deixa no ar para que as pessoas desacelerem, estacionem. é hora de dormir por longas horas. hibernar no fim do verão — mas dormir em sentido figurativo, só para fechar a porta do banco, fechar a porta da loja, a porta da fábrica. deixar tudo lá, quietinho, desligado como sempre deveria estar.
deixar o carro de lado e voltar pra casa a pé, suando quente o paletó.
eu tenho o refresco de saber que o mundo fica mais quente só pra gente desacelerar. só para passar o dia na praia sem ligar para os números da bolsa, para o petróleo queimado, para as árvores cortadas.
os garotos do corpo bonito andando na rua com a camisa pendurada na cintura — ou pendurada no ombro.
eu me penduro nos calcanhares para ver melhor o que se passa. se me bate uma vontade de ir atrás, logo passa, como passa uma folhagem de palmeira caída pela rua vazia.
eu penso com pesar no calor que foi causado, mas espero que esquente ainda mais, para plantarem mais árvores,
para haver mais sombra,
para haver mais daquele barulho do vento nas folhas.
para haver mais malemolência.
para haver mais daquele sotaque gostoso que é vindo do Rio, da beira do mar,
mais água de coco.
nessa hora, eu vou malemolente,
bem devagar.
eu só estou preocupado com o dia lindo que está para escurecer.
e depois desse longo tempo de sono gostoso, daí sim o mundo pode voltar ao normal.
daí eu corro para me afugentar do frio.
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