Truque

Fevereiro 25, 2007 at 2:04 pm (Uncategorized)

nunca gostei de palhaços. aquele sorriso pintado na cara, sempre sorrindo, sempre sorrindo. eu nunca consigo manter um sorriso por tanto tempo. fico com cara de plástico, falso, o rosto começa a doer.

um palhaço famoso de quando eu era pequeno desmanchou toda essa maquiagem e contou como nasceu, no meio do circo: a mãe, grávida, começou a sentir as dores do parto no alto da corda bamba. ela desceu e deu à luz um menino, que cresceu e virou palhaço. nasceu e morreu no circo.

eu gostava mesmo era dos mágicos. mas não os comuns, ordinários, que sempre faziam os mesmos truques: aquele coelho branco saindo da cartola, a pomba branca por dentro da capa. eu gostava era daquele que sabia voar feito Peter Pan: David Copperfield. mas ele envelheceu e sumiu, e eu nunca aprendi a fazer os mesmos truques que ele.

até que um dia, um velho, num bar, abriu um baralho, partiu no meio, estendeu as cartas e me fez escolher três delas. eu escolhi as três sem que ele me incitasse, sem que chegasse muito perto, e depois ele pegou mais uma, e lá estavam os quatro setes do baralho. o de ouros, o de paus, o de copas

e o de espadas.

eu, que queria aprender os truques do mágico,

acabei me tornando um engolidor de espadas.

mesmo tento tentado tantas outras coisa, só mesmo o conforto doloroso da lâmina na garganta.

não pude ser o domador: não fui bem tentando meter a cabeça na boca do leão, dos meus leoninos — sempre os leoninos. o leonino é vaidoso, mas tem dentes fortes sabe como beijar. seguir a sua rota é pedalar o monociclo na corda bamba, com uma sombrinha aberta em uma das mãos, equilibrando um prato girando na ponta da vareta na outra. se vacilar, não há rede para amparar a minha queda. o público morde as unhas de aflição, se levanta quando eu tremo,

mas faz parte do meu espetáculo,

e o show não pode parar.

eu me irrito e cuspo fogo, atiro facas. mas há muitos truques que eu ainda não compreendi — e um que eu vi de perto: a mágica do desaparecimento.

o meu garoto fez a mágica do desaparecimento,

e nunca mais retornou para me ver.

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Deus ex machina

Fevereiro 4, 2007 at 2:05 pm (Uncategorized)

no teatro grego antigo, havia um artifício para resolver o enredo da história: quando os personagens se encontravam sem saída para seus conflitos, quando tudo parecia sem solução, aparecia uma figura divina para amarrar todas as pontas soltas da história. essa figura era, geralmente, levada ao palco por meio de máquinas, cordas, manivelas etc.

esse tipo de cena foi chamado, em latim, de “Deus Ex Machina”,

“Deus vindo de máquinas”,

“Deus é máquina”.

está errado. não é não.

a coisa que eu mais odeio no mundo são os parafusos. logo eu, que tenho tão pouco ódio pelas coisas. mas se for por parafuso, chego a sentir ojeriza. eles tão toda a sustentação para as máquinas. mesmo as que não usam parafusos. as roscas, as porcas, as travas, as presilhas. são tudo a mesma coisa, são todos da mesma família.

há uma sensação que me persegue tanto quanto o uso destes estranhos aparelhos. eles me dominaram. em todos os supermercados. olha lá, logo de cara. há uma câmera te olhando, e logo ao lado, uma tela com a tua imagem. você olha pra tela, mas não é como um espelho, você vê seu próprio rosto olhando para outro lado. eu não quero me ver olhando para outro lado. cada corredor, cada coisa que tiro da prateleira, está lá registrado.

eu falto não admitir, mas tenho que esperar pelos carros pararem para poder atravessar a rua. eu funciono melhor que um carro. eu não poluo o ar. eu não preciso de gente dirigindo para funcionar direito. não tente trocar minhas marchas, acelerar meu passo, que aí sim eu enguiço.

eu gosto mesmo é só das máquinas com poderes mágicos.

aquelas que sabem tocar música.

como pode um monte de coisa, um monte de geringonça, de bugiganga controlar tanto a minha vida? sinto como se pode sentir diante das coisas que ninguém pode ver: Deus Ex Machina. nunca vi quem controla o alarme das câmeras, ou quem me diz “boas compras” na entrada do shopping, ou quem muda a cor dos semáforos (presta atenção, que se o sinal estiver vermelho, você não pode passar, sob a pena de, se passar, outra máquina saber que você o fez, e você terá que dar dinheiro para outra máquina para corrigir a mal-pensado ato — ou, pior, se atingido por outra máquina ainda mais veloz — morrer de máquina).

Deus é onipotente,
onipresente,
está em todos lugares
e tudo pode ver.

como posso tomar outra conclusão, senão a de que Deus Ex Machina?

eu sinto vertigem, queda em parafuso. estou descontrolado.

mas presta bem atenção, que este apontamento é pateticamente equivocado: olha praquela tela que te mostra quando entrar numa loja. olha bem, mas bem de perto mesmo. olha pros pontinhos coloridos que formarem a tua imagem com cara de intrigado. aqueles pontinhos pequenininhos que só existem na tela, não existem no teu rosto.

presta bastante atenção neles,

e depois lembra do que os antigos já diziam:

o Diabo mora nos detalhes.

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