Meia-noite

Janeiro 13, 2007 at 2:06 pm (Uncategorized)

depois das grandes guerras, quando os governantes dos países resolveram ter suas próprias bombas atômicas, alguns cientistas criaram um relógio para marcar, simbolicamente, quanto tempo faltava para que o mundo destruisse a si mesmo.

conforme a humanidade vai sendo afetada pela poluição, pelo desmatamento, pela violência, o ponteiro do relógio se aproxima da meia-noite. para os seus criadores, meia-noite é a hora da destruição total.

assim, nestes últimos dias, em vista do aquecimento global, os ponteiros avançaram mais alguns minutos. agora o grande aponta o número onze, e o pequeno o doze.

faltam cinco minutos,

cinco minutos até a meia noite.

eu costumo ter sono em horários tão tardios, mas faltando tão pouco tempo para algo tão grande, é nessa hora que eu faço as minhas preces para dormir mais tranqüilo.

a natureza se vinga. ela tem esse hábito:
se vinga com tormenta,
tempestade,
terremoto,
e tem fome,
tem buraco.

eu tenho calafros, mas meia-noite, para mim será o contrário: é quando o dia começa.

comece o dia comigo, porque ainda é madrugada. não se conta as horas a partir de quando o dia nasce, mas sim de quando o dia é mais escuro: à meia-noite;

espera, que vai clarear. e seja esta meia-noite a escuridão de uma densa floresta, a mais densa de todas, com um pulmão cheio de novo ar.

quando der meia-noite, eu só quero dançar,

dançar até a pista de dança ter a minha cor preferida — esta pista tem o chão de madeira — dançar até criar raíz no chão –

eu quero ter essa raiz no chão, ficar preso aqui pra preservar esta terra.

dançar nessa floresta.

o meu mundo volta a ser verde.

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Inverso

Janeiro 6, 2007 at 2:07 pm (Uncategorized)

eu me adapto melhor às imagens invertidas.

demorei muito até notar que a imagem do espelho não é a imagem que as outras pessoas enxergam ao me ver. a imagem do espelho é invertida, ao contrário do que se enxerga. igual mesmo só a da fotografia, que capta tal como vemos.

eu às vezes me olho e imagino como seria se a imagem do espelho fosse refletida a partir da minha cintura, como nos baralhos de cartas: os reis, as damas e os valetes possuem uma figura refletida, de modo que se a carta for virada ao contrário, sempre terá uma cabeça certa e uma cabeça para baixo. o rei segura uma espada. a dama segura uma flor - e o que mais? um cetro? - e aquela roupa estranha, que não dá pra identificar onde termina para começar a imagem invertida.

quando comprei aquele outro baralho, o de tarô, me disseram que a carta, quando sai invertida, tem um significado completamente diferente. não consegui imaginar como a carta sairia de ponta cabeça: no verso de cada uma delas tem um pentagrama desenhado. se a carta está na posição correta, a ponta da estrela fica sempre virada para cima. dá pra ver como é que a carta vai sair mesmo com ela virada.

mas uma figura me chamou a atenção exatamente por causa disso:

O Enforcado.

um homem dependurado em um toco de madeira. ele tinha os pés virados para o céu e a cabeça perto do chão, com o tornozelo amarrado com um pano verde à madeira.

ele já estava de cabeça para baixo. como seria se ele ficasse direito? ele estaria de pé. amarrado pelo tornozelo, mas ainda estaria de pé.

ele invertido seria o que achamos normal?

seja o que for, eu gosto desses momentos de ter a cabeça no lugar dos pés, para me sentir menos preso à terra de vez e quando. se há um momento em que eu piso as núvens, o momento é este,

porque não se pode pisar o chão quando se quer que o mundo seja o inverso,

e eu estou esperando para mudar tudo de lugar.

e dispor as coisas ao meu jeito.

mesmo que seja de ponta cabeça.

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