depois das grandes guerras, quando os governantes dos países resolveram ter suas próprias bombas atômicas, alguns cientistas criaram um relógio para marcar, simbolicamente, quanto tempo faltava para que o mundo destruisse a si mesmo.
conforme a humanidade vai sendo afetada pela poluição, pelo desmatamento, pela violência, o ponteiro do relógio se aproxima da meia-noite. para os seus criadores, meia-noite é a hora da destruição total.
assim, nestes últimos dias, em vista do aquecimento global, os ponteiros avançaram mais alguns minutos. agora o grande aponta o número onze, e o pequeno o doze.
faltam cinco minutos,
cinco minutos até a meia noite.
eu costumo ter sono em horários tão tardios, mas faltando tão pouco tempo para algo tão grande, é nessa hora que eu faço as minhas preces para dormir mais tranqüilo.
a natureza se vinga. ela tem esse hábito:
se vinga com tormenta,
tempestade,
terremoto,
e tem fome,
tem buraco.
eu tenho calafros, mas meia-noite, para mim será o contrário: é quando o dia começa.
comece o dia comigo, porque ainda é madrugada. não se conta as horas a partir de quando o dia nasce, mas sim de quando o dia é mais escuro: à meia-noite;
espera, que vai clarear. e seja esta meia-noite a escuridão de uma densa floresta, a mais densa de todas, com um pulmão cheio de novo ar.
quando der meia-noite, eu só quero dançar,
dançar até a pista de dança ter a minha cor preferida — esta pista tem o chão de madeira — dançar até criar raíz no chão –
eu quero ter essa raiz no chão, ficar preso aqui pra preservar esta terra.
dançar nessa floresta.
o meu mundo volta a ser verde.
Permalink
Sem Comentários
eu me adapto melhor às imagens invertidas.
demorei muito até notar que a imagem do espelho não é a imagem que as outras pessoas enxergam ao me ver. a imagem do espelho é invertida, ao contrário do que se enxerga. igual mesmo só a da fotografia, que capta tal como vemos.
eu às vezes me olho e imagino como seria se a imagem do espelho fosse refletida a partir da minha cintura, como nos baralhos de cartas: os reis, as damas e os valetes possuem uma figura refletida, de modo que se a carta for virada ao contrário, sempre terá uma cabeça certa e uma cabeça para baixo. o rei segura uma espada. a dama segura uma flor - e o que mais? um cetro? - e aquela roupa estranha, que não dá pra identificar onde termina para começar a imagem invertida.
quando comprei aquele outro baralho, o de tarô, me disseram que a carta, quando sai invertida, tem um significado completamente diferente. não consegui imaginar como a carta sairia de ponta cabeça: no verso de cada uma delas tem um pentagrama desenhado. se a carta está na posição correta, a ponta da estrela fica sempre virada para cima. dá pra ver como é que a carta vai sair mesmo com ela virada.
mas uma figura me chamou a atenção exatamente por causa disso:
O Enforcado.
um homem dependurado em um toco de madeira. ele tinha os pés virados para o céu e a cabeça perto do chão, com o tornozelo amarrado com um pano verde à madeira.
ele já estava de cabeça para baixo. como seria se ele ficasse direito? ele estaria de pé. amarrado pelo tornozelo, mas ainda estaria de pé.
ele invertido seria o que achamos normal?
seja o que for, eu gosto desses momentos de ter a cabeça no lugar dos pés, para me sentir menos preso à terra de vez e quando. se há um momento em que eu piso as núvens, o momento é este,
porque não se pode pisar o chão quando se quer que o mundo seja o inverso,
e eu estou esperando para mudar tudo de lugar.
e dispor as coisas ao meu jeito.
mesmo que seja de ponta cabeça.
Permalink
Sem Comentários