Busílis

Dezembro 28, 2006 at 2:08 pm (Uncategorized)

eu gosto mesmo é dessas línguas que são criadas de uma hora para outra,
essas línguas que nós mesmos inventamos.

nas traduções dos textos antigos escritos em latim, boa parte dos termos não possuíam uma correspondência exata para outras línguas. houve a necessidade de se supor o significado de diversas palavras desconhecidas, como que para definir o todo a partir dos pedaços faltantes.

um termo, porém, permaneceu enigmático até hoje, e acabou se tornando sinônimo de mistério indissolúvel, ponto máximo de dúvida, clímax de uma questão:

a palavra “busílis”.

eu passei a imaginar o que seria o busílis de toda questão.

seja o que for, eu quero conter a minha curiosidade, apenas neste caso: prefiro imaginar assim, na minha própria língua, os segredos que a outra língua não me querem revelar.

melhor mesmo que eu não escute o significado, assim a minha língua procura por onde for conveniente. é assim que se descobrem as coisas, pela língua. e pela língua também que se levam os segredos adiante.

eu posso esconder nas palavras o que eu mais quero revelar, porque assim como um quadro, como uma pintura, a minha fala é só uma tentativa de retratar o mundo: há que se levar em conta que o real difere do dito fato ? e é preciso pôr o dito-cujo no idioma que mais caiba à tua boca,

que mais lhe apeteça a degustação,

que mais lhe incite o paladar.

é preciso misturar as línguas para se criar um novo idioma: a nossa forma de falar ganha um novo nome.

eu quero pedir com estas novas palavras para guardar todos os sabores do meu corpo.

assim descobrirá o que eu tenho de intraduzível ?

qual das minhas partes pode ser chamada de Busílis.


eu gosto mesmo é dessas línguas que são criadas de uma hora para outra,
essas línguas que nós mesmos inventamos.

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Contra-baixo

Dezembro 20, 2006 at 2:09 pm (Uncategorized)

o meu primeiro contato com os músicos foi confuso.

eu imaginava que eu poderia ser soprano, ter a voz de soprano. eu sempre quisera ser soprano. só por causa do violino. eu tocava violino naquela época. um instrumento que é feito corpo de criança, de tão delicado. deve ser por isso que é tão associado aos anjos.

descobri depois que era impossível eu ser soprano. soprano é só voz de mulher, e ainda bem aguda.
descobri então uma certa vissura pelos graves:

os tenores, barítonos e baixos.

principalmente os sons baixos.

e por incrível que pareça, o instrumento com som mais baixo - mais grave - é tão alto quanto uma pessoa baixa: o contra-baixo.

uma amiga disse que tocar contra-baixo é “celestialmente erótico”. perguntei a mim mesmo como algo pode ser ao mesmo tempo celestial e erótico. ela deixou claro:

para se tocar o contra-baixo é necessário, em primeiro lugar, estar sentado. depois é preciso que se acomode o instrumento entre as pernas, de modo a se encaixar nas coxas, na parte interna. os tons todos graves, as cordas grossas. quando se toca a nota sol, a mais grave de todas, não só o instrumento mas também todo o corpo do músico vibra junto com a nota.

é como se o músico e o instrumento fossem a mesma coisa, com a mesma ressonância.

e se o violino é feito corpo de criança, contra-baixo é corpo de homem feito. claro que a forma do instrumento não agradaria se fosse em carne e osso, mas eu esclareço a comparação para as partes que mais gosto em ambos os tipos de corpo: há que se segurar pelo braço e pressionar todas as cordas com os dedos; o peso sobre o corpo; o encaixe entre as coxas; o apoio no ombro; a vibração da voz rouca - se falar bem baixo, bem grave, meu corpo todo vibra junto.

o arco em movimento constante,

o arrepio de um acorde bem tocado.

o final repentino de uma canção.

eu só fico na dúvida quanto a qual corpo é mais celestialmente erótico para mim.

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Solo

Dezembro 12, 2006 at 2:10 pm (Uncategorized)

uma tribo africana tem o hábito de comer terra nos tempos de pouca comida, quando há escassez. eles combatem a fome tentando se assemelhar à forma de vida das plantas, comendo só com o que vem do chão.

não quero me equiparar à condição sub humana dessa falta lastimável de alimento, mas eu já experimentei esta mesma terra. quando criança, eu comia os pedregulhos que apareciam no quintal. ninguém sabia. mas é um prazer antigo que eu tenho pelos sabores acres, os azedos, os amargos.

talvez fosse um prazer por não haver a dor da fome,

como aquela forma estranha de se sentir prazer na queda livre antes de se abrir o pára-quedas,

ou o prazer de mergulhar naquela jaula para ver os tubarões de perto.

eu tenho ganas de encher a minha boca deste solo. é o que eu faço sempre: as coisas do mundo inteiro são feitas do mesmo material. às vezes em maior, às vezes em menor quantidade. mas tudo termina e começa sempre do mesmo modo. esta poeira espacial. somos todos feitos de poeira espacial. somos todos feitos de restos de estrelas.

eu abro a boca para consumir esta ancestralidade. essas frutas que sempre existiram em outra forma, essas roupas, esses automóveis, essas pessoas. tudo do mesmo material. quando eu morrer, e voltar a ser pó, que eu ajude a compor uma pata de elefante,

um chifre de touro,

uma pilastra de castelo,

etc.:

qualquer coisa rígida que dê sustentação a sonhos maiores.

maiores e mais fugidios.

isso tudo vem da terra,
depois volta pra terra.

estou devorando a minha passagem pelo mundo,

e desta vez eu quero me esbaldar.

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Lápis-lazuli

Dezembro 4, 2006 at 2:11 pm (Uncategorized)

os pintores da antigüidade não utilizavam a cor azul. não conheciam na natureza nada que tivesse a pigmentação desse tom divino. por conseqüência, também não atingiam os tons lilazes,

nem os índigos,

nem os violetas.

só conseguiram reproduzir a cor do céu quando descobriram uma rocha esfarelenta, com a cor mais fascinante que já viram: o Lápis-lazuli, a rocha azul.

o pó da pedra misturado a outros materiais gerava a tinta mais preciosa que existia, pois só existia no oriente, era preciso cruzar o mundo para consegui-la.

deram à tinta o nome de Azul Ultra-Mar.

o mesmo azul que ele usou para tingir os cabelos.

foi o que me contou: “era azul mesmo, não era azul desbotado. foi tingido com verniz de navio”. azul de verdade. então aproveita a referência e navega: cruza meu mar e atinge a costa - não tão larga, mas é a costa para se descansar, livrar-se do sono, preservar a própria vida,

porque a minha água é escura demais.

navega para o Ultra-Mar para conseguir a minha cor mais preciosa,

porque eu por água tenho absoluta paixão. é dela que vem o meu nome: Douglas - vindo de águas escuras; rio de águas escuras; tom de azul escuro. mergulha: não existe outra hora em que absolutamente todos os poros do corpo sentem o toque como quando se mergulha. então mergulha: navega tranquilo nesse azul profundo, que os sinais de direção vão todos perder o sentido.

esquece do norte, embaralha as estrelas, navega em círculos, se embrenha na noite.

desenha meu mapa,

decora meus caminhos,

e depois joga fora.

é nesse garoto de rosto bonito que eu me perco.

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