eu gosto mesmo é dessas línguas que são criadas de uma hora para outra,
essas línguas que nós mesmos inventamos.
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nas traduções dos textos antigos escritos em latim, boa parte dos termos não possuíam uma correspondência exata para outras línguas. houve a necessidade de se supor o significado de diversas palavras desconhecidas, como que para definir o todo a partir dos pedaços faltantes.
um termo, porém, permaneceu enigmático até hoje, e acabou se tornando sinônimo de mistério indissolúvel, ponto máximo de dúvida, clímax de uma questão:
a palavra “busílis”.
eu passei a imaginar o que seria o busílis de toda questão.
seja o que for, eu quero conter a minha curiosidade, apenas neste caso: prefiro imaginar assim, na minha própria língua, os segredos que a outra língua não me querem revelar.
melhor mesmo que eu não escute o significado, assim a minha língua procura por onde for conveniente. é assim que se descobrem as coisas, pela língua. e pela língua também que se levam os segredos adiante.
eu posso esconder nas palavras o que eu mais quero revelar, porque assim como um quadro, como uma pintura, a minha fala é só uma tentativa de retratar o mundo: há que se levar em conta que o real difere do dito fato ? e é preciso pôr o dito-cujo no idioma que mais caiba à tua boca,
que mais lhe apeteça a degustação,
que mais lhe incite o paladar.
é preciso misturar as línguas para se criar um novo idioma: a nossa forma de falar ganha um novo nome.
eu quero pedir com estas novas palavras para guardar todos os sabores do meu corpo.
assim descobrirá o que eu tenho de intraduzível ?
qual das minhas partes pode ser chamada de Busílis.
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eu gosto mesmo é dessas línguas que são criadas de uma hora para outra,
essas línguas que nós mesmos inventamos.
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o meu primeiro contato com os músicos foi confuso.
eu imaginava que eu poderia ser soprano, ter a voz de soprano. eu sempre quisera ser soprano. só por causa do violino. eu tocava violino naquela época. um instrumento que é feito corpo de criança, de tão delicado. deve ser por isso que é tão associado aos anjos.
descobri depois que era impossível eu ser soprano. soprano é só voz de mulher, e ainda bem aguda.
descobri então uma certa vissura pelos graves:
os tenores, barítonos e baixos.
principalmente os sons baixos.
e por incrível que pareça, o instrumento com som mais baixo - mais grave - é tão alto quanto uma pessoa baixa: o contra-baixo.
uma amiga disse que tocar contra-baixo é “celestialmente erótico”. perguntei a mim mesmo como algo pode ser ao mesmo tempo celestial e erótico. ela deixou claro:
para se tocar o contra-baixo é necessário, em primeiro lugar, estar sentado. depois é preciso que se acomode o instrumento entre as pernas, de modo a se encaixar nas coxas, na parte interna. os tons todos graves, as cordas grossas. quando se toca a nota sol, a mais grave de todas, não só o instrumento mas também todo o corpo do músico vibra junto com a nota.
é como se o músico e o instrumento fossem a mesma coisa, com a mesma ressonância.
e se o violino é feito corpo de criança, contra-baixo é corpo de homem feito. claro que a forma do instrumento não agradaria se fosse em carne e osso, mas eu esclareço a comparação para as partes que mais gosto em ambos os tipos de corpo: há que se segurar pelo braço e pressionar todas as cordas com os dedos; o peso sobre o corpo; o encaixe entre as coxas; o apoio no ombro; a vibração da voz rouca - se falar bem baixo, bem grave, meu corpo todo vibra junto.
o arco em movimento constante,
o arrepio de um acorde bem tocado.
o final repentino de uma canção.
eu só fico na dúvida quanto a qual corpo é mais celestialmente erótico para mim.
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uma tribo africana tem o hábito de comer terra nos tempos de pouca comida, quando há escassez. eles combatem a fome tentando se assemelhar à forma de vida das plantas, comendo só com o que vem do chão.
não quero me equiparar à condição sub humana dessa falta lastimável de alimento, mas eu já experimentei esta mesma terra. quando criança, eu comia os pedregulhos que apareciam no quintal. ninguém sabia. mas é um prazer antigo que eu tenho pelos sabores acres, os azedos, os amargos.
talvez fosse um prazer por não haver a dor da fome,
como aquela forma estranha de se sentir prazer na queda livre antes de se abrir o pára-quedas,
ou o prazer de mergulhar naquela jaula para ver os tubarões de perto.
eu tenho ganas de encher a minha boca deste solo. é o que eu faço sempre: as coisas do mundo inteiro são feitas do mesmo material. às vezes em maior, às vezes em menor quantidade. mas tudo termina e começa sempre do mesmo modo. esta poeira espacial. somos todos feitos de poeira espacial. somos todos feitos de restos de estrelas.
eu abro a boca para consumir esta ancestralidade. essas frutas que sempre existiram em outra forma, essas roupas, esses automóveis, essas pessoas. tudo do mesmo material. quando eu morrer, e voltar a ser pó, que eu ajude a compor uma pata de elefante,
um chifre de touro,
uma pilastra de castelo,
etc.:
qualquer coisa rígida que dê sustentação a sonhos maiores.
maiores e mais fugidios.
isso tudo vem da terra,
depois volta pra terra.
estou devorando a minha passagem pelo mundo,
e desta vez eu quero me esbaldar.
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os pintores da antigüidade não utilizavam a cor azul. não conheciam na natureza nada que tivesse a pigmentação desse tom divino. por conseqüência, também não atingiam os tons lilazes,
nem os índigos,
nem os violetas.
só conseguiram reproduzir a cor do céu quando descobriram uma rocha esfarelenta, com a cor mais fascinante que já viram: o Lápis-lazuli, a rocha azul.
o pó da pedra misturado a outros materiais gerava a tinta mais preciosa que existia, pois só existia no oriente, era preciso cruzar o mundo para consegui-la.
deram à tinta o nome de Azul Ultra-Mar.
o mesmo azul que ele usou para tingir os cabelos.
foi o que me contou: “era azul mesmo, não era azul desbotado. foi tingido com verniz de navio”. azul de verdade. então aproveita a referência e navega: cruza meu mar e atinge a costa - não tão larga, mas é a costa para se descansar, livrar-se do sono, preservar a própria vida,
porque a minha água é escura demais.
navega para o Ultra-Mar para conseguir a minha cor mais preciosa,
porque eu por água tenho absoluta paixão. é dela que vem o meu nome: Douglas - vindo de águas escuras; rio de águas escuras; tom de azul escuro. mergulha: não existe outra hora em que absolutamente todos os poros do corpo sentem o toque como quando se mergulha. então mergulha: navega tranquilo nesse azul profundo, que os sinais de direção vão todos perder o sentido.
esquece do norte, embaralha as estrelas, navega em círculos, se embrenha na noite.
desenha meu mapa,
decora meus caminhos,
e depois joga fora.
é nesse garoto de rosto bonito que eu me perco.
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