chover é um verbo impessoal. é algo que ninguém pode fazer.
me disseram uma vez que as gotas de água das núvens são gigantescas. devem pesar toneladas lá no alto, até a hora que resolvem cair. e vão se dividindo, se dividindo até ficar do tamanho de uma gota pequena e cair no chão.
foi o que me disseram.
e embora seja algo que ninguém é capaz de fazer, eu acho que ando chovendo demais, porque sempre que algo marcante acontece, a chuva vem torrencial.
então toma cuidado com o papel em que for escrever o meu nome. se molhar, vai borrar, e minha memória fica difusa.
(eu imagino que eu venho me acumulando no alto para saber direito onde cair. pesando toneladas. conforme a queda, vou me dividir para cair aos poucos no teu solo, molhar feito uma garoa fina, que molha sem se fazer notar - bem mais leve quando perto de você).
vai, se molha na chuva.
só não se esqueça de baixar a temperatura quando eu te encontrar. evapora os primeiros pingos com tuas mãos quentes - eu gosto de fumaça branca, de cheiro de incenso. eu molho os lábios, eu seco o rosto, mas o beijo na chuva é a parte que menos posso me esquecer.
pisa na poça, troca de roupa, corre do frio, acorda gripado.
eu acho que ando chovendo sempre quando algo marcante me acontece.
mas é nessa hora que eu mais quero ficar na rua.
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um músico estrangeiro fez o experimento mais inusitado que se poderia imaginar para compor seu novo repertório: utilizou as batidas do próprio coração como percussão das canções.
imagino que ele passou a ter que preparar seu estado de espírito com cautela, sempre antes de se apresentar, para nunca fugir do ritmo em detrimento da velocidade da pulsação.
embora eu não saiba dançar, foi uma das poucas vezes em que eu tive vontade de me levantar e experimentar o meu corpo em movimento com aquele som.
fosse com o meu corpo, a música seria diferente a cada vez que fosse tocada,
porque eu nunca me sinto da mesma forma ao ouvir uma canção que eu gosto,
tampouco ao dançar com alguém que me cative tanto.
então me ensina os passos, porque eu acho que vou gostar de trançar as minhas pernas nas suas enquanto o meu ritmo se acelera. a minha música muda de timbre, eu canto mais solto. me puxa para o palco. este é o seu melhor lugar.
eu gosto mesmo é das músicas que eu ainda não sei o nome. eu me encho de uma surpresa secreta ao ouvir algo que nunca ouvi. é uma das únicas situações da minha vida que eu sinto como se não pudesse fazer absolutamente nada.
acho que estou diante de um disco inteiramente novo aos meus ouvidos. quando é assim, eu páro tudo o que eu estou fazendo e fecho os olhos - só para ouvir essa voz que escutei tão pouco e que certamente é a mais bela do mundo - só porque eu pouco ouvi.
então aproveita, porque não é todo dia que eu encontro uma voz tão poderosa. canta a minha música, porque eu quero dançar até o meu último momento. abre a boca para falar. me engole, em um só gole. de uma só vez.
eu vou procurar encontrar a minha dança segundo a música que tocar. nunca soube dançar. pega na minha mão e me ajuda, eu ando tropeçando demais. me perdoa quando eu pisar nos teus pés.
cometa o maior dos pecados: risca os meus discos. prometo que nunca mais vou esquecer.
eles vão passar a repetir sempre a mesma frase.
se eu gostar, não precisa mais nem de aparelho:
eu mesmo passo a repetir.
basta eu gostar do que ouvir.
e isso depende pouco.
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encontrei no computador um lugar que é possível ver o mapa e a foto de qualquer lugar no mundo por satélite. começa com uma foto grande do mundo inteiro, depois vai chegando mais perto, mais perto. dá pra ver só as grandes estradas, depois as ruas, depois cada um dos prédios,
e cada uma das casas.
eu pude ver a minha casa pelo computador, lá do alto.
tive a impressão do mundo ser um lugar muito, muito pequeno.
há uma forma de medo que me acomete às vezes. o que me acontece é que eu sinto pleno pavor por ambientes apertados, com pouco espaço, o teto baixo. isso é chamado de claustrofobia. acontece que a minha claustrofobia me acompanha na extensão dos pensamentos. eu explico: sempre que conheço alguém com a mente apertada, é como um par de mãos apertando o meu pescoço. me sufoca.
estou sentindo este aperto porque fui longe demais: acho que entrei em um universo seu que ainda não me dava as boas vindas. ainda está apertado para a minha presença. é com pesar que eu noto. a tua morada não me abriga: eu não caibo nela.
eu tenho muitas outras formas de medo. já lido bem com a maior parte delas. mas uma das maiores formas é aquela que se molda exatamente no meu corpo. é quando a minha claustrofobia é do meu próprio crânio, do meu quintal, do meu campo, do meu estado:
esta foto do satélite vai chegando mais longe e o mundo fica menor, menor. eu sinto não caber mais aqui. é tudo a mesma coisa.
olha,
eu tive a impressão do mundo ser um lugar muito, muito pequeno.
isso me dá claustrofobia.
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há uma lenda que diz que os seres acestrais não pessuiam sexo. eram sozinhos capazes de criar novas formas de vida a partir do próprio corpo, sem interagir com mais ninguém. posuíam quatro pernas, quatro braços, duas cabeças, mas essas cabeças olhavam sempre para lados opostos. dizem que depois esse ser único se dividiu, e passou a ser necessário que uma pessoa se unisse a outra para poder se sentir como uma, para dar continuidade às espécies. a partir de então, houve a divisão dos gêneros. o macho e a fêmea. ainda hoje, as esponjas marinhas vivem dessa maneira. as águas vivas também.
(as águas são ancestrais: possuem um só gênero -
as vivas ou não).
tenho no meu corpo algumas partes que eu nunca soube a utilidade. o umbigo é uma delas, nunca soube para que serve. só sei que é uma cicatriz deixada pelo cordão na hora do nascimento. só sei que eu penso mais nele do que em qualquer outra coisa. só penso no meu umbigo.
os homens também possuem mamilos. uma mancha rosada em cada lado do peito. quase como as mulheres. acho estranho, mas já ouvi que é porque é tudo a mesma coisa. o mesmo ser. homem e mulher.
há uma forma de fisionomia que se assemelha a ambos os gêneros, tanto o masculino quanto o feminino. chamam de “andrógino”. eu sinto como se essa ancestralidade fosse a forma mais absoluta de arte. é como o rosto da Monalisa, como a voz de meu cantores prediletos. não diga que minhas veias são masculinas, nem a minha forma de escrever. mas tampouco tenho voz de mulher. eu quero colocar as minhas forças em uníssono, juntar uma à outra. quero dar concepção ao ser que sinto escrever por mim, porque assim como a escrita, ele me dá paixão.
não posso conceber,
eu não tenho útero.
mas posso dar forma à paixão.
eu quero compor a dissonância da dualidade semelhante. não dê importância a esse meu disparate: eu gosto mesmo da idéia que as coisas iguais vão além do mero aspecto corpóreo. por isso eu adoto a androginia de me comportar como ambos os gêneros. escolhe o que quer que eu seja, porque eu tenho imenso prazer com essa interação.
adentra meu corpo. estou a um botão de distância.
viola meus zíperes.
elásticos,
fivelas,
cordões.
eu me cubro de culpa,
mas o que eu mais admiro é a nudez escondida.
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