Madeira

Outubro 25, 2006 at 2:16 pm (Uncategorized)

o violino tem uma peça com o nome mais intrigante que eu já vi: “alma”. é um rolinho fino de madeira que fica entalado no meio do corpo do instrumento. serve para levar a vibração da parte da frente para a parte de trás da caixa de madeira, fazendo o som ressoar por todo o interior. como pode uma peça ter esse nome?

alma de madeira.

eu acho que tenho uma alma semelhante. de madeira. parece um bonsai, aquelas arvorezinhas japonesas minúsculas. uma miniatura de tudo o que eu acho medonho. miniatura de automóvel, de um revólver, de um helicóptero, de uma piscina,

de uma floresta.

uma floresta toda de arvorezinhas minúsculas.

(se você passar por ela, vou pensar que é um gigante)

na criação do bonsai, colocam uma estrutura de metal em torno do tronco da pequena árvore, só para fazê-la crescer de acordo com o formato desejado. vi um bonsai todo trançado. feito cabelo. justo uma árvorezinha que não vai passar de meio metro de altura.

eu tive pena, mas me calo, porque se eu fosse árvore, só saberia ser pé de maçã - eu por maçã tenho fascinação, repara: ela é firme, resistente. a fruta que mais se assemelha ao interior do tronco da árvore. toda sólido - oco já bastam os cocos, que só se parecem com madeira por fora. então crava teus dentes, morde com vontade - eu tenho prazer em matar a fome.

eu preciso dessa contenção. amarra teus arames ao meu redor para que eu cresça com outro formato. limpa meu solo, anda, bota fogo, que eu queimo muito fácil. incendeia a minha floresta. me fala uma palavra de madeira. pode ser qualquer uma, desde que soe polida na sua voz -

quero saber com quantas peças eu remonto o teu corpo,

como ressoa tua voz nesse belo instrumento.

(quando eu falo, meu tronco inteiro vibra junto)

deve ser a alma de madeira.

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Retalho

Outubro 17, 2006 at 2:19 pm (Uncategorized)

.conheci uma velha senhora uma vez, na casa de uma grande amiga. já estava muito doente, mal andava. não falava. ela fiacava sentada na cozinha com um cobertor no colo, um pedaço dele sobre a mesa, com as mãos esticando. ela empurrava, ajeitava e voltava. bem devagar.

.só compreendi o que ela fazia quando mexeu os pés. era costura. para ela, aquela era a máquina com agulha e pedais; e ela, a modelista. modela, modela. está pronto, e fez o ponto

(sem agulha).

.quiseram me convencer de que um ponto é o encontro de duas retas - o ponto de encontro. não, nisso eu não acredito, é balela. esses matemáticos e a mania de filosofar em cima das coisas que são de verdade - esses pragmáticos que catalogam as circunstâncias que são bem mais complexas.

eu já devo ter dito, dois pontos: eu faço muitas coisas de trás pra frente.

às vezes, até mesmo a minha leitura é ao contrário,

e quando é assim, ela começa com um ponto.

então eu puxo o gancho da minha interrogação: quando no meio de uma página eu pesco alguma dúvida, já é gancho para a mais vasta rede de intenções. uma rede bordada - e bordada com pontos.

quem conta um conto, aumenta um ponto..

então costura as partes da minha rede antes que eu perca os moldes e não saiba remontar o tecido. aumenta meus pontos: deita comigo, porque eu conheço os pontos corretos. agulha no ponto é exclamação: eu me transformo em diversos com essa colcha de retalhos, cortina de retalhos, retalhos de retalhos.

rasga tudo. desfia minha impressão de vida. mas desafio: costura o meu comportamento de volta (tecido vermelho, eu corro em sua direção).

eu não terei mais nenhum nó do que era antes.

ponto é só o nó que vem depois da linha.

.e pronto.

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Hedonismo

Outubro 9, 2006 at 2:23 pm (Uncategorized)

sempre acreditei que tivéssemos apenas cinco sentidos: visão, audição, olfato, tato e paladar; até que me incitaram a reconhecer novas formas de percepção. são as mesmas, mas vistas de outro modo. os próprios cientistas se renderam e admitiram: temos dezenas de sentidos. se for tato, pode ser quente, frio, arder, ou doer; se for gosto, pode ser doce, salgado, azedo, ou picante; para ouvir, pode ser baixo, alto, estrondo, ou sussurro. se for visão, pode ser preto, branco, amarelo, vermelho, ou azul.

eu tenho um sentido azul,

mas um sentido azul que não é de visão.

eu chego de canto para atestar se hoje eu estou perceptível. perceba que a forma de voz que eu uso muda constantemente. eu faço acorde, eu erro a letra, mas para mim, a forma mais clara de se sentir é pelo canto ? o som ecoa para todos os sentidos: música preenche, então toca - com maestria. toca com paixão de artista. toca, porque eu sou hedonista na verdade. faço culto ao prazer dos sentidos.

então se toca,

depois me toca -

que eu ativo milhões de canais,

e recrio a minha forma de imaginar.

(este é o meu sentido azul: o de ter sentidos infinitos. então caminha no meu sentido, que minha direção será sempre a mesma. se eu canto, o sentido se espalha - grande atributo do som. mas eu também sou amante do silêncio:

assim, posso ouvir melhor todas essas coisas que eu sinto.

então sinta-se,

transforma essa percepção.

transforma tudo em um canto infinito).

cante.

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Superfície

Outubro 1, 2006 at 2:23 pm (Uncategorized)

tive um grande pavor quando descobri o significado do meu nome. Douglas: aquele que vem de águas escuras. eu tenho uma grande fascinação pela água, mas me dá medo a vastidão de uma piscina, de um rio, de um lago, e assim por diante. mesmo as que têm aguas claras.

há uma consciência misteriosa sobre as coisas que acontecem no mundo. ninguém sabe porque, mas acontece. eu me encontro em estado semelhante. não me pergunte o motivo. mas esse deslumbramento, para mim, é novo. notei que alguns insetos possuem o poder de andar sobre a água, com aquelas patinhas tão leves, e a água parada. não afundam. é como jogar um fio de cabelo em uma tigela, ele bóia. mais tarde descobri o motivo. a água tem uma espécie de pele. não é bem uma pele, mas é como se fosse. é bem no lugar onde ela termina e o ar começa. aquela força que o líquido tem de ocupar os espaços, e aquela gravidade, aquele ar em cima, superior em sua altura, e aquilo gera tensão.

a pele da água se chama tensão.

tensão superficial.

eu me pergunto se a pele das frutas também sofrem tensão. eu mordo o lábio, ranjo os dentes. qual será a tensão da uva desidratada? aquela pele enrugada certamente não surgiu por meios naturais. ficou uva passa. anda e passa. anda passada.

então passa pelas minhas águas, transcede a minha superfície. irrita a minha tensão,

anda por esses caminhos escuros,

porque eu quero a naturalidade das frutas maduras, há de se esperar pela hora certa. cedo é verde, é verdade, mas logo amadurece. cuidado, passando o tempo, cai e apodrece. eu quero o maduro, mas não o adulto. não o adúltero. não o adulterado. não adultera o meu formato,

que o meu tempo de plantio já passou.

estou apenas aguardando a colheita.

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