Libra

Setembro 23, 2006 at 2:24 pm (Uncategorized)

eu vi uma abelha tentando passar pelo vidro da janela. aquela superfície lisa e transparente, e ela tonta, fazendo barulho e tentando passar, e a abertura da janela logo ao lado. era só voltar um pouquinho, fazer uma curva no vôo, e sair para o ar livre.

imaginei se aquela abelha tinha consciência da tentativa absurda, se ela sabia que é impossível atravessar o vidro, e que ali perto tinha a abertura. mas imagino se eu mesmo não estou fazendo uma tentativa tão absurda quanto a dela. eu quero adentrar um aquário, vigiar um aquariano,

aquário em libra. virgem, sagitário, ariano - não sei mais nada.

minha astrologia anda desgastada.

mas ele conversa em libras, língua de sinais,

então guarda um segredo no silêncio desses gestos. faça um gesto para me contar o que eu quero saber.

eu tenho comigo a concepção de marcar os pesos, as medidas das coisas, para sempre gerar equilíbrio. os pratos da balança hão de sempre descansar na mesma altura, qualquer que seja o meu objeto de comparação. eu, por exemplo, tenho a necessidade de pesar tanto quanto uma folha, um galho, uma pena, um pedregulho, uma libra.

coloca as coisas na balança para ver se equilibra comigo, porque eu ando pesando mais com esse estado de zelo, de pensar mais em outro do que em mim. ah, junta as libras e as coloca em ordem, porque você conhece as libras, fala muito bem essa língua:

codifica a minha linguagem corporal,

porque eu ainda não sei romper esse silêncio.

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Césio 137

Setembro 15, 2006 at 2:25 pm (Uncategorized)

um sucateiro encontrou uma vez uma caixa de metal pesada, no lixo do hospital. parecia equipamento de espaçonave. ele não sabia, mas dentro tinha uma coisa que brilhava azul. ele vendeu a caixa para o ferro velho, e o novo dono da descoberta ficou encantado quando a desmontou. imagine a alegria quando chegou em casa e gritou “querida, encontrei o brilho azul dentro de uma caixa!”, e se esbaldaram do milagre.

morreram todos, a mulher, o homem, a filha, os vizinhos, os parentes.

tudo por causa do brilho da caixa -

brilho radioativo.

nos sacos isolados nos quais foram enterrados aparecia escrito “perigo - césio - radiação”.


eu estava num salão escuro, aquele auditório imenso, quase sem luz, e a tela lá, projetada, passando um filme sobre o acidente. aconteceu de verdade apenas três dias depois do meu nascimento. a criança que morreu ficou com a cara toda brilhante.

o que me chamou atenção mesmo foi o teto. eu estava perto do teto. eu olhava atentamente para aquele teto, e me pareceu logo que fora feito para se parecer uma arena, um rinque de patinação, de tão parecido com o chão - uma pista suspensa. tive vontade de pisar aquela superfície se pudesse, andar de cabeça para baixo. a perspectiva de onde eu estava o fazia parecer uma esfera. como seria se fosse uma esfera convexa no lugar do céu? seria como um outro mundo querendo se chocar com a terra. o chão do outro mundo lá em cima, no lugar do teto.

eu falo,

quero pisar o teto.

e as pessoas sentadas para assistir ao espetáculo certamente terão que se deitar no chão para enxergar o alto. vamos assistir à novidade!, porque eu quero esse novo mundo. todos sempre ávido por encenações, e eu faço drama: o outro mundo vai ver como é o nosso céu à noite, cheio de gente deitada com os olhinhos cintilantes, brilahndo, brilhando, tudo aglomerado. essa é a minha constelação - eu não me canso de olhar. se eu apontar do dedo para os tocar, será como a pintura da criação do homem: o homem tentando tocar o deus. 

E.T. phone home.

só presta atenção:

a família morrereu por causa do brilho que encontrou.

quando eu pisar no novo mundo, quererão me desmontar para ver como funciono,

e eu não sei que forma de radiação poderá ser encontrada.

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Tourada

Setembro 7, 2006 at 2:28 pm (Uncategorized)

notei um disparate na minha vida. é certeza antiga que a gente já nasce destinado a morrer. então o declínio deveria vir do começo: as pessoas nascerem completas e minguarem aos poucos, até o fim da vida. mas não. as pessoas precisam nascer completamente indefesas, aprender uma infinidade de coisas. precisam pensar (pelo menos pensar) que sabem de alguma coisa. e depois morrer.

olha,

não sabemos nem andar quando nascemos.

os cavalos já nascem andando. um pouco desequilibrados, claro, mas já sabem parar de pé. e também os búfalos. lembra daquele comercial na televisão? era de uma marca de jeans. um casal de jovens andava na rua deseta à noite, até que começava o caos de uma enorme manada de búfalos invadindo a cidade, correndo com fúria. os jovens apenas davam as mãos e ficavam parados, no meio da rua mesmo.

nenhum búfalo os atingiu.

passavam pelos lados, na mesma marcha violenta.

eu tento saber qual dessas partes estamos fazendo: se estamos parados de mãos dadas no meio da rebelião dos búfalos, ou se somos nós mesmos fazendo essa corrida. porque se for a corrida, não vou me contentar em apenas querer chegar primeiro: de repente os búfalos se encaram, e logo é a corrida é outra: é para atingir os chifres um no outro. correm de longe para dar a cabeçada.

então faça a tourada,

chacoalha um pano vermelho na minha frente, porque eu corro atrás de qualquer impressão que me chame atenção. isso me desperta. só não fica no caminho quando eu arrastar o pé no chão, porque eu não quero passar por cima de mais ninguém.

foge antes, a tourada é violenta demais,

mesmo nascendo destinado a morrer.

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