ele chegou com mais uma daquelas suas pequenas invenções. deu para esta o nome de “furo da agulha”. era uma lata de leite toda lacrada, com papel fotográfico dentro, e um esparadrapo tapando o que ele disse ser um furo minúsculo, do diâmetro de uma agulha. esta invenção, me contou, era para tirar fotografias mágicas, então há que se fixar muito bem a lata para não tremer a imagem. eu até cheguei a comentar que isso já existia, que ele andava repetindo muito o que já fora feito, mas ele ficou com aquele olhar de acusação, então eu parei:
não quis fazer o seu dia nublado.
então ele me apontou a lata disse “tente não se mover muito”,
e retirou levemente o pedaço de esparadrapo da parede da lata. eu tive um espanto ao perceber que não enxergava o furo da agulha, de tão fininho lá no centro da lata. me perdi de pensar em como seria esta forma astral da minha imagem, até que ele interompeu a minha divagação: “pronto, agora é só revelar”.
tive ganas de eu mesmo tomar aquela lata e levar para a química. talvez eu esteja inteiro tentando passar pelo furo da agulha, mas o fato é que a imagem perpetuada me enche de um pavor medonho de não estar aqui quando este papel apodrecer.
Então eu digo: revele-se,
entra na minha sala obscura,
porque esta será uma fotografia rudimentar. borrada. você vai me explicar que se trata da impressão da minha imagem, a forma como eu apareço na memória. eu me intrigo e peço: não me distorça,
mas isso pra mim é como o homem branco dando um espelho aos índios:
algo que eles nunca compreenderiam,
mas os faz passar a ver a si mesmos tal como eles realmente são.
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entrei na loja de artigos esotéricos. a garota que trabalhava lá passava o dia inteiro sozinha. de vez em quando alguém entrava, é verdade, mas ela respondia a qualquer pergunta de forma mecânica, decorada, tal como um rádio repetindo uma gravação. apontei para uma bolota de cristal toda facetada, do tamanho de uma maçã, pendurada com uma corrente. ora, eu quero uma dessas.
“olha só, este cristal é boreal, veja como ele reflete a luz…”
ela aproximou a bolota de cristal de uma lâmpada próxima, e logo a pequena loja ficou cheia de reflexos coloridos. eu não comprei o cristal, mas imaginei mais tarde como seria aquela luz retalhada e colorida refletida no meu quarto escuro, com a luz apagada, só com um pequeno feixe apontado para a bolota facetada transparente,
pendurada, prestes a cair ?
se cair a maçã, então eu descubro a gravidade.
olha a gravidade do meu problema: é muito grave,
então grave o que eu te digo,
tudo,
porque acho que o meu pomo-de-adão é tão boreal quanto aquela bolota facetada. essa maçã está na minha garganta. me envia um feixe fraco, que eu cuspo esses retalhos luminosos por todos os lados. então não me ilumina por enquanto, porque eu quero permanecer incógnito. esta é minha aurora - só é visível nas partes mais frias de mim. a minha noite fica mais clara,
e eu fico mais calmo:
estou prestes a amanhecer.
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eu vi um palhaço no parque. ele divertia as crianças. fiquei apreensivo, porque eu não gosto de crianças, tampouco de palhaços - os acho monstruosos, eles são medonhos. aquela maquiagem que imita um sorriso disforme na cara toda branca, aquilo me dá medo.
eu prefiro os mímicos.
sinto tentar fazer mímica às vezes. isso de não falar nada para me comunicar é mais mímica do que tudo. minha forma de manter qualquer um longe da minha atmosfera. é um espantalho que eu coloco no meio da plantação. não chegue perto, eu digo, se for um corvo querendo essas abóboras, não chegue perto, que elas são enfeitiçadas, são abóboras apenas para as bruxas. então faço manha e compito para ver de quem é a careta mais assombrosa: a das abóboras ou a minha própria. eu cansei dessa estética horrenda, de corpo de palha, de cara de pano, de braços abertos - não é para acolher, é para assustar. assim eu ajo - acho que sou este espantalho no meio da plantação de abóboras.
toma cuidado para adentrar a minha plantação, porque ela toda sou eu. esta é minha colheita maldita, minhas sementes se espalhando por todo lugar. eu tomo conta da festa, e logo é hora do sabá, a festa das bruxas. ela vão chegar não se sabe de onde, só para ter o prazer de se reunir. ah, santa magia, o boneco volta a ganhar vida. me ensina uma poção, que eu sou aprendiz de feiticeiro. olha a minha cara disforme. cuidado com o caldeirão, cabem muitos ingredientes aqui.
então pensa: qual a poção para fazer tesouro afogado vir à tona, fantasma ganhar nome, menino virar homem? pega essas folhagens com raízes, fruta seca com sementes, água ferve e mexe tudo, até borbulhar, e o caldo entorna. já sei qual é. beba quente à meia noite, sem titubear.
anda,
que as bruxas logo estarão de volta,
e eu não vou poder fingir que não as conheço.
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não sei diferenciar os sentidos. pra mim, tudo entra na cabeça sem distinção, e é a minha forma de perceber o mundo. pouco importa se for uma visão ou um som. o que foi isso? foi o mundo que se fez percebido por mim.
eu escrevo com a mão direita. nunca soube exatamente o motivo, mas uso a direita. só soube depois, mas todos esses órgãos simétricos possuem suas distinções. ser destro dos olhos, destro dos ouvidos, destro dos pés. quando me perguntaram qual o meu ouvido do ofício, foi minha cabeça que ficou assimétrica. e agora? o que vou dizer para justificar a minha ignorância do meu próprio corpo? como posso dizer que me conheço perfeitamente se eu não sei fazer meus órgãos agirem de outra maneira?
li a carta de um cientista. tenho paixão por música, por concertos. ele tratava dos canhotos dos ouvidos. céus, dos ouvidos! ele disse que para um canhoto dos ouvidos conseguir ouvir como um destro, é necessário subir até o teto do teatro e virar de cabeça para baixo. só assim pode desfrutar do concerto da mesma maneira.
é o que eu quero fazer,
subir ao teto mais alto e virar de cabeça para baixo para conseguir ouvir direito quem está me chamando insistentemente. alguém me chama. insistentemente. ficar lá, dependurado. acho que sou um acrobata, para subir me contorcendo. dobrar o corpo, dar nó nas pernas, torcer a coluna. virar do avesso para caber numa caixa. (na caixa, eu caibo; no mundo, não garanto). me empurra, que eu sou um pêndulo. vai e volta, vai e volta - não, não volta nunca. só vai. quando vai voltar, eu mudo. nunca mais sou o mesmo.
eu gosto é de espetáculo.
cospe fogo, homem dragão; vira dragão, homem verde,
que quando eu voltar, eu vou limpar as cinzar para nascer nova pele. vou tomar banho no rio, muitas vezes.
não, uma só.
porque o rio nunca mais é o mesmo.
e nem eu.
acrobata.
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