(os homens são azuis. as mulheres não. coisa antiga. azul é associado aos homens por causa de deus. deus é bom, e a sociedade é patriarcal, machista. o céu é azul, então azul é a cor dos homens. às mulheres, pobres umas, sobra o vermelho. eu nunca concordei com isso realmente. das mulheres deveria ser verde, como as plantas - a cor do nascimento. mas não, quiseram dar a elas a cor do inferno, do sangue. eu, como sou o equilíbrio, escolho para mim o violeta. o vermelho mais o azul. a junção das coisas - o bi, o homo.)
eu cortei um pedaço do meu cabelo. tenho prazer nessas multilações que não dóem. nem chega a ser uma multilação. não me contive e cortei outro pedaço, gostei das mechas mais curtas. cortei mais. cortei até os cabelos ficare bem curtos. não me contive e os deixei ainda mais curtos, cortei até deixá-los quase à altura da pele, e depois até raspar completamente a cabeça, deixar a pele à mostra.
eu não sei frear o meu prazer pelas coisas.
eu tenho desejo por tudo.
desejo. a palavra soa vermelho, mas no meu vocabulálrio, é violeta. palavra violeta. desejo violeta. na concepção, é violenta. eu gosto da violência das cores vivas, fortes. as cores da minha aura - aura violeta - e violenta. minha cor, a cor de quando o dia amanhece - o dia amanhece violeta. cor da transformação da madrugada em manhã, da transformação de todas as coisas - transformação violenta. eu já completei minhas tranformações, mas essa cor me faz sempre mudar o que já está calcificado - com violência. assim, o sangue vermelho logo vira o desejo violeta, bombeado por coração violento - meu coração também é violento, é selvagem. essa pulsação me faz correr a cada ponto do corpo. essa é a minha terapia, a terapia das cores. eu gosto da ressonância, do atrito incômodo de um tom chamativo.
(tom de cor ou de voz.)
então eu gosto dessa voz ressonante, violeta, violenta. vem, anda, fala o que eu quero ouvir, eu quero essas palavras fortes e coesas (desconexas, já bastam as minhas, que são jogadas a olhos fechados).
eu tenho sempre os olhos fechados.
qual é a cor que você vê quando fecha os olhos?
a minha é violeta.
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eu gosto de olhar para o céu à noite. eu tenho fascinação pelas coisas do espaço. acho, inclusive, que a vida humana vem de lá. a vida humana e todas as suas variações. quando eu disse isso, ele achou graça: “eu também acho, deve haver muitos extraterrestres entre a gente. eu mesmo me sinto um de vez em quando”. eu me lembrei daquele caso do homem que ficou desaparecido por muitos anos. pensaram que ele havia morrido. quando apareceu, contou que ficara vivendo em uma cidade escondida, povoada por alienígenas, construída nos subterrâneos, no meio do oceano.
ele foi dado como louco.
ninguém acreditou nas coisas que ele disse.
mas eu sim. eu quis correr para poder contar àquele pobre descreditado que eu acreditava naquela história toda; que eu também queria conhecer os seres do espaço; que eu sempre procurava nas estrelas alguma forma de mapa para desvendar esse mistério; mas não pude dizer nada porque eu moro longe, estou sempre longe, distante de tudo, não pude dizer palavra alguma. o amigo me diz “teu problema, narciso, é o excesso de divagação”. eu divago bastante, eu sei. sinto não morar mais em mim - daí essa distância. mas eu sinto também querer divagar para descobrir as coisas, para estar presente quando a nave espacial pousar no chão - aí eu volto para mim, num pouso leve e premeditado.
porque a minha divagação é para descobrir as coisas,
ou para ter a percepção de um satélite, saber captar essa forma de vida extraterrestre existente no nosso comportamento arredio. humanidade arredia. quanta humanidade presente nessa parábola. parte da minha natureza.
eu quero saber codificar este sinal.
eu sou monstruoso,
acho.
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quando fui ao quarto dele, encontrei um casco de tartaruga na estante. estranhei. perguntei se ela fora viva algum dia, ele respondeu que sim. mas então do que ela morreu? “morreu de esquecimento”. fiquei um tempo para compreender. faz sentido, tartarugas vivem tanto que ela deve mesmo ter esquecido da própria vida. “não”, ele me corrige, “ela foi esquecida. virou de ponta cabeça no meio do sítio e ninguém viu. tartaruga, quando vira de ponta-cabeça, só desvira quando alguém ajuda. ninguém viu, ela morreu dias depois.”
ele não soube responder por que as tartarugas não desviram sozinhas. depois eu descobri. é porque a coluna delas é colada no casco, são uma coisa só. senti um frio na minha espinha - talvez fosse eu querendo me desvirar também. ele é afixionado por miniaturas de esqueletos. eu admiro essa fixação. os esqueletos, ele diz, sustentam tudo o que a gente quer ser. se quiser sonhar alto, com a cabeça nas núvens, é preciso então um esqueleto de dinossauro.
fiquei pasmo olhando para minha própria mão. nunca soube explicar de onde vinha esse meu movimento. ficamos montando aquela miniatura de dinossauro, que mais parecia um quebra cabeça. ossinho por ossinho - mesmo em miniatura, aquela réplica ainda era bem grande. acabaram as minhas peças, falta uma parte da ossada do dinossauro. anda, eu disse, só falta a sua peça. cadê ela?
ele a segurava na mão. só mais essa pecinha para finalizar o quebra-cabeça, vamos, monte. mas ele olhou com pânico para o modelo quase pronto que acabaramos de montar. nenhuma palavra. eu fiquei observando, tentando absorver cada sinal que sua face mostrasse, de que aquele mistério deveria se manter indissolúvel. é uma forma de comunicação angustiante, essa de tentar ler pensamentos. ele por fim disse “estamos criando um monstro”, e eu logo compreendi. lembro bem de quando eu tinha medo dessas criaturas. é terrível mesmo. eu disse “você não está sozinho” e nos abraçamos.
a miniatura do dinossauro-quebra-cabeça permaneceu onde estava.
mas eu sinto que sei exatamente qual a peça que falta.
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Lygia Fagundes Telles é a minha mentora. ela sequer me conhece, eu sei, e provavelmente me diria um palavrão quando lesse o que ando escrevendo. mas eu calo e sigo piamente tudo o que eu puder. ler o que ela escreve, para mim, é fechar os olhos e imaginar a minha vida como suas personagens, todas bêbadas, ou profanas, ou decadentes, ou infames. eu sou um pedaço de cada uma dessas garotas. “As Meninas”. Lorena, Lião e Ana Turva. depois que li, me disseram que cada uma delas era uma das partes da mente humana - ego, alter ego e id. eu sigo a Lygia, e ela segue Freud. trindade. pai, filha e neto.
uma das meninas (do livro) dizia que deus é um grande bricolleur - sabe fazer bricolagem: pega um pedaço de madeira, uma corda de violão quebrada, uma espinha seca de peixe grande e logo faz um suporte para chaves, desses dependurados na porta; pega um vaso rachado, um azulejo qubrado, peças de um aquário vazio e transforma em uma fonte de mosaico para colocar no centro do jardim;
pega uma perna de um boneco, um pano de roupa velha, um frasco raso de tinta de cada cor, e então é um garoto que procura pelo significado das coisas.
eu chego a me esquecer que os artistas todos fazem coisas parecdidas. escrever é bricolar, pegar um pedaço de uma idéia, juntar com outra e dar acabamento. eu moro em uma casa toda bricolada, desde o tapete da entrada até a janela do meu quarto. mas quando fico muito tempo olhando para a rua, me vem a aboninação da idéia de que os deuses possam vigiar as peças que criaram. tenho de vez em quando o espírito voyeur, de ficar observando o que as pessoas fazem dentro de sua particularidade, reportar tudo em um bloquinho de papel. binóculo mirado dentro da janela alheia. céus, eu nunca fiz isso. essa é a oniciência divina, de saber de tudo o que passa. eu prefiro ser voyeur de papel, saber do que as pessoas escrevem. se colocam letras maiúsculas, se colocam espaços entre a palavra e o ponto de interrogação, se fazem apontamentos reflexivos ou explodem com terrorismo,
se deixam ou nome ou se ficam no anonimato,
se fazem comunicação com outros universos de palavras.
tenho obsessão quanto ao tempo das descobertas.
esta é a minha religião.
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