os livros estão deixando de ser de papel. de certa forma, fico contente, porque amo as árvores. mas depois levo em conta que se todo o papel usado no mundo fosse para se construir livros (porque bons livros são construídos tal como um arranha céu - bons livros são capazes de arranhar o céu) o mundo seria um lugar bem diferente, mais consciente. provavelmente com mais árvores. eu amo os livros. mas os livros de hoje não são de papel. este é o meu livro de tela de computador. ele nunca será finalizado, vai exigir que eu dê um pouco de mim a cada dia. daqui para sempre.
meu livro foi encontrado por um oráculo. conversei com ela uma vez. ela, o oráculo, é tão narcisa quanto eu. fiquei pasmo. ela me disse que o diálogo não serve de nada, só afasta. eu lembrei de mim. eu sempre quero ser o centro do universo. o diálogo para mim, então, trabalha contra as órbitas. os planetas giram porque correm para não serem engolidos no centro do sol. se pararem de correr, a gravidade os consome. órbita é gravidade somado à fuga dos astros. este é o diálogo: a fuga que as palavras causam somado à gravidade das coisas que não necessitam de linguagem. quando se pára de falar, parada a fuga, a inconsciência se encarrega de deixar a gravidade aproximar os astros até a colisão final, até a fusão dos planetas. todo o universo está sujeito a este processo: as estrelas centenárias, milenares, as nebulosas enevoadas, os sistemas, os deuses, os mortais, as paixões. só mesmo os cometas estão livres.
então cometa.
conforme a posição da lua em relação à terra, há as casas que se formam de acordo com a disposição da luz. eu acho que eu estou em pleno quarto crescente, expandindo toda a minha claridade até me tornar cheio, insuportavelmente consciente do quanto eu posso enxergar, esse excesso desgraçado de luz. não dá para esconder nada, nenhuma das minhas crateras. depois eu mínguo até que seja necessário um novo ciclo. lua nova, sem luz. tudo novo é obscuro, até que fique à vontade. obscuro por não poder ser visto. a lua controla as marés. todas essas inundações. eu digo, nunca me canso, é a luz que controla o mundo. luz entra pelos olhos, os órgãos mais nobres do corpo. imagem. aproximação com os deuses. a maré vai baixar, vai subir. estão todos olhando para saber - alguns já sabem por intuição, o terceiro olho (este, sem órbita). mas esse vento todo, essas ondas que sobre e descem, que ventam, que batem, elas vão desmanchar as rochas eternamente. paciência. a onda acerta até que um minúsculo grão se desprenda e assim surgem praias imensas. a minha casa é feita de algo parecido. com um pouco de água é possível construir castelos na beira do mar. eu também quero ser um homem de areia, e depois me desmanchar para me misturar ao que já foi construído. parte das bases de uma nova (e obscura) montanha.
eu só quero abrir os livros que eu mais gosto de ler e perguntar o quão cedo é agora.
quão cedo é agora ?
eu acho que sei qual é esse tempo.
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“Eu tenho febre, eu sei, / fogo leve que eu peguei / do mar ou de amar, não sei, / mas deve ser da idade. // Acho que o mundo faz charme / e que ele sabe como encantar. / Por isso sou levada e vou / nessa magia de verdade. // O fato é que sou sua amiga, / e ele me intriga demais. / É um mundo tão novo. / Que mundo mais louco, / até mais que eu! // É febre e amor e eu quero mais. / Tudo que eu quero, sério, / é todo esse mistério.” >> Charme do Mundo // Marina Lima
Mistério
ouvi alguém dizer uma vez que gostava de palavrões porque palavrões são democráticos. embora tenha me parecido rude no primeiro instante, notei que além de falar muitos palavrões, eu também os achos mais diretos naquilo que quero dizer. palavra forte. uma garota foi correndo comigo por todo um caminho, e ao chegarmos na beira do penhasco, insistiu que eu pulasse junto com ela. eu disse que não, mas ela já se habituou a tantos precipícios e me diz que pensar demais no que fazer faz mal, a gente acaba perdendo tempo e desistindo do que ia fazer. fiquei parado. um palavrão exprime melhor o que eu sinto.
há um enigma imponente que me impede de transceder muitos limiares. eu não sei de onde vem grande parte das coisas que circulam pela minha cabeça. chego a imaginar que são coisas em comum à cabeça de milhões de pessoas. quando uma pessoa morre, logo vestem bem o seu corpo e o guardam debaixo da terra. as formigas não. elas, quando morrem, são carregadas de volta para dentro do formigueiro para servir de banquete aos seus famintos irmãos e irmãs. os cachorros escondem o que encontram só para pegar depois e continuar uma brincadeira. eu chego a me esquecer de qual é a minha espécie, mas logo me lembro: a natureza humana é comer carne. só os humanos, os primatas não.
mas a minha natureza varia conforme o meu estado de espírito (espírito faz parte da natureza?). gosto das coisas que não sei explicar de onde vêm. quando alguém me fala, sempre tão coerentemente, do segredo do mistério, perde toda a graça, perco o gosto. prefiro acreditar que a máquina que toca música para mim todos os dias funciona por magia. terra, fogo, água e ar. coisas que eu não sei o nome, pessoas que eu não sei o nome. perfeição.
mas depois de um tempo, instintivamente, como a trilha eterna das formigas, a gente passa a querer saber o nome de tudo,
e parte rumo ao penhasco desconhecido.
eu só não sei se estou no topo ou no fundo.
(é preciso viagem longa para descobrir).
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um dia as máquinas deixaram de funcionar. foi pouco tempo, apenas um dia, mas nada do que funcionava com botões, nada do que era ligado na tomada funcionou. os carros deixados na rua permaneceram na rua. os que estavam no meio do trânsito não se moveram, e os que estavam na garagem sequer saíram de casa. as fábricas deixaram de fabricar e as pessoas [escravizadas] se libertaram do suplício. tem gente que se restringe ao uso maquinário do próprio cérebro. eu quero que aconteça um dia como esse mais algumas vezes.
eu peguei asco pelas máquinas.
só gosta daquelas que possuem poderes mágicos:
só das máquinas que tocam música.
os homens que operam seus equipamentos foram obrigados a observar os seus filhos, que não puderam jogar seus jogos no computador e tivram que ouvir a suas mães, que não puderam ligar a televisão. pessoas não sabem lidar com pessoas.
evasão de realidade.
essa é uma das novas diretrizes artísticas. os japoneses criaram o manifesto superflat, o mundo superplano, sem nuances de profundidade. a nova vida é tão plana quanto a tela de uma televisão. é dessa forma que o mundo conhece o mundo. superplano como tela de um computador, como uma pintura na parede, como um tabuleiro de jogo, como as páginas de um livro.
se eu perguntar “qual o seu nome?”, me responderão “meu nome é piercing“, “é touca“, “é roupa“, “é hardware“, “é megabyte“,
“é superflat“.
é forma de arte ( ! )
incrível como nunca se conheceu tanto o mundo como agora.
essa tela quadrada superplana é o meu mundo bidimensional.
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Comemoração de um ano de Pseudônimo [nome antigo do Barco a Vela]. Nada melhor que um balanço de toda a inconsciência (e por que não “inconsistência”?) de tudo o que tenho escrito por aqui. Ainda não escrevi o texto dos meus sonhos (embora eu sonhe enquanto escrevo), mas sinto que cheguei perto em algumas passagens. Poucas. Mas tal como minha grande diva, Clarice Lispector, “enquanto eu tiver perguntas e não encontrar as respostas, eu continuarei a escrever”, é mais ou menos isso. Fiquem à vontade. Este espaço eu tenho prazer em dividir.
Douglas Gauche
“Toda rosa é rosa porque assim ela é chamada. / Toda Bossa e Nova e você não liga se é usada. / Todo carnaval tem seu fim, / é o fim // Deixa eu brincar de ser feliz, / deixa eu pintar o meu nariz” >> Todo Carnaval Tem Seu Fim // Los Hermanos
Pseudônimo
é bom guardar relíquias. eu costumava guardar pedregulhos encontrados no chão. depois passei a juntar cristais, mas agora, acho que prefiro guardar pensamentos. funcionou bem: não me perco do meu próprio passado. essa é a estrutura básica de todas as árvores: quanto mais altas no céu, mais fundas no chão. é necessário ter estrutura para sustentar os nossos sonhos, nossos frutos, nossos filhos, nossa mente, nosso caos.
mais do que nunca eu quis mergulhar na minha mente para entender o que acontece. invento diversos rituais, todos individualistas, narcísicos. tento me impor sobre alguma voz que me dite algo, mas depois eu me rendi e tento ouvir o que se fala para saber equilibrar a balança: o yin-yang. aceitar conselhos perversos, me alimentar de palavras feias para gerar beleza no meio da lama. conhecer é conhecer. tudo.
para saber que o mundo pode ser diferente do que se pensa.
quando faço essa imersão em mim (sim, porque não deixei as vozes tomarem conta total da minha vontade) escolho não ter nome. este é o meu espírito, um Pseudônimo que ainda não escolhi qual é. escolher o próprio nome, mesmo que seja um Pseudônimo, é escolher o próprio destino. as cartas me disseram que eu tenho este atributo, de ser alheio ao karma. é assim que eu tento me aproximar dos deuses, trocando meu nome a cada minuto. Ou escolhendo o anonimato, já que “toda rosa é rosa porque assim ela é chamada”. O Nome Da Rosa. mas “rosa” não é o nome da rosa. “rosa” é uma flor. e EU sou humano, embora me trate como “eu”,
porque “eu” é uma infinidade de personagens.
todo mundo se auto-proclama “eu”.
então EU posso ser todo mundo,
cada um com um nome diferente.
este é o espírito do Pseudônimo, porque se perde a identidade quando se sonha. é preciso se criar uma nova. sempre, constantemente, para dar continuidade ao processo do auto-conhecimento. ser muitas pessoas para enfim saber quem se é. ser fevereiro, verdadeiro, uma grande indagação, ultraleve, um oceano, embarcação, mesmo estagnada. equilíbrio, decolagem, inimizade e (des)inimizade.
por mais que eu viaje para descobrir todas essas coisas,
sinto que encontrei enfim a minha moradia.
(moro nessa ausência de identidade que me faz quem sou - não “ser”, procurar quem ser e ser mais que isso: apenas “estar” -
moro nesse Pseudônimo).
Know Thyself
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