Madonna

Maio 24, 2006 at 2:40 pm (Uncategorized)

chego perto dos meus mentores e pergunto para cada um deles qual foi o ponto da questão que se tornou mais sólido depois de cada uma das minhas mortes. eu que sempre tento renascer do avesso do que já fui, mas sempre com resquícios de que água suja contamina os ambientes.

chego a ser perverso na forma como eu vou levando os meus projetos, tal qual um pirata ávido por duelos, um general com arma em punho.

eu gosto do cheiro da fumaça. fumaça de cigarros.

às vezes arranho minha própria boca para sentir gosto de sangue

e o álcool me delimita a memória. não em sã consciência. nada em minha vida é de sã consciência. tenho medo de perder os parâmetros, já que deixei de medir as coisas já há algum tempo, desde que descobri o erotismo das palavras.

palavras que nunca valem de nada - era o que eu costumava dizer - mas aos poucos eu as vou juntando e juntando e logo construo uma parede rochosa, uma fortaleza impenetrável, ou mesmo uma imagem cinestésica.

devo ter poder sobre os meus amantes literários, já que ocupei tão rapidamente a condição de ditador: eu em meu vasto vocabulário. as palavras me deram poder infinito de tomar posse

e eu as deixo escapar como melhor me convir, tal qual a profanidade da poesia que nasce. quem detiver este poder certamente ganhará minha eterna lealdade. mas eu sou pervertido o suficiente para reduzir tudo à condição mais primitiva da raça humana. essa é a minha natureza, nada que precise ser ensinado para que seja feito com total maestria.

agora sim, as palavras não servem de nada, nem quando tentam aproximar a experiência primordial do corpo ao sagrado do mundo.

assim surge êxtase.

e minha vida chega perto de um outro final, novamente,

porque dessa forma, aprendi a sair sem deixar vestígios

e reinventar a minha forma de ser humano.

Madonna é nome de santa.

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Submarino

Maio 13, 2006 at 2:43 pm (Uncategorized)

“Em uma floresta escura / brilha a mais pálida faísca. / Ela cresce em um incêndio / Como eu, / Como eu. // (…) / Em um coração cheio de poeira / vive uma criatura chamada ‘lascívia’. / Ela surpreende e amedronta / Como eu, / Como eu. // (…) / Em uma torre de aço / A natureça avança um acordo / Para erguer um maravilhoso inferno / Como eu, / Como eu // Meu nome, Isobel / Casada comigo mesma. / Meu amor, Isobel / Vivendo por ela mesma.” >> Isobel // Björk

Submarino

estou hoje com uma sensação daquelas de ter acordado há uns cinco ou sete anos atrás em dia de frio sem ter horário para levantar. todo mundo com dor na garganta. todo mundo com roupa de frio - elas são bem mais elegantes, ora se. eu quero mesmo é ir morar na holanda, na dinamarca, na frança, que faz mais frio. mas eu já sou frio demais em situações já comuns. as mãos geladas, feito as mãos dos mortos, mas estou vivo - bem vivo.

o caso é que eu acho que eu gosto de ser uma enorme geleira. quase toda submersa, debaixo da água, só com uma pontinha para fora. minha gana maior é a de aprender a submergir, ficar debaixo escondido, submarino de comportamento. ser um mergulhador que investiga a vida dos antepassados, ou, quem sabe, uma nova espécie de baleia gigantesca, que nunca aparece, só naquelas fendas mais profundas onde a pressão da água é insuportável para qualquer pessoa.

as coisas que já aconteceram parecem ter esse peso todo. força de ações. se eu entrar em alguma das minhas cavernas, logo descubro tudo o que deixei escrito nas paredes há eras atrás. é incrível como só eu compreendo o que eu tento dizer. ninguém mais. só quem eu deixo. acho que tenho esse atributo e minha perdição. deixar só quem eu escolho violar a minha atmosfera, adentrar meu submarino, sempre submerso, debaixo da água. essa caverna também é povoada por monstros, mas com eles eu não me lembro se eu lido bem ou não. estou acostumado com as aberrações marinhas, apenas. aquelas que não pedem contato direto: eu do meu submarino eterno posso facilmente lutar contra as serpentes aquáticas. todas essas águas-vivas transparentes dando choque em tudo que passa. face a face não, é diferente. nem os automóveis ajudam. descobri que não posso respirar ar comum - posso ficar doente como agora estou, sem poder cantar direito.

só descobri que tenho paixão pelo fundo do mar.

falta eu saber se eu sou aceito entre os monstros de lá.

eu com meu submarino.

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Narciso

Maio 2, 2006 at 2:45 pm (Uncategorized)

“Eis o melhor e o pior de mim: / o meu termômetro e o meu quilate. / Vem, cara, me retrate. / Não é impossível, eu não sou difícil de ler. / Faça sua parte, / eu sou daqui, eu não sou de Marte. / Vem, cara, me repara: / Não, vê? Tá na cara, sou porta-bandeira de mim. / (…) / Em alguns instantes / sou pequenina e também gigante. / Vem, cara, se declara. / O mundo é portátil pra quem não tem nada a esconder. / Olha a minha cara, / é só mistério, não tem segredo. / Vem cá, não tenha medo, / a água é potável, daqui você pode beber. //

Só não se perca ao entrar / no meu infinito particular” >> Infinito Particular //Marisa Monte

Narciso

isso não faz parte do mundo: vem de fora dele, sem órbita, mas é meu por excelência. transita dentro das minhas galáxias eternas. estrelas cegas de tanto que a luz demora para chegar de um lugar ao outro - demora porque é tudo muito distante, longe para caminhar. minha vaidade. esse infinito é minha vaidade.

quando eu parar para beber água debruçado no lago, então serei eu o Narciso reencarnado que contará a história de toda a mitologia. ninguém nunca o contou que ele era dono da beleza mortal dos homens. ele soube sozinho, embora fosse sempre admirado. a minha vaidade é a mesma de Narciso, talvez porque eu tenha aprendido a me amar acima de tudo. eu vou passar a registrar a odisséia dos deuses, eles são meus contemporâneos.

meu suicídio passional.

minha concha. ostra viva, sem visão - não enxerga. ela não tem olhos. e se fecha para sempre. ostra morta. minha auto-preservação. depois de algum tempo eu solto a própria pérola que todos estão esperando. a postos para colher a preciosidade do isolamento. ora essa. eu sou tão transparente quanto aquela água que reflete a imagem do meu mais belo mortal. beleza humana. os olhos são as janelas da alma. ostras então não têm alma. ou têm alma aprisionada, condensada, calcificada. será esse o motivo da criação das pérolas a partir de agora.

é por onde minha alma tem acesso ao mundo, esses olhos. a visão que toma conta da cabeça, a domina sobre os outros sentidos, entao eu digo: imagem é tudo. sempre que eu me pintar ou que eu tentar pintar o mundo (só pinto as coisas sobre as quais tenho poder; sobre mim, eu tenho. sobre o mundo, eu tento) é porque eu estou repetindo que imagem é tudo e estou constatando todo o seu poder: poder de imagem.

a mesma imagem da vaidade.

imagem sobre todos os sentidos.

Vaidade Narcísica -

este é o meu umbigo infinito

e particular.

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