“Que bom se eu fosse uma diva / daquelas bem dadivosas / que sai vida entra vida / ficasse ali verso e prosa // Meu olhar beirando estrelas / a provocar sinfonias / por todas as galerias / imagens da minha história //
‘Me atirava do alto na certeza de que alguém segurava minhas mãos, não me deixando cair. Era lindo, mas eu morria de medo. Tinha medo de tudo quase: cinema parque de diversão, de circo, ciganos. Aquela gente encantada que chegava e seguia.’
// E no instante preciso / entre o mito e o míssil / um rito um início / de passagem pro infinito //
‘Era disso que eu tinha medo: do que não ficava pra sempre’” >> Dadivosa // Ana Carolina (com citação de Era Uma Vez // Antônio Bivar)
Medo
sinto pavor das ruas. do trânsito dos carros. dos semáforos abertos. cheguei a sentir medo das coisas que eu lia, todas tão fantásticas, mas aprendi a lidar com as palavras (ou quase). se minha relação com elas não é de amizade, é de cooperação mútua: eu as enfileiro e elas me dão significado. não, sem medo de palavras.
meu medo, agora, é de pessoas.
as pessoas.
sou um bom observador. sempre tentei enxergar além do que poderia ser visto. depois disso, aprendi a ficar quieto sobre o que eu via. as pessoas, sempre as pessoas. tenho ganas de me tornar uma ilha deserta, apenas eu. mas me dou conta de que meu quarto já é uma ilha deserta, mais deserta ainda quando está povoada por mim. eu e este pavor repentino de pisar na própria calçada. ibiza, bahamas. ilhas ensolaradas, tropicais. não sei, ando deserto demais.
eu e toda a minha legião de palavras - palavras desertas.
tive medo também quando tomei consciência das minhas datas. da minha idade. da minha intuição, sempre tão forte.
mas dessa vez ela falhou.
e é por isso que eu estou soterrado em medo.
Permalink
Sem Comentários
“Eu ando pelo mundo prestando atenção / em cores que eu não sei o nome, / cores de Almodóvar, / cores de Frida Kahlo, cores. / Passeio pelo escuro, / eu presto muita atenção no que meu irmão ouve / e como uma segunda pele, um calo, uma casca, / uma cápsula protetora / eu quero chegar antes / pra sinalizar o estar de cada coisa, / filtrar seus graus.
(…)
Pela janela do quarto, / pela janela do carro, / pela tela, pela janela, / quem é ela, quem é ela? / Eu vejo tudo enquadrado. / Remoto controle…” >> Esquadros // Adriana Calcanhotto
Sal
minha cidade velha já não pôde me conter com todas as suas ruínas. prédios velhos demais, rios secos demais. talvez as portas rangentes, mal fechadas, estivessem se reabrindo com o vento forte, mas logo agora que elas se resolvem livres, não há mais alma viva para transitar, visitar os aposentos, revirar as gavetas abandonadas.
já decorei a cidade velha, por isso não mexo em mais nada. só me lembro. dentro de cada frasco conservado um cheiro de ervas fortes - nauseantes só de se lembrar -, ou a ordem dos livros nas prateleiras empoeiradas. ninguém mais visita este lugar, então eu deixo de ser o eterno anfitrião para tentar recuperar todos os que foram embora.
me recuso a abandonar qualquer um dos meus pertences, baús de jóias, mas tanta rua construída sem gente pra passar logo causa comoção e é uma enxurrada de água com sal. água transparente de tanto olhar através da carne humana, de enxergar pelo avesso. água enundada. minha cidade submersa.
o novo mar tem monstros ainda não descobertos. monstros de lenda urbana passada, as lendas daquela cidade velha. a nova foi construída além, acima dos escombros, das ruínas, mas as ruas não são mais sólidas de pavimento, mas este mar salgado, meu sal. navegar sobre o que foi submerso, vagarosamente, até se esquecer de como acabou destruída a velha cidade (até a água deixar de ser transparente).
mas de vez em quando, a vontade que surge sem motivo é só a de prender a respiração para mergulhar de novo em tanta coisa antiga. soltar as dobradiças daquelas portas malditas que insistiam em se trancar para as pessoas vivas e depois se soltaram fracas. gana de quebrar os frascos de ervas para ver se nasce alguma espécie nova de planta submarina. gana de olhar nos olhos do monstro invisível que levou todas as pessoas embora e me deixaram navegando devagar por sobre as árvores afogadas.
é hora de procurar por um novo lugar para derrubar a minha âncora.
Permalink
Sem Comentários