“Hoje eu vou fugir de casa, / vou levar a mala cheia de ilusão. / Vou deixar alguma coisa velha / esparramada toda pelo chão. // Vou correr num automóvel / enorme, forte, a sorte, a morte a esperar. / Vultos altos e baixos / que me assustavam só em olhar / (…) / Faróis altos e baixos / que me fotografam a me procurar. / Dois olhos de mercúrio / iluminam meus passos a me espionar. / O sinal está vermelho / e os carros vão passando / E eu ando, ando, ando… Minha roupa atravessa / e me leva pela mão / do chão, do chão… “ >> Fuga Nº II // Mutantes
Papel
aquele instante paralizado foi rapidamente captado antes que eu pudesse piscar. antes fosse em movimento, que então eu poderia recompor as minhas feições, e, quem sabe, ensaiar um sorriso. mas a questão não era a cena, imagem se construindo, e sim fotografia: emoção estática em um milésimo de segundo. o papel impresso com minha imagem ( ! ) roubada.
perdi a fome,
minha imagem foi roubada
e com ela, o meu poder de ser só imagem, ou de ser além da imagem.
se está parada então fica mais fácil para encontrar aqueles fantasmas fugidios. foragidos. eles bem quiseram se esconder, mas não são tão rápidos quanto o estalo da máquina fotográfica: minha Câmera Obscura. relâmpago para clarear o ambiente de captação. ele me disse para não ter medo, a câmera não passa de um dragão de papel. me confortei. mas esqueci de perguntar: papel em branco ou papel escrito? se for escrito, tem mais poder. papel escrito pode qualquer coisa. quem disse que é impossível transformar metal em ouro? se eu escrever, depois leio, e passa a ser verdade.
escrevo então um dragão cheio de neologismos, um rebuscamento vernacular, vernaculal, vernaculeiro, seja o que for. escrevo com caneta vermelha de tinta metálica, para que ele saia voando e exista de verdade, para provar a capacidade de um papel escrito. meu papel escrito. meu papel. para saber qual é o meu papel nesta encenação, seja qual for o meu papel nesta encenação.
mesmo que seja o de ter a minha imagem roubada
para que, estática a imagem, possam analisá-la até descobrirem quem eu realmente sou.
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“Não somos mais / que uma gota de luz, / uma estrela que cai, / uma fagulha tão só / na idade do céu / (…) / Não somos mais / que um punhado de mar / uma piada de Deus / ou um capricho do sol / (…) / Calma, / tudo está em calma. / Deixe que o beijo dure. / Deixe que o tempo cure. / Teixe que a alma / tenha a mesma idade / que a idade do céu.” >> A Idade do Céu // Zélia Duncan (com participação de Simone)
Pingo
estou feliz,
eu consegui por alguns minutos, com meus olhos fechados, enxergar as coisas por dentro da minha cabeça. sempre tem alguma voz baixinha dizendo algo lá no fundo, mas quase sempre tem gente falando mais alto, eu não ouço, ou gente de lá mesmo, de dentro, que briga por atenção. eu sempre briguei por atenção, mas depois de um certo tempo de evidência, a gente só quer mesmo que ninguém se lembre de nada.
mas embora tanta gente grite ao mesmo tempo, fiquei feliz por estender a mão justo à pequena garota da voz baixinha. a minha consciência é esta criança, a menininha que fica no alto do morro olhando o formato de todas as núvens.
é ela que sente o primeiro pingo de chuva e vai correndo avisar.
ela prevê as minhas tempestades.
os meus copos de água quase transbordaram quando eu resolvi chover da última vez. verbo inconjugável: eu chovo, tu choves, ele chove; mas na minha terminação há sinestesia para inventar uqalquer senso. é o que eu quero ser: um pingo de águla limpa que resolve cair na superfície estática le um lago amplo, uma ondinha leve e suave, caprichada pela clareza de tudo o que eu penso - da garotinha da minha mente.
simplicidade contra megalomania.
eu não sei qual é a minha música predileta.
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ninguém viu.
eu só queria consertar a fechadura dos meus baús cheios de mistérios que eu insisto em proteger. mas esses cadeados novos, de tão pesados, não são capazes de manter sob pressão esses sonhos tão rebeldes de querer correr pelos campos, esses meus cavalos selvagens de pêlo azul metálico.
se eu arrasto as caixas para carregar tudo comigo logo é fadiga de não suportar o peso do meu pensamento,
e ‘não suportar’ é processo de rancor.
vou então deixar minnhas arcas atiradas no caminho. se alguém abri-las será o caos espalhado pelo mundo, só aguardando o tempo certo de chegar. este é o meu Relógio de Pandora, é o que eu espero para mostrar alguma parte escondida, que não foi encontrada no meio da bagunça dos meus baús.
mas eu sei que está lá.
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