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Fevereiro 28, 2006 at 2:50 pm (Uncategorized)

“Agora eu posso ver as coisas pelo que elas realmente são / Acho que não estou tão longe / Estou em um ponto sem retorno / Apenas me assista queimar!” >> Let It Will Be // Madonna

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acabo de virar a minha ampulheta, só para recomeçar mais uma contagem de tempo e saber onde eu vou parar. este é parte de todo o meu orgulho, de contar tudo o que se passa em um papel dobrado, sem amassar. canto com canto e vinco bem marcado. não adianta de nada, já que eu não faço idéia da quantidade dos números, não sei quanto valem. ontem aconteceram quatro acidentes a cinqüenta metros de onde moro, com sete feridos que passarão vinte dias no hospital. não faço idéia do que isso significa

mas uma única pessoa se suicidou do outro lado do mundo, sem que ninguém encontrasse seu corpo caído no fundo do mar.

e embora fosse uma única pessoa, dessa eu senti todo o peso.

acho que foi uma das decisões mais acertadas que eu já tomei: renunciar aos números. todos eles. não me servem mais. já tentei renunciar às palavras, mas elas me dão fome quando não as tenho, e me cansei de rastejar à procura do que me faria andar de pé outra vez, porque eu já aprendi a me levantar quando preciso, e estou feliz por saber. saber apenas. qualquer coisa, saber desde qual é o sentido das correntes de ar até que as árvores não são feitas de plástico. saber. eu só quero saber de tudo.

só de tudo.

isso me faz bem.

essa é a minha descoberta. é o meu chão de areia morna no qual eu sei que eu posso me deitar. grama para se andar descalço, terra para se plantar. um líquido quente, que nunca esfria, contido dentro de um frsco de vidro, todas as luzes cegantes da minha pista de dança - meu lugar, pertenço a este lugar.

mas depois que toda a areia da ampulheta cair, é hora de saber o que mais descobrir depois de ter renunciado aos números

porque eu quero descobrir mais sobre tudo o que eu acabei de conhecer.

esta é minha pílula da felicidade.

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Diariamente

Fevereiro 23, 2006 at 2:51 pm (Uncategorized)

(música lançada no álbum Mais, de Marisa Monte) 

Para calar a boca: Ricino
Para lavar a roupa: Omo
Para viagem longa: Jato
Para difíceis contas: Calculadora

Para o pneu na lona: Jacaré
Para a pantalona: Nesga
Para pular a onda: Litoral
Para lápis ter ponta: apontador

Para o Pará e o Amazonas: Látex
Para parar na Pamplona: Assis
Para trazer à tona: Homem-rã
Para a melhor azeitona: Ibéria

Para o presente da noiva: Marzipã
Para adidas o conga: Nacional
Para o outono a folha: Exclusão
Para embaixo da sombra: Guarda-sol

Para todas as coisas: Dicionário
Para que fiquem prontas: Paciência
Para dormir a fronha: Madrigal
Para brincar na gangorra: Dois

Para fazer uma toca: Bobs
Para beber uma coca: Drops
Para ferver uma sopa: Graus
Para a luz lá na roça: 220 volts

Para vigias em ronda: Café
Para limpar a lousa: Apagador
Para o ! beijo da moça: Paladar
Para uma voz muito rouca: Hortelã

Para a cor roxa: Ataúde
Para a galocha: Verlon
Para ser moda: Melancia
Para abrir a rosa: Temporada

Para aumentar a vitrola: Sábado
Para a cama de mola: Hóspede
Para trancar bem a porta: Cadeado
Para que serve a calota: Volkswagen

Para quem não acorda: Balde
Para a letra torta: Pauta
Para parecer mais nova: Avon
Para os dias de prova: Amnésia

Para estourar pipoca: Barulho
Para quem se afoga: Isopor
Para levar na escola: Condução
Para os dias de folga: Namorado

Para o automóvel que capota: Guincho
Para fechar uma aposta: Paraninfo
Para quem se comporta: Brinde
Para a mulher que aborta: Repouso

Para saber a resposta: Vide-o-verso
Para escolher a compota: Jundiaí
Para a menina que engorda: Hipofagi
Para a comida das orcas: Krill

Para o telefone que toca
Para a água lá na poça
Para a mesa que vai ser posta
Para você o que você gosta:

Diariamente

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Demência

Fevereiro 22, 2006 at 3:34 pm (Uncategorized)

“Se ele é Deus e eu sou louca… / Mas ninguém desconfia / Pois disfarçamos muito bem: / Somos imortais, / Somos imortais. // Eu vou rezar, ligar o rádio, / Ficar invisível, / Pois nada vai me atrapalhar - / Nada vai me atrapalhar. // Deus, por favor, apareça na televisão. / Deus, por favor, apareça na televisão.” >> Deus (Apareça Na Televisão) // Kid Abelha

Demência

eu tenho excesso de sangue passando pela minha cabeça;
eu tenho excesso de idéias elétricas, que não esperam que eu as acompanhe para saber o que está se passando;
eu tenho excesso de ganas de atirar um machado contra o pássaro voando;
eu tenho excesso de imagens entrando de uma só vez por canais que não chegam a ser os da visão.

eu tenho excesso de coisas que demoram demais para acontecer em um só segundo.

mundo lento demais para cabeça alterada e de visão alterada, que parte para uma velocidade alterada de coisas demasiadamente alteradas sem que nem haja mesmo tempo para saber de onde saem as coisas. leitura rápida, rápida para deixar o pensamento rápido e depois pular para um salto rápido antes de ser atingido por um tiro rápido e cair no chão sem voz. ela me disse que assim eu mudo somente o mundo que eu estou enxergando, o meu agora e só, de mais niguém, mas então que este instante de rapidez dure por pelo menos o tempo da minha vida inteira ou até que eu possa atingir a velocidade da luz

assim

quem vai me dizer que essas coisas de luz ao contrário não existem de verdade? se eu vejo tantas cores difusas de uma só vez, são meus sentidos, ninguém há de contrariar que isto seja real. eu vejo, eu cheiro - cheiro de álcool, cheiro de madeira cerrada, cheiro ácido que entra até entrar fundo inconsciente. este é o meu mundo de som eletrônico, som de batida de coração eletrônica, som de ar respirando eletrônico, som de eco eletrônico ecoando eletrônico e náusea moribunda de enxergar nada mais do que o que vem de dentro da cabeça.

eles todos riram as risadas de nome próprio do lugar onde tanto grito sólido voltou para casa de alma lavada. e por incrível que pareça, eu estou feliz sem a alteração de que ela havia me contado, mas com efeitos tão adversos quanto tais. este é o meu transe, psico-transe, intimista de brilho noturno. som que atravessa esqueletos, que se ouve pelas costelas.

cheiro de álcool, de madeira cerrada, cheiro ácido.

eu estou eufórico pelas minhas órbitas. euforia de visão alterada, euforia de deixar as coisas embora, euforia de aceitar o meu destino, euforia de renúncia. já comecei a alterar os meus indícios.

acho que cheguei perto de deus assim.

nunca estive tão feliz.

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Memória

Fevereiro 19, 2006 at 3:34 pm (Uncategorized)

“Um homem decide depois de setenta anos / É o motivo pelo qual ele vai até lá / Para destrancar a porta / Enquanto aqueles ao seu redor o criticam e dormem / (…) / Pessoas amarelas andam pela minha cabeça / Um deles possui uma arma / Para acertar aos outros / E ainda juntos eles eram amigos na escola
(…)
Em um céu tão cheio de gente, mas só alguns querem voar / Isso não é estranho? / Em um mundo tão cheio de gente, mas só alguns querem voar / Isso não é estranho? / (…) / Não, nós nunca sobreviveremos, exceto se nos tornarmos um pouco loucos”
>> Crazy // Seal

Memória

não que eu queira transformar as coisas erradas em coisas mais fáceis para mim - bem que essa é uma das minhas vontades - mas quando já se sabe desde o começo por quantos suplícios se vai passar, eu chego a pensar em colocar gente para fazer tudo em meu lugar. me disseram que eu tenho poder de transformação, eu sei, mas chego a me sentir impotente por me esquecer sempre das mesmas coisas que nunca saem da minha cabeça

porque eu não esqueço nada, nunca.

este é meu xadrez, meu tabuleiro quadriculado. uma casa completamente brance, de luz cegante, mas logo após, uma completamente escura, densa de ausência. eu jogo sem fazer parte do jogo. é possível, não? é possível saber como o oponente vai jogar muito, muito antes, para formular as estratégias. fiéis súditos, conselheiros, esses belos cavaleiros ou mesmo os vassalos peões. eles todos me contróem uma torre, porque eu quero ficar preso para sempre depois de ver o horror de como esta guerra vai terminar, e eu já me cansei de tanto massacre, tanto sangue. não apertam as mãos os jogadores antes e depois de cada partida? partida em pedaços, a cabeça pensante para um lado, partida; os braços agentes para o outro, partidos; o coração pulsante mais além, partido.

foi um golpe rápido,

mas previsível.

eu fiz algumas coisas que ninguém soube. negócios obscuros, relações obscuras. algumas coisas necessitam ser guardadas longe da vista de todas as pessoas, nas sobras mesmo. eu não esqueço nada, nunca, é impossível esconder de mim mesmo esse monte de lixo que eu acumulei. mas não foi um lixo sagrado? nem chegou a ser lixo, era todo o meu tesouro roubado a muito esforço. quero esconder essas minhas peças obscuras do xadrez mais obscuro e a estratégia obscura, de se ler pensamentos em segredo, para ganhar muito mais tempo.

embora meu tempo de repente se tornou o mais escasso de todos.

eu sei, depois de soltar as travas de cada peça da minha pesada armadura, depois de revelar parte de mim mesmo que nunca foi revelada para santo algum no mundo, que por mais que eu enterre todas as peças negras, todas as peças brancas, meu tabuleiro inteiro e depois me tranque na torre, eu sei que a parte mais importante de tudo o que eu sempre quis viver ficará para sempre na minha memória,

porque eu não esqueço nada

e não posso esconder minhas coisas de mim mesmo.

de qualquer um outro eu posso

esconder tudo

mas nunca de mim mesmo.

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Indagação

Fevereiro 14, 2006 at 3:35 pm (Uncategorized)

“Queremos saber / O que vão fazer / Com as novas invenções / Queremos notícia mais séria / Sobre a descoberta da antimatéria / E suas implicações / Na emancipação do homem / Das grandes populações / (…) / Queremos saber / Queremos saber / Queremos saber / Todos queremos saber” >> Queremos Saber // Gilberto Gil

Indagação

ontem à tarde choveu como se o céu quisesse trocar de lugar com o mar e desistisse no meio do caminho. não quis mais subir e voltou a descer, caiu o dia inteiro e todas as crianças ficaram olhando pela janela. eu também quero esperar pela chuva parar, para ir para o quintal brincar com os outros,

mas me esqueço que brincar na chuva é bem mais divertido.

meu espírito é feito de água, sempre de água. terra, fogo e ar. bruxaria velha, somos todos pagãos, mesmo os cristãos não-cristãos. quem foi que inventou a minha religiosidade? eu só quero conhecer o desenhista da praça, ele não tem religião, nem eu, mesmo eu tendo todas as religiões do mundo, mas nenhum dos meus dias foi totalmente dedicado ao que deveria ser feito. eu deveria acordar para ajudar a cavar um poço longe, acordar para plantar mais uma árvore ou para evitar que matem mais um animal. eu sempre quis ser ativista por estas causas, natureza, sociedade. hipocrizia, sempre. quando foi que eu quis parar de usar couro? não, nunca sem o meu luxo. luxo de madeira nobre polida, não é bonito? aqueles animais são tão politizados quanto um sapato politizado, uma gravata politizada, um paletó politizado. não merecem nada, não foi deus quem colocou o homem sobre todos os seres do mundo?

eu nunca acreditei realmente nisso.

vou tentar me reinventar novamente, para poder tocar em uma corredeira suja e ela voltar a correr limpa. quem sabe as minhas veias, quem sabe esse rio; mias veias - este céu poluido; minhas veias - este lixo inteiro junto fazendo peso na minha consciência; quem sabe as minhas veias (isso tudo, este mundo inteiro) se purifiquem de doença auto-criada. gente deprimida (ou será deus deprimido?). ninguém passou por aqui quando eu quis levá-los para um outro planeta.

antes assim: a criação divina não vai destruir outras partes que não a pertence.

antes assim.

mas ninguém me explicou.

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Fevereiro

Fevereiro 5, 2006 at 3:36 pm (Uncategorized)

“Faça-os rir / Isso vem bem fácil / Você merece um prêmio / Pelo papel que interpreta / Esconda-se atrás do seu sorriso / O mundo inteiro ama um palhaço / (Apenas faça-os rir : o mundo inteiro ama um palhaço)” >> Take A Bow // Madonna

Fevereiro

enquanto parece que eu estou viajando em longas férias também se parece que eu voltei de uma grande mudança. chegou a parecer que eu havia me casado, mas depois eu fiz nota que meu destino é sempre torto (mas eu controlo todas as linhas da minha vida).

este é o paralelismo. estou vivendo vidas paralelas.

uma linha para cada pessoa. sempre uma atuação, um personagem novo inventado, uma maneira diferente de lidar com as coisas. chego a me confundir com como eu mesmo crio estes novos fantasmas, que vão se acumulando e acumulando e quando vejo já é um exército meu. um exército de gente que eu mesmo inventei, então já tracei a estratégia, mas percebo o que vai pôr fim a este império. percebo nada. vamos marchando, marchando em direção ao único oponente que eu ainda não aprendi a atuar contra. não sei que personagem coloco em ação, embora já o tenha enfrentado (de longe), já tenha invadido e retornado. todos os meus ‘eus’, eles nunca atuam por excelência em monetos assim. mas logo quando atacados se mostram invencíveis, nunca, nunca alcançarão o que eu realmente sou, o meu eu de verdade. sempre será um personagem a mais caído sem que se saiba onde está a morada da verdade.

em um desses ataques eu ainda perco o fôlego. a vantagem de ser milhões de pessoas me dá medo de não saber quem sou - e embora possa dessa forma me tornar invencível, fico por muito tempo sem saber da própria identidade. identidade falsa passada por muitas pessoas. todas eu. uma vida assim para você. uma vida de outro jeito para outra pessoa, e assim vai. se conheço uma multidão, sou logo o mundo inteiro agindo sobre meus próprios pés. e assim eu não sei se agio em falso.

Ação falsa

contra o meu único grande inimigo

ação em falso.

mas eu sou Fevereiro.

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