Ultraleve

Janeiro 28, 2006 at 3:37 pm (Uncategorized)

“Meu pai é um homem rico / E veste um manto de homens ricos / Deu-me a chave para seu reino prometido / Deu-me um cálice de ouro / Ele disse ‘eu tenho muitas mansões / E há muitas salas para ver’ / Mas eu saí pela porta dos fundos / E joguei a chave fora / Sim, eu joguei a chave fora / Mas pela primeira vez / Eu sinto amor.” >> The First Time // U2

Ultraleve

senti um calafrio, desses que perseguem, desde o topo da coluna cervical até a ponta dos meus dedos mais compridos, até me arrepiar os pêlos. depois fui reabrindo meus olhos devagar, dando tempo para desfocalizar cada mancha ainda mais e perder a definição de qualquer imagem. minha cabeça dói, por causa de novos dentes que teimam em nascer. dói dor de tortura, dor de não saber de onde dói, mas dói mais de saber que dente novo é só dente de fazer doer, não serve de nada. posso pedê-los sem sofrer ou mehor seria nunca terem nascido. e se dizem do Ciso, com ’s’ ou com ‘z’. este é o meu Ciso, acho, acabei de nascer.

me sinto melhor quando renasço em forma de idéia, e não corpórea. e é o que é mais constante. sempre. tal como as lagostas, as aranhas, as cobras, os lagartos, os camaleões: eu cresco antes de romper a pele, para só depois deixar de parecer com o que eu era, deixando vestígios. sempre virando do avesso, eu sou o camaleão. mas então vem um tremor de onda marítima, tremor de som metálico e eu sei: é minha voz que vibra cada osso do meu corpo. voz de estrondo, minha voz, voz de grito de sobrevivência. silêncio, porque se eu falar alto, vou terminar por tricar todas as estruturas das paredes.

e de sempre virar do avesso e mudar as coisas sem que as pessoas vejam, talvez eu ganhe a estigma de uma folha de árvore, de voar alto com o vento, mas me martirizo, porque quero o controle do meu vôo, não um obtuso ‘deixar-se levar’ sem vontade. eu sei, vôo por leveza, de braços abertos, coração aberto - leveza ultraleve, remorso ultraleve, paixão ultraleve, amarras ultraleves. leve só de não carregar pesos, ultraleve só disso.

sem gravidade pra me afundar.

só disso,

ultraleve.

só para não me prender no solo vão.

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Rumor

Janeiro 20, 2006 at 3:38 pm (Uncategorized)

“O tempo passa tão devagar para os que esperam / Não há tempo para hesitar / Aqueles que correm parecem ter toda a diversão / Estou cheia, cansada de esperar por você // O tempo passa tão devagar / O tempo passa tão devagar / O tempo passa tão devagar / Não sei o que fazer” >> Hung Up // Madonna

Rumor

estou esperando apenas pelo meu tempo chegar. e chegou, mas meu tempo é para sempre esperar, mas não espero sentado. espero trabalhando, espero construindo pontes para o rio passar. acho que aprendi a controlar o tempo depois que cheguei aos cem anos de idade. agora os meus dias são mais lentos, com cada segundo demorando para passar pela minha língua, até eu saboreá-lo bem forte, para depois pôr garganta abaixo e conter mais tempo. eu sou um século em que as coisas aconteceram, sou a própria intervenção da natureza.

conversei com ela ontem, pobre uma, está se vingando das pessoas. eu já me cansei de plantar ventos, depois colher tempestades, mas o sangue dela não é tão azul quanto o meu. amanhã vem um furacão, já sei onde vou me esconder. vou pra caverna! e depois sair da caverna, tirar gente de lá e mostrar que o céu é azul (embora esteja deixando de ser. me disseram isso antes: “o mundo mudou, posso senti-lo nas águas, posso senti-lo no ar”, eu olhei e não vi nada, até que meu irmão tentou se suicidar. epidemia, está todo mundo fazendo isso. depois que ele se suicidou, passou a fazer as mesmas coisas todos os dias - a pior lástima de todas: se matar para continuar vivo. é o que estamos fazendo, nos suicidando gradativamente.

eu pude inclusive ver um pouco do outro lado, na minha última tentativa - aprendi isso, nunca dizer ‘nunca’, ou ‘a última vez’, porque pode vir a ser verdade, mas eu quero que esta tenha sido a última vez que eu tenha feito isso - vi como as pessoas de lá nos vêem. vi nada, pensei ter visto. bem que queria, mas não tenho este dom. estou apenas esperando mais, enquanto penso que talvez possa controlar o tempo. ah, cá estou de novo contradizendo tudo o que eu tenho dito… estou no centro da via láctea, preso pela minha própria gravidade.

vai demorar um pouco até eu sair e poder pensar em outro lugar.

não sei. eu não tenho o que dizer hoje.

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Destino

Janeiro 14, 2006 at 3:40 pm (Uncategorized)

“Eu estive aqui antes, dentro da chuva torrencial / Com o mundo girando em círculos, dando voltas em minha cabeça / Acho que estou sempre esperando para que você solte estas rédeas / Porque é o meu destino ser o Rei da Dor.” >> King Of Pain // The Police

Destino

vou começar a contar a minha vida somente a partir da vigésima primeira linha de texto, depois que todos estiverem cansados de tudo o que eu escrevo, de tudo o que eu faço parecer que eu seja. aprender a mentir, deixar os cabelos crescerem, ou, quem sabe, comprar menos ou mais discos de acordo com o meu humor. são coisas sem tanta importância - ou não. acho que menti demais ou me fantasiei do que eu queria ser. eu sou um ator, eu amo o horror, eu faço o horror.

vou então interpretar o papel dos meus pais, para depois interpretar o papel da criança recém-nascida.

e depois, o papel da criança crescida

e do amante que esta pessoa se tornará

até que ela aprenda a ter mais filhos

e então poderei ser eu de verdade, porque não sei direito ainda quem ser.

mas quero um papel de uma peça sem entre-linhas, pois já plantei mistérios demais, e estou cansado de tentar decifrar esses enigmas que me dão. quero um papel sincero, sem encenação, de improviso integral. não é preciso mudar nada do que está por dentro. foi por esse interior que eu me apaixonei - sou apaixonado por espíritos de bem, de arte,

de compreensão.

Eu quero abrir os meus Olhos, e depois treiná-los. terei que interpretar um mesmo papel por mais tempo que imaginei. incrível, de todas as personagens que encarnei, é justo O Louco o que vai me acompanhar.

e acho que é a personagem que eu melhor sei interpretar.

imagino que este seja o meu Destino - O Drama.

(eu gosto, mas estou sem muitas forças para trocar mensagens subliminares. eu gosto, assim: sem mudar nada).

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Insônia

Janeiro 8, 2006 at 3:41 pm (Uncategorized)

“Sonhos: / Coisas inconsistentes dos anjos / Cavalos nascidos com asas rendadas de estrelas / Mas é tão difícil fazê-los voar / Voar / Voar. / Essas asas / Batem o céu noturno sobre a cidade / Uma vai para cima e outra para baixo / Então a carruagem atinge o chão / Em um pulo / Certeiro // Nos esquecemos (não tente me fazer voar) / Como costumava ser (estou apaixonado por isto…?) / Como costumava ser (…meu constante navio quebrado?) / Como costumava ser (estou começando a gostar desse lugar)” >> We Have Forgotten // Sixpence None The Richer

Insônia

de hoje em diante eu não durmo mais. parei com essas coisas. também paro de beber álcool ou de usar entorpecentes, ou de ver televisão, ou recorrer a qualquer coisa que me tire do estado de alerta. na verdade, de hoje em diante eu crio uma religião, e passo apenas a esperar que ela se torne o que eu sempre esperei que fosse, o que ela sempre deveria ter sido.

vou contar as gotas que caírem no chão. só isso. pelo resto da minha vida. cada uma delas, sem escapar a minha atenção, nenhum detalhe de lado. a minha gata de estimação, pobre uma de cristo, se senta do meu lado sempre que eu paro de fluir, sempre que o meu rio de idéias seca. eu virei pedra nesse meio tempo e ela, de novo: pobre uma de cristo, mia triste e anda em volta entediada. quantas vidas agora, depois daquela última? deve ter sido minha irmã em outra encarnação.

mas a verdade mesmo é que eu morro de insônia, e não há trem que passe de madrugada que me faça querer me desligar desse turbilhão que passa pela minha cabeça. não posso mesmo que eu queria, seja o que for que passe. uma idéia do tamanho de uma formiga de açúcar faz tremer todo o meu chão e não suporto o barulho de seis patas tão pesadas caminhando e caminhando - ela vai bem por onde não deve ir: minha cara, minha mente é território proibido, um labirinto. se entrar, reze sair sã e salva - ilesa

e reze também para que eu possa relaxar meu corpo para que e eu sonhe com mais alguma coisa que vai acontecer.

porque eu sonhei com um splício

e ele veio.

essa INSÔNIA me mata.

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