Moradia

Dezembro 29, 2005 at 3:42 pm (Uncategorized)

“Eu poderia ser Dourado, eu poderia estar Brilhando, eu poderia ser Liberdade, mas isso seria chato >> Fear Of Bliss // Alanis Morissette

Moradia

eu fechei os lábios com uma rosa - é um segredo, então ninguém fica sabendo. e a rosa é porque eu não quero fechar usando chave e cadeado, está fechado por magia: é toda a minha casa sem nenhuma porta: não as tranco mais, deixo abertas para quem quiser espiar, ver tudo o que quiser; mas o que eu quero mesmo guardar está fechado por magia, dentro dos meus lábios, trancado por uma rosa.

e cada sala tem seu cheiro, então eu corro para encontrar o meu lugar - ora, mesmo na própria casa, há lugares que não pertencem a si mesmo - é preciso caminhar como as formigas, logo elas, que carregam o mundo e cabem em si mesmas. eu sei caber em mim mesmo, mas logo os meus corredores já ficam estreitos demais e começam a me sufocar - é hora de procurar por outras salas, pelo coração da casa, e lá eu vou.

as salas com cheiro de barro me lembram de quando eu fui um perdido, um amante, um coringa, um príncipe, um deus - tive todas estas vidas, ou acho, mas quero voltar a ser caçador, pisar o chão de grama e sentir cheiro de madeira. pronto, agora sala nenhuma me contém e eu me torno uma parte do mundo do qual me privei - “pobre um, a vida inteira na própria concha” trancado por uma rosa.

sou agora um gigante, então. vou devastar cidades inteiras com poucos passos, mas logo vem aquela gana distante, do tempo em que nem humano eu não era ainda, gana de explodir e virar do avesso - e dessa vez, ser a parte de fora do mundo, e não a parte de dentro da casa

porque eu sinto dentro de mim cada uma das vidas que eu já vivi

e (sinceramente) eu não estou disposto a baixar a minha concha logo agora.

vou antes dar mais um passo.

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Medo da eternidade

Dezembro 23, 2005 at 3:44 pm (Uncategorized)

(conto publicado no livro A descoberta do mundo, de Clarice Lispector)

Jamais esquecerei o meu aflitivo e dramático contato com a eternidade.

Quando eu era muito pequena ainda não tinha provado chicles e mesmo em Recife falava-se pouco deles. Eu nem sabia bem de que espécie de bala ou bombom se tratava. Mesmo o dinheiro que eu tinha não dava pra comprar: com o mesmo dinheiro eu lucraria não sei quantas balas.

Afinal minha irmã juntou dinheiro, comprou e ao sairmos de casa para a escola me explicou:

“Tome cuidado para não perder, porque esta bala nunca se acaba. Dura a vida inteira”.

“Como não acaba?” Parei um instante na rua, perplexa.

“Não acaba nunca e pronto”

Eu estava boba: parecia-me ter sido transportada para o reino de histórias de príncipes e fadas. Peguei a pequena pastilha cor-de-rosa que representava o elixir do longo prazer. Examinei-a, quase não podia acreditar no milagre. Eu que, como outras crianças, às vezes tirava da boca uma bala ainda inteira, para chupar depois, só para fazê-la durar mais. E eis-me com aquela coisa cor-de-rosa, de aparência tão inocente, tornando possível o mundo impossível, do qual já começara a me dar conta.

Com delicadeza, terminei afinal pondo o chicle na boca.

“E agora que é que eu faço?” Perguntei para não errar no ritual que certamente deveria haver.

“Agora chupe o chicle para ir gostando do docinho dele, e só depois que passar o gosto você começa a mastigar. E aí mastiga a vida inteira. A menos que você perca, eu já perdi vários.”

Perder a eternidade? Nunca.

O adocicado do chicle era bonzinho, não podia dizer que era ótimo. E, ainda perplexa, encaminhávamo-nos para a escola.

“Acabou-se o docinho. E agora?”

“Agora mastigue para sempre.”

Assustei-me, não sabeira dizer por quê. Comecei a mastigar e em breve tinha na boca aquele puxa-puxa cinzento de borracha que não tinha gosto de nada. Mastigava, mastigava. Mas me sentia contrafeita. Na verdade eu não estava gostando do gosto. E a vantagem de ser bala eterna me enchia de uma espécie de medo, como se tem diante da idéia de eternidade ou de infinito.

Eu não quis confessar que não estava à altura da eternidade. Que só me dava aflição. Enquanto isso, eu mastigava, obedientemente, sem parar.

Até que não suportei mais, e, atravessando o portão da escola, dei um jeito de o chicle mastigado cair no chão de areia.

“Olha só o que aconteceu!” Disse eu em fingido espanto e tristeza. “Agora não posso mastigar mais! A bala acabou!”

“Já lhe disse” repetiu minha irmã “que ela não acaba nunca. Mas a gente às vezes perde. Até de noite a gente pode ir mastigando, mas para não engolir no sono a gente prega o chicle na cama. Não fique triste, um dia eu lhe dou outro, e esse você não perderá.”

Eu estava envergonhada diante da bondade da minha irmã, envergonhada da mentira que pregara dizendo que o chicle caíra da boca por acaso.

Mas aliviada. Sem o peso da eternidade sobre mim.

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