“olha, não sou daqui, me diga onde estou / não há tempo, não há nada que me faça ser quem sou / mas sem parar pra pensar / sigo estradas, sigo pistas pra me achar / nunca sei o que se passa com as manias do lugar / porque sempre parto antes que comece a gostar de ser igual, / qualquer um, / me sentir mais uma peça no final / contendo o erro bobo desse mal / (…) / pelas minhas trilhas você perde a direção / não há placas nem pessoas informando aonde vão / (…) / e, na verdade, continuo sob a mesma condição: / distraindo a verdade e enganando o coração” >> Antes Que Seja Tarde // Pato Fu
Voz
se eu pudesse, assistiria por mais tempo àquela mesma imagem. pedi que repetisse aquele sorriso tão puro, mas que não me olhasse com aquele espanto. eu devo ter me sentido leve, como se eu tivesse cinco anos de idade e nenhuma sombra no coração. é assim que aquele serriso me fez me sentir: puro.
eu sou então o garoto que faz soar o grande sino, aquela criança que corre para contar primeiro a novidade que presenciou com entusiasmo, o menino que aprendeu a fazer barquinhos de papel. ninguém mais se lembra dessas coisas, e eu passei a carregar aquela marreta tão pesada para badalar o sino e todos ouvirem. incrível, a novidade virou medo, e agora quando alguém ouve o metal soando é já esperança de morte passando pelas ruas. a criança não entende a introversão dessas pessoas.
a minha criança é mais adulta ainda, é centenária
a minha criança é sinceridade de água cristalina
a minha criança não gosta de criança
mas se sentiu bem por parecer criança. eu me senti bem por ver aquela feição desprotegida que me fez me lembrar de tanta coisa mas me deu tanto medo e eu fiquei em dúvida das minhas escolhas
a minha criança não quis escolher, quis deixar passar um navio sem precisar buzinar
(mas navio de tão grande fez onda que levou mais vento por todo lugar)
e eu sou para quebrar onda e me opor, eu sou para fazer marcas de pés no chão, mas quando era para badalar o sino de novo, senti apuro e me contorci. vai ser melhor eu apenas falar, agora, já que sei que minha voz está sendo ouvida. e descobri que não é voz estranha, é voz suave, é voz que tem força, mas não quis dizer o que tinha de dizer - fingi esquecer.
tem mais de vinte linhas, a minha voz. muitas linhas e entrelinhas e começou com um sussurro - começou, sim, sem perceber, já começou, com mais entrelinas, com mais enigmas para decifrar e mais escolhas para fazer e alguns problemas para enfrentar. eu fiquei com medo, porque também não sei de nada disso, mas acho que sei que eu seria o único a entender parte do que foi dito no reino, parte das entrelinhas.
isso é um segredo, mas nunca me senti tão feliz por sentir de volta aquela criança pura,
por notar um sorriso tão inocente e querer ver mais.
mas isso ainda pode ser um segredo.
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tamanha tragédia pisotear um ao outro, com o quanto nos suportamos / com o estado em que esta terra está / você e eu nos sentimos unidos apenas por gênero / nós não somos um por todos e nem todos por um >> Sister Blister // Alanis Morissette
Ímpar
Ímpar. vão separando-se em pares que no final, um tem que sobrar. em todo caso, se for ímpar, conserva-se o sinal: Negativo! pouco importa: sobrar, manter-se ou alterar; o importante é prestar muita atenção para que nada passe despercebido, nem erros nem acertos. note tudo e confira o resultado. nem sempre é possível se corrigir: alguns erros são para a eternidade.
mas para sempre pode ser tão rápido quanto um tiro de canhão, e erros se tornam tão profundos que logo se cobrem de rocha e fabricam petróleo. eles vão todos procurar pelos poços para perfurar a terra e quando o óleo for encontrado, são meus erros jorrando para o céu aberto ? quero fugir: voltar a ser Caçador, de longe, caçar baleias em meu mar de água fervente ? quando elas acordarem para mover a cauda, serão a força que quebrará as geleiras do mundo.
a grandeza da eternidade é imensurável. quem sabe dizer o quanto dura, não sabe se é muito ou pouco tempo: uma vida pode passar rápido, sem tempo para fugir, ou ser tão lenta que a fuga não será despercebida e logo estará preso novamente. mais vale esperar pela nova temporada de caça do que arriscar o resto do tempo na prisão.
então todas as coisas perdem o próprio nome e a definição. tenho ganas de atirar lanças quanto mais forte puder para perfurar de vez a origem deste conflito. não, não é o que eu quero, sei disso: não quero matar os maiores seres da terra ? elas são todas minhas amigas, minhas filhas, minhas irmãs. eu quero apenas salva-las da perdição ? salvar a mim mesmo dessa perdição, já que não existem mais dragões para me levar daqui voando. vou submergindo, submergindo: pesado e profundo sono ? este é o meu ?Verão no Aquário?, prisão que deixa ver de tudo por si só, e minha voz não se propaga por esta água tão densa, e novamente submergindo, submergindo.
submergindo e queimando a pele na água fervente capaz de derreter geleiras mas incapaz de condenar: voz que não passa de bolhas e eu, perdido, isolado, sem rumo: ímpar ? então erro que passou despercebido, fruto de falta de atenção. assim sou eu erro para sempre?
erro queimado e congelado. erro coberto de rocha até virar petróleo. erro perdido até que encontrem o centro da terra para espalha-lo pelo alto, para o céu ? viajar para o centro da terra para saber quem se é ? centro da mente, porto de água-marinha para depois retornar. e mais tempo para respirar, e mais tempo para descobrir que o mundo mudou. depois dos dragões, as baleias, mas agora é a vez de outro ser vivo ser o maior de todo o espaço. ser Caçador dura APENAS o tempo necessário para se aprender a ser presa.
meus amigos, meus filhos, meus irmãos.
eu sei, o mundo mudou.
o mundo é Ímpar.
foi o que as cartas me disseram que eu sou.
//participação especial (em letras itálicas) >> Rodrigo Sampaio
>> www.digosblog.wordpress.com
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ficar paralizado sem saber o que fazer. grande feito, porque fez o tempo parar. demorou cem anos para aquela gota de água terminar de cair da folha mais baixa da árvore até o chão, e depois mais cem anos até o seu pouco de água se espalhar e novamente cair no chão. o homem que se preparava para dar o nó na gravata também demorou quase isso: nó na gravata, nó na garganta, e apertou e apertou até sair voz que também demorou - voz de embargo, voz estrondoza e cheia de trepidações. um outro ouviu um lamento confuso de longe, e de tão saturado, só olhou de lado desconfiado e passou despercebido. a mulher com muitos filhos nunca notou que um era diferente do outro e deu para todos uma caneta da mesma cor para escreverem.
um caminhão atropelou uma borboleta sem nem notar. como pôde ser tão bárbaro contra um ser de tanta graciosidade? pois a borboleta queria dizer bom dia para o médico que cuidou das pernas da atleta, mas na casa do outro médico quem dizia bom dia era apenas uma planta seca, um cacto mal humorado e espinhento. ninguém conheceu o rapaz que se jogou do viaduto e morreu no meio da avenida. sim, ele devia ser um louco, mas atrapalhou a vida de todos aqueles que chegaram cinco minutos menos cedo em suas casas para ver televisão.
e quando a gota de água terminou a sua longa viagem, de tão cansada nem fez barulho e o tempo voltou a caminhar. mas eu ainda não escutei nada e outra borboleta foi atropelada brutalmente - esta, de propósito. motorista sem coração. sim, mas alguém se suicidou e quantos foram os nós na garganta que acabaram em choro de arrependimento? tem tanta gente gritando nos meus ouvidos, tanta gente desesperada, sussurrando, pedindo por seus amores, mas eu estou tão longe, longe-longe, que só vejo silêncio, e é um silêncio ensurdecedor de tão silencioso, um silêncio que pesa nas minhas pernas quando vou caminhar e eu não suporto. se eu olhar para o lado e soltar uma palavra no vento, quantos serão os que irão se debater para poder pelo menos dar um leve toque nela com as mãos? alguém que queira comer as palavras, que esteja faminto há muito tempo, eu espero.
mas olha lá, de novo, é uma de minhas amigas voando de novo. ela tem asas maiores do que o pequenino corpo e eu digo vá, siga antes que a brisa fique mais forte. quanta fragilidade, quanta delicadeza - ingênua garota - sim, para mim ela já é humana, mais humana do que estes caminhões na rua, mais humana do que tantos trilhos de trem e em pouco tempo eu dou um sussurro para quebrar o silêncio - ele vai quebrar e partir em mil pedaços transparentes - cuidado! se andar descalço por este caminho, pode furar os pés com os caquinhos do silêncio mal quebrado, e se sair sangue, vai todo mundo saber que andou por onde não deveria ter andado
e quebrado o silêncio que só deveria ser observado.
eu recebi a VISITA de um espírito livre durante um sonho, à noite
e sonhar ainda é uma virtude.
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