Retorno

Outubro 22, 2005 at 3:49 pm (Uncategorized)

eu quero uma boa vida / mas não quero um Caminho Fácil / o que eu quero é trabalhar por isso: / respirar o ar e sentir o sol no rosto dos meus filhos /(…)/ eu dou voltas e voltas / tal qual um círculo / posso ver uma intura mais clara / quando toco o solo / completo o círculo / para o meu lugar / então estou em casa / estou em casa >> Easy Ride // Madonna

Retorno

perdi a noção de quantos dias passaram enquanto eu tinha sono - acordar de vez em quando apenas para saber se ainda estar vivo não é necessariamente estar vivo. descobri que respirar pode fazer as coisas correrem mais devagar ou rápido, para se pensar. pensar requer tempo livre e espaço aberto. não caibo mais dentro da pequena concha, me cansei de ser ostra dentro do mar.

acho que sim, que voltei a ser andarilho, se é que um dia eu o deixei de ser. se eu deixar as minhas malas pelo caminho, certamente as terei ainda no tempo em que voltar, porque os ladrões aqui roubam intelecto, cada idéia deve ser bem guardada, com todo o zêlo que se adquirir, mesmo que eu já conheça este lugar que estou pisando. segunda vez, acho que já passei por aqui.

sim, eu me lembro, isso era terra de ninguém mas tinha dono, e nenhum dos meus mensageiros tiveram o poder para pisar em solo tão sagrado. isso sim é um vale fértil e eu notei que é este que eu tenho que conquistar. é difícil revisitar os lugares antigos depois de ser banido - mas não fui banido, saí por conta, depois de mostrar ao imperador a minha verdadeira face. ele queria saber quem eu era e agora sou eu que me pergunto: quem eu sou? sou quem retorna para mexer nas gavetas antigas e notar que ainda quero assistir àquele espetáculo para o qual não tenho ingresso - ingresso exclusivo, cedido pelo imperador para quem o merecer (só o que me aflige é que as pessoas que recebem este sublime presente não aceitam pequenas cortesias, querem sempre possuir os palácios, não o coração de seus ocupantes).

eu me coloquei na disputa muito misteriosamente, da mesma forma como uma tempestade chega sem aviso nos dias de maior sol. ninguém entendeu o motivo da minha chegada e nem a minha preocupação com segurança. deixar pedras no caminho para saber voltar sem se perder, mas foi em vão porque me perdi, e depois nunca voltei, só encontrei saída oposta. quem diria que seria crime tão bárbaro pintar palavras nas paredes dos castelos e esperar por uma palavra de trégua. invadir reinos requer maior conhecimentos. não mais: o povo é contra o rei. já passou aquele tempo em que ele era toda a providência divina no comando da nação. ninguém quis justiça e ninguém quis ter paz: abaixo à falta de moral, vamos denegrir sua imagem e protestar contra o rei que inventamos ser aquele! não, não, não, eu quero conhecer o rei antes que ele seja derrotado! eu quero saber de todas aquelas coisas que provavelmente eu saberia se fosse um súdito fiel.

vou me deitar aqui, então, em chão gramado e verde. quem sabe as núvens tomem formas que me ajudem a saber a direção do norte. é hora de ir embora de novo, mas eu ainda tenho alguns dias, vou subir nos muros altos da cidade, e ficar observando de longe as janelas do castelo e pensando com os meus botões.

quem sabe um dia eu possa conquistar este território

e não precise mais ver o ingresso para o espetáculo ser entregue a quem o rejeite.

(este meu retorno não foi voluntário - só espero que haja SILÊNCIO para eu dormir em paz se eu for expulso novamente, sem palavra alguma sobre o retorno insano - não é minha culpa)

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(Des)Inimizade

Outubro 2, 2005 at 3:50 pm (Uncategorized)

quando será a hora de documentar este comportamento submarino? (faça isso agora!) balance-nos deste pesado e profundo sono. >> Submarine // Björk

(Des)Inimizade

eu olhei para ele e sorri, talvez. somos Amigos não declarados, mas sei que nos lembraremos de contar quando virmos algo curioso ou quando pensarmos em morte. eu disse que “quando eu morrer, quero ser cremado e ter minhas cinzas guardadas numa ampulheta - poder controlar o tempo sob o qual nunca tive poder”. ele achou patético e estranho e declarou: “quero ser enterrado em posição fetal, como no ventre da minha mãe - na verdade, quando eu morrer, quero voltar para lá, quero que ela me engula de volta” e eu tive um espasmo.

“não será possível, Amigo, você viverá por muito mais tempo do que isso”. e eu sei disso como eu sei soletrar o meu nome de trás para frente, como eu sei a que horas o meu coração vai bater mais forte. sei do número de livros e discos que eu tenho e sei que eu gosto de escrever. “leia meus textos, meu amigo, você gostará muito deles”, mas logo ele descarta: “se tiver mais do que vinte linhas, eu não leio, sinto muito” e eu não tive o que responder, mas quis implorar para que alguém (ele) os lesse e compreendesse. se tem mais do que vinte linhas, não leio; se tem mais do que vinte linhas, não vivo - só passo os olhos por cima do texto e vejo o tamanho e então descarto - só passo os olhos e vejo o tamanho da vida e descarto - já entendi então o que ouvi, que “quando morrer, quero que minha mãe me engula de volta” para eu não me cansar de tanto ler esta vida comprida e rebuscada.

tudo bem, Amigo, vou passar a contar as minhas linhas pra você, da mesma forma que eu conto as linhas da minha terra, da minha plantação - mas minha terra já está infértil e pronta para morrer - é hora de voltar a ser nômade e procurar por novos lugares e novas pessoas. ter coração nômade, sonhos nômades - ora penso em mitologia nórdica, ora penso em filosofia grega (ora penso em querer igual, outrora penso em querer igual, mas diferente). “mas isso é uma questão de escolha, douglas, você escolheu ser assim” e eu parei de pensar. agora sou eu: quero voltar a ser feto ser semente - mas com mente consciente, saber de como que tudo aconteceu - qual o meu deus, qual a minha cor, qual o meu signo (meu anjo da guarda e meu karma). qual é? acho então que eu os escolhi.

ou então eu vivo a minha vida de trás para frente. sim: quando morri, virei luz e sei como cheguei lá, que escolhas que fiz - mas só sei disso se minha vida for de trás pra frente - por enquanto, sei de nada, então sigo meu coração (porque ele é eterno e tem contato com todos os deuses).

e de vez em quando eu sei que meu coração FINGE que viveu de trás pra frente só para fazer parecer que sabe de tudo

quando eu só quero saber da cor dos meus olhos, dos meus cabelos e da minha pele, talvez.

“mas tudo isso, douglas, é só uma questão de escolhas”.

eu sei, Amigo,

mas duvido.

(e eu perguntei “quantos Amigos você tem?” e ele me respondeu “na verdade, acho que sou meu único Amigo”, mas só depois de longos segundos - questão de escolhas).

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