Retorno
eu quero uma boa vida / mas não quero um Caminho Fácil / o que eu quero é trabalhar por isso: / respirar o ar e sentir o sol no rosto dos meus filhos /(…)/ eu dou voltas e voltas / tal qual um círculo / posso ver uma intura mais clara / quando toco o solo / completo o círculo / para o meu lugar / então estou em casa / estou em casa >> Easy Ride // Madonna
Retorno
perdi a noção de quantos dias passaram enquanto eu tinha sono - acordar de vez em quando apenas para saber se ainda estar vivo não é necessariamente estar vivo. descobri que respirar pode fazer as coisas correrem mais devagar ou rápido, para se pensar. pensar requer tempo livre e espaço aberto. não caibo mais dentro da pequena concha, me cansei de ser ostra dentro do mar.
acho que sim, que voltei a ser andarilho, se é que um dia eu o deixei de ser. se eu deixar as minhas malas pelo caminho, certamente as terei ainda no tempo em que voltar, porque os ladrões aqui roubam intelecto, cada idéia deve ser bem guardada, com todo o zêlo que se adquirir, mesmo que eu já conheça este lugar que estou pisando. segunda vez, acho que já passei por aqui.
sim, eu me lembro, isso era terra de ninguém mas tinha dono, e nenhum dos meus mensageiros tiveram o poder para pisar em solo tão sagrado. isso sim é um vale fértil e eu notei que é este que eu tenho que conquistar. é difícil revisitar os lugares antigos depois de ser banido - mas não fui banido, saí por conta, depois de mostrar ao imperador a minha verdadeira face. ele queria saber quem eu era e agora sou eu que me pergunto: quem eu sou? sou quem retorna para mexer nas gavetas antigas e notar que ainda quero assistir àquele espetáculo para o qual não tenho ingresso - ingresso exclusivo, cedido pelo imperador para quem o merecer (só o que me aflige é que as pessoas que recebem este sublime presente não aceitam pequenas cortesias, querem sempre possuir os palácios, não o coração de seus ocupantes).
eu me coloquei na disputa muito misteriosamente, da mesma forma como uma tempestade chega sem aviso nos dias de maior sol. ninguém entendeu o motivo da minha chegada e nem a minha preocupação com segurança. deixar pedras no caminho para saber voltar sem se perder, mas foi em vão porque me perdi, e depois nunca voltei, só encontrei saída oposta. quem diria que seria crime tão bárbaro pintar palavras nas paredes dos castelos e esperar por uma palavra de trégua. invadir reinos requer maior conhecimentos. não mais: o povo é contra o rei. já passou aquele tempo em que ele era toda a providência divina no comando da nação. ninguém quis justiça e ninguém quis ter paz: abaixo à falta de moral, vamos denegrir sua imagem e protestar contra o rei que inventamos ser aquele! não, não, não, eu quero conhecer o rei antes que ele seja derrotado! eu quero saber de todas aquelas coisas que provavelmente eu saberia se fosse um súdito fiel.
vou me deitar aqui, então, em chão gramado e verde. quem sabe as núvens tomem formas que me ajudem a saber a direção do norte. é hora de ir embora de novo, mas eu ainda tenho alguns dias, vou subir nos muros altos da cidade, e ficar observando de longe as janelas do castelo e pensando com os meus botões.
quem sabe um dia eu possa conquistar este território
e não precise mais ver o ingresso para o espetáculo ser entregue a quem o rejeite.
(este meu retorno não foi voluntário - só espero que haja SILÊNCIO para eu dormir em paz se eu for expulso novamente, sem palavra alguma sobre o retorno insano - não é minha culpa)