todas as coisas modernas, como carros e tal, sempre existiram. estiveram apenas esperando em uma montanha pelo momento certo, ouvindo aos barulhos irritantes de dinossauros e pessoas gritanto do lado de fora. é a vez delas agora.>> The Modern Things // Björk
Equilíbrio
quero só saber por quanto tempo eu consigo me equilibrar nos trilhos do trem. andar com pé ante pé e ter os braços estendidos para manter o equilíbrio, respirar devagar para manter o equilíbrio. tudo para manter o equilíbrio, tudo para alcançar o equilíbrio.
mas se vem vento forte é logo esforço inútil. tantos metros de trilhos não valem uma queda, valem viagem apenas. quem cai que fique, vale apenas quem sabe seguir em frente e olhar para frente apensa. ah, a discórdia vive entre nós e também sabe viajar de trem, só que a discórdia é polivalente e sabe se travestir muito bem - o trem que ela tripula pode subir ao alto topo de montanha mais alta, e depois cai feito montanha russa. eu não quero subir feito trem com discórdia, eu quero ir subindo devagar, com pé ante pé e com braços estendidos e tudo aquilo que eu canso de dizer. subir sobre os trilhos e com equilíbrio, bem devagar para saborear toda a vida e sentir todo o sol e todo o sal - o sal das lágrimas até faz bem de vez em quando e eu quero saber chorar, e depois saber rir e saber que hora é hora de saber - quero saber de tudo, mas tudo é muita coisa. então eu quero saber de amor e só.
pronto, já sei o que quero e as coisas ficam diferentes, mesmo sem a gente querer. e logo os trilhos começam a vibrar e eu entro em pânico - este trilho não é mais meu e vem trem pelo caminho - é preciso sempre parar para pôr o ouvido junto ao chão das estradas, para sentir de onde vem aquilo que nos levará embora, de onde vem tudo o que pode nos atropelar. o trem sobe a montanha mais rápido, eu sei, mas eu não quero ficar preso. o que eu quero mesmo é subir até o todo, e lá de cima rasgar almofadas no ar, para depois recolher todas as plumas, uma a uma, onde quer que elas estejam, seja com os deuses do olimpo, seja com as serpentes do mar e depois saber o mundo todo. dessa forma eu saberei o mundo todo porque saber é vida viva nas idéias.
e já estou eu a descosturar almofadas e espalhar meus enigmas. vou esperar para SABER quem vai decifrá-los. quem, também fora dos trilhos, vai saber procurar o que se procura, procurar o que eu procuro e saber encontrar quem está à espera. quem vai descobrir o que se pensa e saber o que dizer - mesmo sem saber o que dizer, mesmo, antes, sem perceber onde eu montei meu esconderijo. eu sorrio. chego a me assustar.
mas eu sei o que eu acabei de fazer.
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aqui estamos, na sala de espera do mundo. esperamos até você chamar pelo nosso nome alto e forte, na sala de espera do mundo >> The Waiting Room // Sixpence None The Richer
Oceano
vou escrever uma mensagem e colocar dentro de uma garrafa. depois eu conto quantos passos eu dou até chegar no mar e em quantas cabeças pisei para cortar meus caminhos - e o cheiro de água salgada e tanta areia fina, tanta areia fina que a minha pele já é quase uma concha pronta para abrigar ostra, pronta para criar uma pérola - e eu sou todo concha, fechado feito concha, defesa feito concha. nada penetra, nada no centro do mundo.
mas tanto grito agudo quebra todo o cristal da redoma. se há desespero na voz logo as taças se partem e tudo vira caco no chão. o vidro se quebra e logo se trincam os ossos e a concha se racha. tanto desespero é a garrafa que eu jogo para o mar. quem vai responder a minha mensagem? quem vai receber o tesouro dentro da minha garrafa? eu vou ficar esperando até receber a minha carta de volta - a corrente do mar demora sete mil anos para se completar e eu espero a volta ser feita, espero até virar estátua de areia e cultivar pérolas na minha concha, até que alguém chegue e martele, até que alguém chegue e atire contra a pedra, até que alguém dê um grito que transpasse a espessura dos meus ossos, que me faça levantar do sono profundo - a garrafa que atiro ao mar é gana por companhia eterna. seja então essa onda que formou o eco da minha voz no mundo inteiro, antes dos sete mil anos das correntes marinhas, antes que o mundo fique pronto nos sete dias e o homem seja criado, antes da explosão do universo na casca de noz.
antes, quem sabe, que eu comece a respirar.
desse jeito eu durmo para sempre, porque me dá sono ser sinônimo sempre das mesmas coisas, me dá sono sempre procurar o que falar e falar sempre as mesmas coisas que ninguém entende direito o que são, me dá sono sempre querer ser o único a falar e perder a voz por falar demais. eu quero parar de correr atrás da própria cauda e olhar mais para alguém que tenha o corpo mais parecido com o meu: meu semelhante em gênero; ouvir algumas palavras mais simples e poder sorrir com mais simplicidade. abraçar mais idéias, mais pessoas, mais amigos e mais amantes. ter um pouco mais de paz de espírito.
tarde. adormeci sem notar. e quando minha garrafa voltar, será tiro certeiro na crosta da concha, martelada no meio da medula que fará contorcer minha coluna - vertebra por vertebra eu acordo e em pouco tempo já estou de pé, vertebrado. serei eu no meu mais puro estágio, este somente quando despertar, porque eu acredito que a minha mensagem causa estrondo e muda o curso dos ventos - estes não demoram tanto para dar suas voltas por toda a terra. já ouço os ecos das minhas próprias palavras. doces sons estes meus.
sou narciso reencarnado.
eu sou um oceano a ser descoberto.
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deixa: se fosse sempre assim tão quente. (…). tem dias que tudo está em paz, mas agora todos os dias são iguais. >> Angra Dos Reis // Legião Urbana
Om, Shanti
eu quero parar de correr atrás do próprio rabo, da própria cauda. os deuses me querem trabalhando, sem descanso, sem preguiça, nervosismo apaziguado e eu me esqueci de quem eu sou. ah, respirar, ah, abrir os olhos, que vento frio, tão frio, tão chato sair andando, tão quente meu sangue que eu quero correr para descansar mas eu não posso porque eu sou árvore, tenho que ficar parado onde estou e crescer até morrer.
quem dera se eu soubesse domar meu espírito, mas meu espírito é fluído, todo feito em água. é líquido e precisa ser contido para parar quieto. se alguém chega e chacoalha meu vidro é leite derramado, pronto, estou pelo mundo espalhado e correndo atrás do próprio rabo, da prórpia cauda. calma, ainda sei que sou árvore, ainda sei que faço parte da natureza então não tento mudar o giro do mundo. eu só quero saber de onde vem tanta coisa, de onde vem tanto sol e tanto ar. quero saber do sal das minhas lágrimas e do óleo da minha pele, de cada um dos fios dos meus cabelos - se eu sei da origem, eu sei para onde vou, mas está todo mundo só querendo sair voando, chegar mais perto do céu se o céu é sagrado. não, eu não quero voar: não foram asas o que os deuses me deram então eu não quero voar.
mas meus braços podem nadar.
se faço parte da natureza e sou árvore eu vivo como árvore e cresco como árvore. ajudo as pessoas a respirar e dou sombra - sou cheio de sombras, cheio das sombras. santos todos os deuses. não, nem todos, mas as árvores ainda crescem e quanto mais altas, mais fundas suas raizes. quanto mais perto do céu, mais fundo no chão, quanto mais alto no céu, mais perto do centro da terra e para lá que eu quero nadar, para o centro da terra e saber de onde tudo vem. do centro da terra com o peso de todo o mundo, todas as águas. do centro da terra com toda a gravidade, para o centro de cada umbigo, para o centro de cada mente - a copa de cara árvore, o interior de cada semente - e é tudo o centro da terra, tudo no fundo do vão do penhasco, tudo sem luz para que olho nenhum seja capaz de ver a criação de deus. olho nenhum pode ver de onde surgem minhas idéias e eu entro em colapso - o centro da terra começa a tremer e logo é o fim do universo.
e ah, é mais vertigem, ah é mais água salgada e eu protesto gritando. minhas unhas vão acabar rasgando toda a minha pele, e eu ainda sou jovem para me multilar.
acho que vou voltar para o sono profundo.
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quem vai montar em seus cavalos selvagens? quem vai se afogar em seu mar azul? quem vai provar de seus beijos de água salgada? (…) quem vai domar o teu coração? >> Who’s Gonna Ride Your Wild Horses // U2
Procissão
sem demora, sem demora. já fiquei tempo demais e meus amigos estão todos, todos cansados de trabalhar, mesmo os que não trabalham, mesmo os que não estão cansados. ah, eu quero fugir mais uma vez, mas dessa vez fugir montado em cavalos selvagens para alcansar mais rápido a linha do horizonte - mas a linha do horizonte é inalcansável, tão inlaçável quanto todos os meus cavalos selvagens, quanto a lnha do equador. não é hora, eu sempre fujo e viro a cara e já passou do tempo: é hora de cair de joelhos e rezar para os deuses, é hora de quebrar os espelhos e deixar o cabelo crescer.
vou ficar, vou andar. há uma procissão de gente numa rua larga por perto que anda devagar e cantando. é simples a devoção, muito simples e estão todos felizes rezando, mesmo doentes, felizes rezando, mesmo morrendo, felizes rezando e a cantoria lenda da prece vai com o sol, segue o sol e segue igual, sem sal, com sol. tem tanta gente que anda, tem tanta gente que foge (tem gente que reclama e tem gente que corre), eu sei, mas eu parei, porque meu coração apertou e minha pressão toda baixou. se eu desmaiar, alguém vai me enterrar, porque ninguém sabe que eu vou viver por dez mil anos. POIS EU VOU SIM: viver por dez mil anos toda a minha juventude, toda a minha virilidade e perto de morrer, toda a minha infância, morrerei bebê.
depois de tudo isso, que me queimem e guardem numa ampulheta as cinzas. vou sempre contar o tempo, grão por grão do meu corpo queimado e o aperto no coração volta, só de pensar que daqui a pouco tempo - muitos dias, mas pouco tempo - passa mais um furacão em minha vida toda e eu paro de contar o passado - meu passado é cada vez mais recente, chego a esquecer que para estar vivo eu cheguei até mesmo a nascer - minhas idéias são vivas, mas nunca nasceram. se um dia alguma delas nascer, será monstro que aterroriza cidades, avalanche ou maremoto, ainda não decidi, mas mudarão o curso das estradas e quem sabe a procissão cante músicas de coração e não de olhos vendados, e meus amigos cansados de trabalhar, que trabalhem seu próprio espírito. eu JÁ cansei de pôr fogo em livros sagrados para que isso aconteça. minha religião é cultuar idéias em nome de idéias, deuses em nome de idéias
e não idéias em nome de deus.
eu sou politeísta.
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(…) eu subi a árvore da vida, e é por isso que não tenho mais medo de cair.
(…) eu não sou religioso, mas me sinto movido - isso me faz querer rezar >> Nothing Fails // Madonna
Simetria
simetria é este espelho no meio das minhas vértebras, espelho que faz ver coisa com olho esquerdo e coisa diferente com olho direito e sem perceber meu corpo já é torto, porque vejo cada coisa com cada olho e penso o mundo como parte diferente. há simetria, não há simetria - não é palavra vazia que não tem significado, não significar é não.
mas há equívoco, porque as asas da borboleta têm simetria e são parte do mundo, e justo borboleta, que é só asa, asa integral, corpo na asa e não asa no corpo, e pura imagem, pura elegância. borboleta é destino e efeito colateral, com espelho entravado no meio da sua coluna invertebrada e o que me acontece logo passa para o outro lado da asa ou quando toco essas manchas escuras logo me remetem ao passado - sim, porque meu signo não é mais virgem, meu signo não tem mais santidade e preservação de pureza, nem é branco e analítico. acabo de escolher: meu signo agora é borboleta, signo inventado, signo de mitologia grega: porque borboleta é psique e psique se apaixonou perdidamente por eros-cupido e precisou renascer por conta disso. Se borboleta é psique, psique é lagarta em casulo de seda, renascimento de toda alma ao pé de todas as letras - de todas as letras com pés de borboleta, mesmo elas não tendo pés. mas ainda há simetria.
ah, renasci. mais forte e mais corajoso, porque não deixo nada, nada, nada me machucar, porque enfrento de peito aberto o que me afronta, porque aceito o meu destino e porque eu sei ouvir o que meu corpo pede. nunca conheci eros ou cupido, qual for o seu nome, mas conheci narciso, aquele vaidosíssimo rapaz cheio de beleza que se apaixonou pela própria imagem - mas quem não se apaixona pela imagem de narciso? mas narciso é a pura vaidade humana, é a personificação do egocentrismo, porque é científico: o universo gira em torno do umbigo humano, todo mundo tem um universo inteiro dentro da pequena mente e é o resumo do mundo, um mundo bem pequeno. a vaidade de narciso o matou, o fez mergulhar no lago e morrer afogado. o lago era cego, e cego de vaidade, porque se via na beleza dos olhos de narciso e só notava seu universo e pronto.
mas se adão é criação divina, não possuía umbigo e então o universo girava em torno de deus - mas a terra era vaga vazia, e a escuridão estava na superfície das águas. disse deus então ‘que haja luz’, e houve luz e ele viu que era bom. ele fez a divisão entre as águas e as águas e mandou que se colocasse um casal de cada espécie dentro da grande arca. ele transformou a mulher que olhou pra trás em estátua de sal e destruiu a torre dos homens. mas quem criou a minha língua foi eu mesmo. quero conhecer quem criou a língua de deus e entrar nesse universo: porque deus é coisa de homem. eu sei que eu renasci.
ainda vou cultuar as borboletas. mesmo que o SER amarrado ao meu karma tenha as posto fogo e assoprado a fumaça aos sete ventos. mesmo que eu tenha perdido meu nome por causa disso. ainda as desenharei, porque eu sou desenhista. o desenhista de borboletas.
no regrets
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