Julho

Junho 30, 2005 at 4:02 pm (Uncategorized)

sou fera, sou bicho, sou anjo e sou mulher - minha mãe, minha filha, minha irmã, minha menina - mas sou minha, só minha, e não de quem quiser: sou deus, tua deusa, meu amor. >> 1º de Julho // Renato Russo

Julho

quando o dia amanhecer eu farei uma pequena prece, para que eu pare de pensar por alguns dias e quem sabe durma melhor - sim, eu sempre quero dormir e dormir até virar pedra e desmanchar. quero sempre dormir para parar de pensar e parar de pensar para dormir, porque essa cabeça maltrata e incomoda: eu só sei é pensar em poucas coisas e justo poucas coisas que me fazem muito mal. eu não quero mais.

eu tenho ânsias de atirar uma pedra na cara de mil estátuas. estátuas: porque o que não se move é estátua, o que não tem ambição é estátua e o que não se levanta é invertebrado. estátua sem coluna, estátua invertebrada e eu quero chegar bem perto e dizer que eu tenho vontade própria, mas a minha vontade segue uma estátua invertebrada, que não tem ossos para parar em pé e sai andando por força de conseqüências, mas eu não posso mais fazer nada, porque estou preso e preso e preso e cada vez mais preso e a estátua ficou pronta em primeiro de julho, dia de câncer, signo de câncer, dia de gana parada, porque o câncer não se move, vai e volta, vai e volta, vai e volta sempre forte e mata tudo. mata tudo. a estátua que me puxa é esse câncer que vai e volta e vai e volta, porque eu não esqueço, mesmo quando eu esqueço eu não esqueci de nada. ainda paro e travo, porque me movi muito por conta disso.

passaram alguns dias desde o último choque contra a estátua. não o último, prefiro dizer, mas o mais recente, afinal eu não quero que este seja o último, não, nunca, porque eu me apaixonei por todos esses choques, mesmo eles me fazendo mal, eu não quero deixar de mover meu centro de espírito a cada vez que eu me aproximar dos meus demônios de pedra e sem coluna. mas eu respiro e sei que nada vai mudar do que acontece: cada vez que eu estiver andando e algo assim acontecer eu vou mudar meu curso e quem sabe congelar por alguns segundos. estou congelado há mil anos e vou congelar mais, congelar até meus olhos estalarem e eu voltar a me mover - não posso me mover congelado, não quero quebrar meus membros. mas é assim que eu me encontro: com braços e pernas quebrados, não posso fazer nada, nada mesmo e sempre, sempre, sempre eu repito o que escrevo, vou repetir sobre cada parte do meu corpo, repetir o mesmo que falei sobre meus cabelos ou sobre minhas unhas porque eu aprendi a pensar somente a mesma coisa quando soube que primeiro de julho foi o dia do nascimento do maior peso do meu destino, porque eu sei que eu nuca poderia estabelecer certeza, congruência e coesão com esse fruto maldito, nunca mesmo, nunca mesmo e mais repetição. eu sempre soube que nunca daria certo, mas tantos choques me deixaram viciado: me falta sangue quente, me falta sangue frio. eu quero mais emoção e é o que eu consigo: vejo seus olhos - tão claros olhos os da maldição, que enxergam através da minha carne - e meu corpo logo modifica, logo sente todo um fluxo diferente correndo pelo sangue e eu sempre soube que nunca dominaria este demônio, mas me apaixonei por este demônio. não sei esquecer do demônio. ele nasceu em primeiro de julho.

e quando o dia amanhecer em primeiro de julho, eu farei uma pequena prece, para eu parar de pensar, e quem sabe possa dormir melhor.

desejo sorte.

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Pacto

Junho 11, 2005 at 4:03 pm (Uncategorized)

Vá tão longe quanto possa ver. Quando lá chegar, poderá ver ainda mais longe. >>Carlye

Pacto

Palavra de honra: não quero deixar nunca minha concha, mas sempre que se sobe pelas escadas até o alto da torre, já se sabe o que se sentirá, mesmo sem saber o que será visto, porque quando a gente olha da janela, lá do alto, vê quanta vida está passando enquando nós vamos respirando devagar, preocupados com quantas jóias nos mostraremos no jantar.

É uma nostalgia errada, de uma coisa de longe que nunca aconteceu mas que a gente conhece muito bem. E vamos olhando, e vamos olhando e olhando até ter vertigem, mas quando o sol descer já temos sono e mais nostalgia ainda, porque de noite é mais bonito o que se vê pela janela, mas ainda assim eu não quero descer para correr, porque eu conheço isso tudo o que eu vejo - esse é inteiro o meu mundo, o meu mundo inteiro e eu mando nele enquanto o ver. Não quero outro.

Nada. Quero sim, porque já não suporto esse aperto de pular pelo vento. Não é direito esse movimento preso e tudo o que me contém incomoda, o teto incomoda por parecer sempre baixo demais para meu fôlego, esse tecido da roupa me incomoda por parecer quente demais para minha pele, esse sapato me incomoda por não me deixar psar a terra e eu tento respirar ar de longe, tento pôr na cabça idéia de longe, mas livro é espírito de papel, deixa a gente com gana de morder carne humana e roubar as idéias. Ah, lembrei, eu tenho sangue quente e não é torre a minha vida. Concha sim, mas torre não. Eu faço a torre virar pó porque eu pulo a janela e dela não lembro mais, porque meu mundo agora é outro, e eu vou contar o conto contra o fluxo, com todos os fantasmas.

Este é meu pacto com os deuses. Este é o começo da História.

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Saudações!

Junho 4, 2005 at 4:04 pm (Uncategorized)

Este é meu espaço, agora, e cuido para que seja bem zelado. Eu sou um contador de histórias, um listador de mitologias e é isso que melhor farei, esta é minha aspiração, o que sinto que devo fazer - porque sinto, mas ainda não sei se eu realmente existo: minhas palavras vão sempre ficar por aí jogadas, mas elas também não existem, elas são luz disposta e eu não tenho nome, sou pseudônimo, sem nome próprio - eu escolho essa condição, eu escolho não ter nome para não existir e não ter palavras, mas ser lembrado por elas próprias. Este sou eu.

Ousarei filosofar, sim, mas filosofar quando for hora. Evitarei o clichê. Ousar é pular a janela, não apenas olhá-la. Não tenho os pés no chão e nem o fingirei quando estiver escrevendo, porque eu sou sonhador e sonho com a minha vida acontecendo. Eu me projeto. Eu me vejo. Todos me veem porque eu me mostro - mas já disse: não existo, não se confunda.

Mas este é meu primeiro contato, apenas. Sinto ganas de engolir o mundo com tudo que quero deixar na cabeça dos outros, mas vou com calma. Este é meu espaço, tenho liberdade, mas não sou absolutista: aceito outros reis no meu reino, mas não sobre minha coroa. Tenho o coração aberto. E assim vou. E volto.

Nota posterior: Pseudônimo foi o primeiro nome do blog. O endereço era www.pseudonimo.weblogger.com.br

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