Julho
sou fera, sou bicho, sou anjo e sou mulher - minha mãe, minha filha, minha irmã, minha menina - mas sou minha, só minha, e não de quem quiser: sou deus, tua deusa, meu amor. >> 1º de Julho // Renato Russo
Julho
quando o dia amanhecer eu farei uma pequena prece, para que eu pare de pensar por alguns dias e quem sabe durma melhor - sim, eu sempre quero dormir e dormir até virar pedra e desmanchar. quero sempre dormir para parar de pensar e parar de pensar para dormir, porque essa cabeça maltrata e incomoda: eu só sei é pensar em poucas coisas e justo poucas coisas que me fazem muito mal. eu não quero mais.
eu tenho ânsias de atirar uma pedra na cara de mil estátuas. estátuas: porque o que não se move é estátua, o que não tem ambição é estátua e o que não se levanta é invertebrado. estátua sem coluna, estátua invertebrada e eu quero chegar bem perto e dizer que eu tenho vontade própria, mas a minha vontade segue uma estátua invertebrada, que não tem ossos para parar em pé e sai andando por força de conseqüências, mas eu não posso mais fazer nada, porque estou preso e preso e preso e cada vez mais preso e a estátua ficou pronta em primeiro de julho, dia de câncer, signo de câncer, dia de gana parada, porque o câncer não se move, vai e volta, vai e volta, vai e volta sempre forte e mata tudo. mata tudo. a estátua que me puxa é esse câncer que vai e volta e vai e volta, porque eu não esqueço, mesmo quando eu esqueço eu não esqueci de nada. ainda paro e travo, porque me movi muito por conta disso.
passaram alguns dias desde o último choque contra a estátua. não o último, prefiro dizer, mas o mais recente, afinal eu não quero que este seja o último, não, nunca, porque eu me apaixonei por todos esses choques, mesmo eles me fazendo mal, eu não quero deixar de mover meu centro de espírito a cada vez que eu me aproximar dos meus demônios de pedra e sem coluna. mas eu respiro e sei que nada vai mudar do que acontece: cada vez que eu estiver andando e algo assim acontecer eu vou mudar meu curso e quem sabe congelar por alguns segundos. estou congelado há mil anos e vou congelar mais, congelar até meus olhos estalarem e eu voltar a me mover - não posso me mover congelado, não quero quebrar meus membros. mas é assim que eu me encontro: com braços e pernas quebrados, não posso fazer nada, nada mesmo e sempre, sempre, sempre eu repito o que escrevo, vou repetir sobre cada parte do meu corpo, repetir o mesmo que falei sobre meus cabelos ou sobre minhas unhas porque eu aprendi a pensar somente a mesma coisa quando soube que primeiro de julho foi o dia do nascimento do maior peso do meu destino, porque eu sei que eu nuca poderia estabelecer certeza, congruência e coesão com esse fruto maldito, nunca mesmo, nunca mesmo e mais repetição. eu sempre soube que nunca daria certo, mas tantos choques me deixaram viciado: me falta sangue quente, me falta sangue frio. eu quero mais emoção e é o que eu consigo: vejo seus olhos - tão claros olhos os da maldição, que enxergam através da minha carne - e meu corpo logo modifica, logo sente todo um fluxo diferente correndo pelo sangue e eu sempre soube que nunca dominaria este demônio, mas me apaixonei por este demônio. não sei esquecer do demônio. ele nasceu em primeiro de julho.
e quando o dia amanhecer em primeiro de julho, eu farei uma pequena prece, para eu parar de pensar, e quem sabe possa dormir melhor.
desejo sorte.