A dama

Março 15, 2012 at 7:36 pm (Uncategorized)

É na hora em que acordo que meu amor por você é mais forte. Depois de sonhar contigo durante toda a extensão da noite.

***

Paro em frente ao espelho ainda com a toalha enrolada no corpo. Eu sou uma lagarta no momento da metamorfose. Psique diante do noivo cupido. Desfaço o meio nó – nó no peito – e deixo o tecido cair sobre meus pés. Chega ao fim a dança dos sete véus. Já não tenho mais nada a esconder.

Analiso a minha anatomia recém-lavada antes de apanhar o frasco de perfume. O corpo terreno depois do sagrado batismo. Profana, eu, é isso o que sou. Eu tenho o cheiro das madrugadas, dama-da-noite perfumada, a árvore lançada ao feitiço. Capaz ,disposta em uma esquina qualquer,  de deixar a rua inteira com o seu perfume.

O silêncio.

Que cheiro tem a árvore plantada em uma rua deserta?

O cheiro da solidão.

Foi por uma dessas ruas que você se perdeu. Meu amor trançando as pernas por vias vazias. O último homem vivo na cidade abandonada. Não é o último porque ninguém mais vive. Mas é o último porque ninguém o enxerga. Ser das trevas. Caminha no meio da noite por onde ninguém mais anda, nem os mendigos, nem as putas, nem os viciados. Portas abertas para o desconhecido: a minha rua, a minha casa, o homem invisível.

Começou com essas andanças quando meus dias ainda eram claros. Eu me preparava para dormir, quando ele chegou aturdido. Acendeu todas as lâmpadas quase de uma só vez. Eu perguntei, O que se passa?, e ele me olhou como quem quisesse me botar para dentro de si através dos olhos. Disse, Eu só quero enxergar o que eu nunca vi. E todas as lâmpadas já não parecem o bastante.

Passou a noite em claro. Tudo porque teve uma visão: a sua versão particular de purgatório. Ele andava pelo centro da cidade quando topou com uma mulher segurando a filha pequena pela mão. As duas eram cegas, caminhando quase que a esmo, não fosse – Não fosse o quê? Mal havia o que lhes mostrasse o caminho a seguir. Mas elas sabiam. Feito uma aranha que sabe quais são as partes de sua teia que podem ser pisadas, onde é que a seda é segura e não vai prender suas patas – a armadilha é só para os inimigos. Aquelas duas pessoas, mãe e filha. Quatro braços e quatro pernas tateando a imensa teia invisível da cidade, visíveis apenas em seus olhos abertos ao nada.

E foi como se o inimigo preso na teia fosse ele próprio. Logo ele, dotado de tanto tato. Eu quero ver, me dizia. E ver para sempre, sem jamais fechar os olhos.

Começou com as luzes acesas durante a noite, para nunca ter diante dos olhos o negrume das horas sem luz. Eu me contento em dormir com as luzes acesas, contanto que seja contigo. Em seguida, de claras, as noites passaram a ser em claro, sem sono algum. Pessoa que não dorme. Eu fico sempre alerta na tua presença. Feito um vampiro que caminha à espreita. Deita sobre mim a tua capa na hora de morder o meu pescoço, me leva de vez para o teu mundo.

Mas daí em diante a noite passou a ser mais comprida do que o que meu estado de alerta era capaz de sustentar. Boba da corte. Equilibro pratos, faço malabarismos, domo os leões. Em vão. É na escuridão que melhor se enxerga, ele passou a dizer. É na escuridão que se descobre quem se realmente é. Caminha pelos becos procurando pela própria cauda. Roda, roda, feito um cachorro ansioso. Busca na calada da noite o que as vozes na minha cabeça não cansam de pedir. Um ser noturno. O meu amor se tornou um zumbi com fome de carne humana. Os olhos vidrados na madrugada.

Conheceu a magnitude da própria escuridão para se encontrar na luz. Por pálida que fosse.

Eu tento acompanhar. Piso na teia meio sem jeito. Eu sou equilibrista, me sustento nas cordas, na ponta do pé, segurando um guarda-chuva. Mas a tua noite é longa, meu amor. Longa demais. Uma rua comprida e vazia, cheirando a dama-da-noite.

Noite sem fim. Sem nunca mais encontrar o caminho de casa.

Nunca mais – ou quase.

Coloco sobre a penteadeira o frasco do perfume. Agora eu tenho a aura das flores. Preciso de roupa alguma para adentrar esse teu mundo trevoso. Você almeja uma luz constante, mas eu entro no teu corpo é pelas narinas. Coloco meu melhor vestido enquanto procuro pelos meus sapatos que devem estar espalhados pelo quarto. Saio pela porta enquanto coloco os brincos e me deparo contigo na poltrona da sala. Você vem pelas sombras, eu digo, acendendo o abajur. Sou assaltada de súbito por aquele olhar iluminado de quem finalmente se encontrou. Vejo que está prestes a sair, me fala.

(Ninguém doma o dono de um bravo coração. Ninguém doma um homem que conhece seu bravo coração.)

Sim, eu respondo silenciosamente. Não ouso levantar a voz a quem passou a viver nas sombras – por mais luz que traga dentro de si. Minha noite vai ser comprida. Mas ele se levanta antes que eu continue explicando. Se aproxima, me envolve nos braços e segura uma das minhas mãos. Minha festa de gala se inicia. Me concede esta dança? Meu par acaba de chegar ao baile de máscaras. Comédia e tragédia. Eu sou suscetível ao drama. Decora todas as entrelinhas deste meu roteiro. Eu danço a valsa com um fantasma. O salão se abre ao nosso passo. Os casais invejam a nossa dança. As damas comentam meu vestido. Rapazes se curvam na minha passagem. Eu sou altiva sob os milhares de brilhos dos cristais cintilantes dos lustres do salão.

A música acaba e ele se curva diante de mim na intenção de um beijo (eu no centro da teia), que eu rejeito afastando meu rosto.

Saio do abrigo monstruoso dos seus braços – dois braços, duas pernas, dois olhos – estes, bem abertos.

Encontro meus sapatos em um canto. Calço-os e logo recolho também a minha bolsa. Estou de saída, comento, em um pedido educado para que ele se retire.

Desço até a portaria do prédio pela escada, que é para ele já ter saído quando eu chegar lá. Na calçada, o táxi já me aguarda. Abro a porta e digo o endereço para o motorista.

A noite é comprida. Mais comprida do que eu fui certa vez capaz de aguardar à sua espera.

Mas eu também sou um ser da noite, amor. Eu própria me tornei a última mulher do mundo.

Não que todas as outras estejam mortas. Mas porque nenhuma das outras me enxerga.

É minha vez de adentrar cegamente nas trevas à procura de luz.

Pelo espelhinho do quebra-sol, vejo você desaparecer no fim da rua impregnada pelo cheiro de dama-da-noite. Em breve, meus olhos brilharão como os teus. Dois olhos. Dois braços. Duas pernas.

É na escuridão que se enxerga melhor.

Eu durmo com o sol nascente, após uma noite de sonho.

Volte, amor. Mas só depois que o dia raiar.

É que é pela manhã que meu amor por você é mais forte.

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O monstro

Janeiro 17, 2012 at 11:25 pm (Uncategorized)

Entrei pelo portãozinho de ferro. Do jardim, já dava para ouvir o que o Bruno tocava no violino. O homem e sua maravilhosa máquina de voar. Travei a fechadura enquanto ouvia aquele som que mais parecia o uivo de um lobo. Lua cheia. Percebo subitamente que o jardim é bem maior do que eu tinha na memória. É meia-noite na floresta. E eu preciso fugir da fera para me defender. Ouço um farfalhar de folhas que me faz correr para o abrigo do tronco de uma árvore frondosa. A donzela pede ajuda.

Donzela nada. Eu sou um ser da noite, desses com olhos brilhantes quando todas as outras luzes se apagam. Mulher-morcego. Caminho entre as árvores até encontrar o lugar perfeito para os festejos. A convenção das bruxas. O caldeirão borbulhante no meio da clareira. Vamos, irmãs, dancem em torno do fogo sagrado, que o nosso tempo é curto. Eu peço aos deuses que nos dêem o poder de despertar a paixão que adormece. Possa o homem ser um animal irracional domado pelas nossas mãos.

Algumas nuvens se dissolvem e a lua volta a aparecer. Eu volto a mim a tempo de perceber que o jardim à minha frente é inofensivo. Bruno volta a tocar. Eu caminho em direção ao uivo, direto para a toca do lobo.

O lobo. Ele não sabe, mas tem sangue de lobos correndo nas veias. Nos braços. Patas que arranham. Os dentes quase me mordem. Come tudo cru.

Abro a porta e o encontro na sala, violino em punho. “Você chegou!”, abre um sorriso, mostrando os caninos, e eu já tenho um arrepio na carne – eu sou crua por dentro e por fora. É preciso olho clínico para saber identificar as espécies selvagens. Outra garota o consideraria inofensivo, um cão crescido. Leal e sem a menor ferocidade. Esclareço o engano guardado no meio de uma dessas noites que eu já vivi. Agora ele é o médico. Mas quando menos se espera, o monstro acorda e arrebenta a porta da frente, destrói as plantações.

Aqueles dentes.

“Engraçado. Você parece diferente a cada vez que eu te vejo”, ele me diz, colocando sobre mim a mira daqueles seus olhos vagos. Eu sempre fico um tempo em silêncio – ele reparou? – tentando adivinhar para que direção ele olha. “Diferente como?”, eu pergunto, sem saber se fico contente por ele ter prestado atenção em mim. Quase um lorde. Ele sorri de novo, mas antes que eu me perca novamente em seus dentes, ele responde: “Não sei. Só diferente”.

Eu pergunto: “O que estava tocando?” Ele então revira as partituras do pedestal à sua frente – manuscritas – e retorna para a primeira página. “É uma composição minha”, explica. “Já fiz o começo e o final. Mas tem uma parte…”, pausa. Longa. “Eu não consigo terminar uma parte.”

Céus. O lobo engasgou. Um uivo pela metade.

Peguei as partituras rabiscadas, bem pouco compreensíveis escritas assim às pressas. Devolvi dizendo: “Estou curiosa.”

“Eu toco para você”, ele responde.

Bruno então encaixa o violino entre o queixo e o ombro e levanta o arco. Posição de ataque. No disparo da primeira nota, já percebo de onde vem aquela melodia. Aquela noite na sala de concerto. Fomos jantar depois. Ele ficou tão hipnotizado com a apresentação (os olhos perdidos no ar…), que passou o caminho inteiro cantarolando alguma coisa qualquer e tamborilando o volante. “Você está quieta”, ele dizia. Mas não era nada com ele. Ou melhor, era, mas nada de ruim. Eu estava encantada, vendo a música caminhando por aquele corpo todo, que não parava de se mover. E ele balbuciando sílabas dispersas.

“Sabe de uma coisa?”, ele tinha comentado durante o concerto, vendo o pianista e o violinista quase se fundindo em seus instrumentos, “Se eu fosse uma madeira, gostaria de ser um violino. Não seria feliz se fosse uma cadeira ou uma porta.”

Fiquei sem ação. Agora, quem estava hipnotizada era eu. Ele, um violino em minhas mãos, sem que eu pudesse tocar. Tenho que aprender o nome das cordas, a afinação, como funciona teu corpo, e só depois chamar o instrumento de meu. Quase uma anatomia de anjo. As curvas da cintura. O braço. As cordas (vocais?) soando tão perto do ouvido – justo aquela nota que estremece o meu corpo inteiro. Violino você já é, amor.

Voltei a mim quando a melodia foi interrompida bruscamente. Era aquele trecho que faltava.

A música estava incompleta, mas alguma coisa acontecia naquele momento. Bruno estava paralisado, atônito. Os olhos estavam diferentes. Tinham ainda o mesmo brilho – como se fosse possível deixar de tê-lo. Mas agora… eles olhavam para mim, sem aquela estranha dúvida quanto à direção de seu foco. Eles me viam e eu cabia inteira naquele olhar urgente.

Me assustei um pouco com tanto silêncio. Mas não quis interromper o momento. Pela janela, pude ver algumas nuvens se afastando, deixando à vista um imenso disco iluminado. A fera desperta durante a lua cheia.

“Aquele trecho que faltava…”, ele disse, mais para si do que para mim. “Ele surgiu…”

Em vez de tocar, porém, ele deu um passo à frente. De tão absorta que fico com a transformação, esqueço até de pensar em correr. O faro se apura e suas narinas se contraem. A respiração fica mais forte. Ele me fareja. Os pêlos se arrepiam. O lobo do homem. O homem do lobo.

A mulher do lobo. O feitiço se concretiza.

Ele deixa o violino e o arco em um canto e dá mais um passo. Algo parece vir à mente para ser dito. Ele entreabre a boca, mas nenhum som é emitido.

Só os dentes ficam um pouco à mostra.

Os dentes de fera.

Eu rezo por clemência, ó Deus. Uma filha batizada nas santas águas. A bruxa capturada, momentos antes de ser atirada na fogueira. Salvai-me, mas não do monstro. Mas das idéias monstruosas que tomam conta do meu corpo, já que não penso em oferecer qualquer forma de resistência.

Vem, fera. Abre um buraco no chão com as tuas patas para enterrar meus ossos, me guarda só para você. Eu perco a minha civilização, viro selvagem. Quero viver na floresta, com os lobos. Me caso com o macho-alfa, o líder da matilha. Luto por território.

Tarde demais. Ele me ataca o pescoço, o lobisomem-vampiro. De tão selvagem que me torno, de uma hora para outra nem roupas tenho mais, e me abrigo fácil em seus braços enquanto desafio seus dentes monstruosos com a minha própria boca. Rômulo e Remo, os filhos da loba, se atracando pela casa. O império é nosso dentro dessa imensa floresta. A nossa Roma foi inteira erguida em um dia. Eu moro com os lobos enquanto você mora dentro de mim.

Eu uivo às estrelas, gloriosa.

O mundo pode ter o tamanho da nossa cama enquanto a fera está acordada. Não importa. Eu adormeço tranqüila na tua presença.

Sem medo de predador.

Sem medo da tribo rival.

Acordo com o dia ainda escuro e junto minhas coisas em silêncio.

Saio da casa enquanto a fera ainda dorme pacífica. Antes de ir para o jardim, me olho em um espelho da sala. Agora sou eu quem está com o olhar perdido, como que sem saber para onde olha.

O violino ainda estava em um canto.

Ouço um ruído vindo do quarto e resolvo sair de uma vez.

No meio do jardim, volto a ouvir o som do violino. Desta vez, sem a interrupção no trecho que faltava.

Chego ao portãozinho de ferro na hora em que os primeiros raios de sol surgem no céu. Ganho a rua e vou me distanciando da música.

O feitiço funcionou:

Este é o lobo que uiva também para o sol.

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Síntese

Dezembro 21, 2011 at 12:57 am (Uncategorized)

É curioso: o que não tem explicação é justamente o que é mais fácil de se explicar.

Me dá um instante. Eu explico.

Ninguém te pergunta por que você trabalha. Ou por que você gosta de azul. “Trabalho porque preciso” é uma explicação apenas aceitável. “Azul é bonito” não fica longe.

São coisas que já têm alguma resposta pronta. Difícil é responder de forma humana o que fazemos mecanicamente.

(Por que é mesmo que você escreve?)

O que não tinha explicação mesmo foi o que eu saí de casa para fazer hoje pela manhã. Não tenho como explicar o porquê de eu pegar a minha moto, colocar meu capacete e me dirigir para a frente da tua casa. Não é caminho para o meu trabalho, ou para a academia, ou para o supermercado. Não entrei na tua rua porque a avenida por onde eu ia estava interditada. Nem porque acho as árvores de lá mais bonitas.

Entrei ali porque queria te ver.

E nem era porque te acho bonito. Nem porque você gosta de mim enfurecidamente. Ou porque esqueci alguma coisa na tua casa.

Eu só entrei ali porque queria te ver.

E sem explicação nenhuma, visto que eu te odeio. Te odeio tanto, que por mim você só dormia se fosse na minha cama. É tanto ódio, que passei a ouvir as tuas músicas favoritas e decorar todas as letras. De tanto que te quero longe, foi o teu nome que escrevi na contracapa de um livro que comprei esses dias.

Motivos demais para explicar o que não tem explicação. Esse ódio que me faz te querer por perto. Parte das coisas que fazemos unicamente para ser contrário.

Contra.

Eu contra você.

Às vistas de milhares de pessoas.

Preparo o meu arsenal para executar um ataque certeiro. É vergonhosa a derrota em uma disputa alardeada. Canto vitória antes do tempo, subo no salto. Encho tua calçada de bombas-relógio. Eu quero é um manual de instruções. Saber como te ataco para matar a tua parte que ainda vive dentro de mim.

Como tomar um veneno que não me leve junto com o que eu quero destruir de você

mas que na verdade só existe em mim?

Me explica coisas simples. Minhas dúvidas são complexas demais.

Se te tenho nas mãos, te estrangulo. Te sufoco no beijo que sempre quis provar,

e meu ódio me faz descansar a cabeça sobre o teu peito.

Amanhã, eu vou para o trabalho de novo. O céu me mostra diariamente uma das minhas cores preferidas — não me pergunte por quê.

(Por que é mesmo que eu escrevo?)

Eu só sei explicar as coisas que eu faço sem motivo.

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A temperança

Janeiro 2, 2010 at 2:58 am (Uncategorized)

Eu estava picando morangos quando a campainha tocou. “Fim, fam fum, sinto cheiro de humanos”, diria o gigante que vive no castelo no alto das nuvens, e o pequeno João escondidinho atrás do sofá. Vai, João, corre enquanto ele não te encontra e rouba a harpa-cantora!

Dou uma olhadinha no espelho do corredor – tudo ok – e depois no olho mágico da porta. Céus. Meu olho mágico te vê, querido. Quase uma bruxa te assistindo pela superfície borbulhenta do caldeirão, ô! A fumaça da poção se espalhando num fio violeta, saindo pela janela. Te encontra na rua e faz como nos desenhos, chamando zombeteira, feito um dedo tamborilando teu nariz.

Abro a porta e ele está vermelho de tão ofegante. “O que houve, João Pimentão?”, digo e tapo a boca num risinho. Ele entra, me dá um beijo no rosto e senta antes de conseguir responder engasgado: “É que o elevador tá quebrado!” Fico em apuros: Rapunzel aprisionada na alta torre com seu cavaleiro lá embaixo, sem conseguir subir.

“E esse cabelo novo, curtinho?” pergunta ele. E agora? Não vai mais conseguir escalar a torre! Eu digo: “É chanel, tá? Moderno à beça”, mas meninos não sabem nomes de penteados. Então eu brinco: “Se eu amarrar a parte de trás assim, no alto da cabeça, fico parecida com a fada Sininho, não fico não?”, mais uma risadinha – peraí: eu fico mais parecida com a Sininho ou com aquela estatuazinha de ouro presa na harpa da casa do gigante? Era só começar a tocar e a danada cantava com voz de flauta: “Está mentindo, tindo, tiiiiindooooo!”

“Quem está mentindo?”, ele pergunta, ainda esbaforido – sem fôlego para nada, este meu João Glutão. Eu me pergunto: por que é mesmo que ele subiu de escada? Não tinha mais no bolso aqueles feijõezinhos mágicos? “Eles não são para você comer”, disse o comerciante misterioso, com um turbante enorme na cabeça e uma esmeralda pendurada no meio da testa – terceiro olho? “Troco essa vaquinha por estes cinco feijões. Eles são mágicos! Você vai ver só o que vai acontecer com eles”, e o Joãozinho com aqueles outros olhos – também verdes, uma loucura – vidrados nos grãozinhos na mão do indiano – quem disse que ele era indiano? – e eu assistindo tudo na superfície do caldeirão, dizendo “Não! Não! João Bobalhão, sua mãe vai ficar brava! Vende a vaca e leva o dinheiro pra casa!”

“Tive uma idéia!”, digo e saio em disparada pela minha cozinha. Abro o armário e fico procurando meus ingredientes mágicos – toda mulher é uma bruxa no meio de suas panelas – vamos ver: patas de aranha, unha de lagarto, dentes de morcego… feijões mágicos! Levo o frasco até ele e pergunto “Quer uma bala, querido?”, e ele: “Ah, eu aceito!” Pega um pacotinho prateado e coloca no bolso da camisa. BANG, bem no peito. Dei um tiro à queima roupa em você, amor. Minha bala vermelha se alojou bem no coração. Não era ele que gostava desses filmes de tiros, onde o mocinho é um rapaz bonito que ganha a vida roubando bancos? Senhor! Tudo invertido nesse mundo. A mocinha amarrada na linha do trem sem ninguém pra salvá-la, enquanto o mocinho está ocupado demais assaltando o banco. Um faroeste, esse mundo, isso sim. Até no videogame aquele monte de pipoco, Jesus!

“Você ainda joga aqueles jogos de tiro?”, pergunto, voltando para os meus morangos. Tinha até um controle em forma de pistola. “Claro! Como não?” Pergunta boba, Maria Clara. O João vai ser daqueles avôs (ou tio-avôs, se não tiver filhos, vai saber) que dão doces para as crianças escondido, que é para os pais não brigarem. Um vovô com a cabeça nas nuvens. “Se tivesse um bigode, te chamaria de Mario!”, e ele ri um riso bonito de menino sem maldade. O mundo caindo em cima da gente e ele correndo atrás de estrelas brilhantes. Não tem nenhum jogo em que da pistola saiam estrelas? Desse eu chegaria no fim rapidinho. Para passar de fase, você teria que recolher uma bandeirinha branca, lá no alto da montanha, quase no castelo do gigante. Pronto! Fase de bônus. E eu cantando marchinha de carnaval: “Bandeira branca, amor… Não posso mais… Pela saudade que me invade, eu quero paz”.

“E aquela guitarrinha de plástico com botões coloridos?”, e ele: “Ah, o Guittar Hero! Fechei um dia desses.” Guittar Hero… Herói das Guitarras? Imediatamente me pego imaginando um rapazinho do bem – assim, de olhos verdes, como ele – lutando contra dragões e mortos-vivos para libertar a princesa – eu, lógico – da torre medieval. Daí ele chega na entrada, põe um joelho no chão e começa a cantar: “I have climbed… the highest mountains… I have run… through the fields… Only to be with you… Only to be with you…”

“Mas naquela época ainda não existia guitarra, não é?” eu penso em voz alta e ele solta um “Hã?”. “Ah, esquece”, e volto para os meus morangos. “O que você está preparando?”, diz o curioso. Eu? Uma poção para encolher gente. Daí você fica bem pequenininho e eu te guardo dentro da minha bolsa. Daí, quando for hora de comer, te dou um biscoito e pra você vai ser um banquete, que nem naquele filme. Ô. Quem sabe assim você percebe o quanto são poderosos meus doces – já disse: toda menina é uma bruxa quando cozinha. Te dou carinho e você fica sendo o meu mascote. Daí ele vai dizer: “Mas eu vou ficar um anãozinho para sempre?” E eu vou dizer que não, Joãozinho Miudinho, quando eu cansar, faço a poção ao contrário: em vez de esquentar os morangos no fogo, deixo gelar na geladeira, pra fazer você voltar ao tamanho normal – ou então, te dou um cogumelo que nem aquele do Mario – ele cresce quando come, não é?

(Meu amor é doce. Poção mágica. Receita de bruxa.)

Acabo dizendo: “Eu? Uma calda de morango para a torta que está na geladeira. Inclusive, já está pronta”, termino e despejo o conteúdo da panela em uma tigela de vidro sobre a mesa, na frente dele, para esfriar um pouco. Ele olha hipnotizado para o líquido vermelho. Fim, fam, fum.

Tiro a torta da geladeira e coloco na mesa, dizendo: “Ora, João Comilão, deixa eu ver o seu dedinho se já está bem gordinho!” Ele ri e diz: “Clarinha, assim você parece a minha mãe!” Ah, a mãe. A bruxa-mor. Cozinha divinamente. “Vocês vivem grudados! Vão acabar casando”, dizia a mamma com avental na cintura e tigela de bolo nos braços, batendo a massa. A infância tinha cheiro de bolo nas nossas casas – duas casas de doces, geminadas. A janela de bolacha. Chaminé de chocolate. Cama de pão de ló. Casas de bruxa no meio da floresta. Opa, joga migalha no chão pra não perder o caminho de volta, enquanto eu aprendo magia no meio das minhas panelas: chá de carqueja, Maria Clara, é bom para o estômago. Alecrim é pra dor de cabeça. E camomila? Camomila faz dormir tranquilo, minha filha. Então tá. Toma camomila pai. Toma camomila, mãe. Toma camomila, amor. Quero paz pra todo mundo. Todo mundo sonhando com os anjos. Mas o João não dormia nunca. Ia pra longe, longe da minha casa, com seus joguinhos coloridos – os irreais e os reais. Vem dormir, amor, em paz. Comigo. Vem descansar na minha cama.

Daí um dia ele chegou na porta da cozinha. Perguntou “Clarinha, o que você cozinha para alguém quando está apaixonada?” Essa é fácil: tudo o que eu cozinho para você, querido. Será que funcionou? Os olhos até brilham mais quando a boca está cheia. Se fosse pra mim, nem de magia precisava. Um rapaz cozinhando só por amor, precisa de mais?

Mas meu doce açucarou. Perdi o ponto quando soube que era para outra moça. E a mãe, mocinho? O que ela recomenda para a dulcíssima nora que espreita a confeitada casa de doces da floresta? As bruxas doceiras no meio de seus tachos fumegantes. Irmãs: jamais revelai teus segredos. Os rapazes, estes belos e formosos, criados com nossos manjares, nos queimarão na fogueira assim que dermos as costas. Pior: nos nossos próprios fornos.

Meu prato do dia será João na brasa, amarrado pelas mãos e pés e preso num espeto. Uma maçã na boca e acompanhado de batatas coradas.

Corre. Foge da bruxa em fúria, antes de virar banquete.

Corre vida afora e não volta.

Um destempero. O rastro de migalhas na floresta foi todo comido pelos pardais ao longo dos anos. Ninguém voltou para as casas de doce. O gosto agora era de amargo, folha verde-escura de catalonha. Refogada? Crua, com sal. Amargor. Tem jiló maduro, moço? Aqui não tem não, moça. Mas na barraca ali na frente deve ter. Fui para a barraca da frente. Não aguentei e enfiei os dentes em um jiló – uma gana por amargor que eu peguei, meu pai, na rua, em qualquer lugar. Mas… esse jiló estava doce. Deus, o que há com meu amargor preferido? Fiquei tão aflita que nem reparei que do lado tinha um indiano – quem disse? – com um turbante e uma pedra verde brilhante no meio – terceiro olho?. Só reparei quando escutei um sininho. Todo mundo devia andar com um sininho, que nem as cabras, para não se perder, dizia um livro que li. Blem blem. Era uma vaquinha, na mão do indiano. Na historinha, um menino levava a vaca para vender na feira, e um comerciante misterioso oferecia feijões mágicos em troca do bicho. Ele trocou, e a mãe, quando viu, atirou os feijões pela janela. Nem reparou que durante a noite começaram a crescer grossos troncos que iam em direção ao céu.

O nome do menino da história era João, não era? Conheci um, quando era pequena. Crescemos juntos. Nossas mães eram doceiras. Ele vivia jogando videogame. Eu era apaixonada por ele, acho. Foi embora por quê, mesmo? Faculdade? Casou? “Clarinha!”, alguém grita. João? Na feira? “É, tou morando num apartamento aqui perto. Me mudei ontem. É por ali” e apontou na mesma direção que eu ia. Fomos. Era o mesmo prédio. Mesmo andar. Céus. Somos vizinhos de novo. “Não vai querer uma xícara de açúcar, querido?”, brinquei. “Te faço um bolo. Vem comer.”

Ele veio um dia. Outro dia. Mais outro. E mais outro. A minha casa, cheia de jilós, começou a ficar doce. O vidro da janela ficou que nem caramelo. A maçaneta era de chocolate. Da torneira saía guaraná, água de bolhinha. No vaso de violetas nasceram morangos. E os morangos já estão maduros. “Quer passar a tarde comigo, meu caro?” Ele veio. Esbaforido.

“A calda já está morna. Podemos comer”, e ele despertou como num estalo. “Ah, antes que eu me esqueça”, começou João. “Tenho uma coisa pra você em casa”, e saiu correndo pelo corredor do prédio. Revirou o apartamento dele e voltou com uma tigela forrada com um pano. “Olha o que aprendi a fazer.” O quê, meu querido? “É pra você. Pega!”

Cortado em pedaços, um brownie marronzinho. Fiquei sem ação. “Mas…?” Ele sorriu aquele sorriso – tão de menino sem maldade. “Ta vendo? Eu aprendi”, disse e foi atacar a torta com a calda morna. Fiquei ainda um tempo admirando aquele bolo tão inofensivo. Então resolvi mordê-lo. Tinha uma noz no meio. Divino.

Céus. Uma ansiedade subitamente me domina. Quando me viro para voltar à cozinha, ele já estava atrás de mim. Antes que pudesse articular qualquer palavra, me rouba um beijo. O mais doce de todos. Sai correndo para seu apartamento em seguida.

Tarde demais.

Estou enfeitiçada.

Fecho a porta que ele deixara entreaberta e me olho no espelho do corredor. O canto da minha boca ficara sujo com a calda vermelha da torta. Um pouco mais quente do que imaginei que estivesse.

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