Migalha
Três anos de blog. Não venho escrevendo com o mesmo fôlego que antes, mas certamente com muito mais paixão. Os últimos meses foram de uma certa reclusão, mas às vezes é necessário, como as bebidas fortes que precisam maturar, e ficam anos nas garrafas aguardando serem abertas. Elas são mais bem apreciadas por causa da qualidade. Então, neste momento, nada melhor do que falar em abandono. Para os amantes dos vinhos, três anos de tonel. Comemoremos. Bebei, amigos!
Migalha
a última vez que nos vimos, foi para tomar um café na minha casa. ele veio de surpresa, sem avisar. “não repare o abandono”, eu disse, morrendo de vontade de terminar a frase dizendo “é que fui abandonado muito tempo antes de deixar a poeira tomar conta de casa.”
contive a frase cortante, soltando um sorriso pálido: “você se esqueceu de me visitar.”
“é que eu tenho uma memória meio fraca”, disse naquele tom zombeteiro, “como aqueles dentes-de-leão que nasceram ali no seu quintal. repara só: você assopra e saem todos os pelinhos voando. é uma flor esfarelenta, que solta um monte de migalhas.”
eu não tinha reparado nos dentes-de-leão, mas reparei que a sua memória tinha realmente evaporado. esqueceu de mim. não vinha mais me visitar. de um dia para o outro, a minha grama verde ficou infestada destas pequenas flores, como que anunciado a sua chegada.
continuou com ar de sabido: “sabe como os índios chamavam esta flor? ‘pegada de homem branco’. eles achavam que era uma maldição trazida pelos europeus, porque onde eles pisavam, nasciam dentes-de-leão”. dei uma risadinha, porque ele sempre contava esta história deste jeito, numa frase só, como quem resume a história de anos em duas linhas na folha de um caderno.
“então elas sabiam que você viria, meu caro homem-branco”, diparei. só então fui reparar no tempo que ele não toma sol. a pele mais parecia um copo de leite. “um pouco de leite?”, “sim, mas sem café”. esqueço da sua falta de sono. não bebe café nem na hora em que acorda porque acelera o coração e tem daquelas crises. bem aventuradas estas pessoas do coração selvagem, que não precisam de mais estímulos do que aqueles que já possuem naturalmente.
eu, ao contrário, tremia como quem toma litros de café. era visível na ponta do meu queixo. segurei a asa da xícara com mais força para não deixar transparecer. ele pousou os olhos nos meus dedos rígidos naquela asa de louça. “calma, a xícara não sai voando”. pegou a minha mão enquanto eu largava a xícara. as pontas dos dedos retomaram o vermelho habitual depois de ficarem brancas com o aperto da louça. junto com o vermelho nos meus dedos, vem o calor dos seus dedos, e a sensação de soltar um passarinho dócil que não voa, só fica ao redor. bicando as migalhas. minhas migalhas. isto é um banquete de migalhas suas - agora minhas - que eu fui juntando e juntando, de grão em grão.
foi assim: eu fui colhendo cada pedacinho tão modestamente atirado na minha direção. às vezes nem era para mim, mas eu corria e pegava. coleção de migalhas. eu me ocupei em colecionar as suas migalhas, sem nunca dar uma mordida inteira,
sem nunca me alimentar como deveria,
só para tentar juntar aqueles pedacinhos minúsculos
a fim de um dia montar algo inteiro.
e cá estamos agora, trocando mais migalhas do que eu já não tenho para dividir.
mas aquelas mãos ainda aqueciam as minhas, cessando o tremor. e isto me dava ganas de continuar. de fazes as mãos viajarem fundo, por outras partes do meu corpo.
mas me contive.
interrompi o momento, dizendo:
“coma mais pão. eu que fiz. ficou um pouco esfarelento, mas está gostoso”. ele se desconcertou e fez menção de se levantar. “não, obrigado. já comi o bastante. vai começar a chover daqui a pouco. devo ir embora”. achei bonita a forma como olhou para o céu - limpo, sem núvem alguma - procurando por chuva - procurando, quem sabe, por redenção. menitra. estava procurando motivos para se esquecer novamente. e não voltar a fazer visitas.
“a gente se vê”. sério? “você volta?”
saiu sem esvaziar a xícara,
deixando na mesa migalhas do pouco pão que comeu.
tirei a toalha a fim de chacoalhá-la no gramado. atirar embora estes farelos de vez. os dentes-de-leão balançavam tristemente, feito quem dança a dança dos que ficaram de novo sozinhos.
de súbito um vento - como aquele que levou as memórias dele embora - espalhou todos aqueles pelinhos até eles desaparecerem por completo.
antes que o último fiapo das flores se esfarelasse no ar, ele já tinha desaparecido pela rua.
no céu, uma núvem preta começava a se aproximar.