O barco
Cheguei à biblioteca já meio mareado. Tem gente que voa quando sonha, mas eu faço mesmo é navegar. E foi assim que fui chegando, com as mãos já meio enrugadas, de tanto enfiadas na água. Às vezes eu sinto o tempo virando e logo mexo meus remos para fugir do temporal, mas agora eu vejo sol e só. Sento em uma das poltronas perto da janela, com a luz do meio da tarde, das mais preguiçosas. Fico quietinho, só ouvindo o vento na água.
Daí ele me aparece num susto. Vê se avisa, que eu sou distraído. Sempre me esqueço que você é meio submarino. Vem sorrateiro, com seu telescopiozinho e tchooofff, dispara um torpedo, tchooooofff. A moça da televisão ficava gritando “tiro na água!” quando o espectador escolhia um quadradinho errado, e você nem espera escolher outro e manda: tchooooofff. Eu fico até sem saber para onde fugir nesse barquinho tão roto.
Antes do ponteiro da bússola mexer um tracinho sequer, abro o sorriso que passei a manhã ensaiando e digo “Olá, meu querido espião. Te procuro pelos céus e você me aparece pelas profundezas…” Ele sorri com cara de quem não entendeu e pergunta “O que está lendo?” Lendo? Ah, sim, de repente me lembro que estou numa biblioteca e não num barquinho. Uíii, uíii, fazia a sirene do submarino, hora de emergência! Todos a postos. Capitão, o senhor vai ter que parar de ler para analisar o cenário, e o capitão preguiçoso lá deitado, como em filme pastelão. Vamos, o telescópio está a postos. Mas peraí, não era num barquinho de pescador que eu estava? Era, era, mas foi bem assim que ocorreu com ele, saindo correndo daquela estante com seus livrinhos cheios de papéis dentro. Tudo porque me viu. Foi bem assim.
Pois é, eu precisava estar lendo para a desculpa colar, eu que tinha ido ali só para. Vasculho a minha bolsa com cuidado, para ele não ver o tesouro que tinha ali dentro. Shh. fica quieto, tesouro. Tem livro que não fica em silêncio. Grita, berra. E aquele ali, meu pai, livro de sereias. Será que ele vai gostar? Sequestrei uma sereia só para mostrar que eu sei cantar. E foi cantarolando que eu tirei um livro lá dos porões da bolsa. “Estou lendo isso aqui”.
Nem olhei qual era. Ele encolheu aqueles olhinhos de ler bula de remédio e leu o título só na contracapa – a capa era daquelas todas pretas, de livros recauchutados. “Olha só, A insustentável leveza do ser. Obra prima.” Jura, meu amado? Você também gosta desse? Olha como fomos feitos um para o outro, então. Vamos discuti-lo um dia desses, lá na minha casa. Tenho uma cabeceira com mais livros que a prateleira, vê se pode, só para eu ler antes de dormir. Podemos ler na minha cama. A noite toda lendo as desventuras de um amor corrompido. Você pode?
“Legal”, ele diz. “Ouvi dizer que você escreve. É verdade?”, minha Nossa Senhora, o que eu não faria para ele não perguntar isso. Ouço um barulho estranho vindo da bolsa. Sereia maldita, fica quieta. Invento uma desculpa qualquer “Meu celular tá tocando”, e me enfio no meio das prateleiras antes da tirana da bibliotecária me colocar para fora pelo colarinho. Ponho as costas contra a estante e respiro fundo até entrar sal pelas narinas. Mas qual é o problema? Responde logo, que você roubou um tesouro pra ele, conta. Não era ele que gostava de histórias de piratas? Então.
Vai lá, sorri daquele jeito que você ensaiou e diz “Meu querido, olha o que eu trouxe só pra você” e entrega. Céus, faço isso mesmo? Logo eu que. Deus, olha só o que eu fiz, roubando desse jeito. Logo eu que. Um dia me perguntaram “Nossa, quem foi que te ensinou a escrever desse jeito?” e eu, grosso que nem o diabo, fui e respondi “Meus amantes. Aprendi a escrever de tanto ver navios. Acabei morando no mar”. Depois disso, passei a escrever só para seduzir, que nem as sereias cantando. E vão lá e cantam. Aparece um pescador e NHAC! Tchau, pescador, ia dizer a esposa. Idiota. O macho foi se engraçar com a bonitona e tchau. E a pobre lá, com um monte de filho, na beira da praia, gritando “Amoooor, amoooor”. E ele lá na farra com a sereia. “Esposa? Que esposa?”, até que ela vai e. Adeus ao mundo, pescador. Mas se despeça logo, que Deus não gosta dos adúlteros e não vai te esperar muito. Adeus ao mundo, disse o pescador. Pois é, querido, eu fazia isso: escrevia só para aqueles tolos se apaixonarem. E eles, ó. Vem, meu poeta, me guarda nas tuas páginas. E eu dando de beber, escrevedo e dando de beber. Agora diga adeus ao mundo, pescador bobinho. Diga adeus.
Foi num dia que nem esse, com um sol desses, preguiçoso. Daí eu quis dormir tomando sol e ele ficou lá, pescando. Pesca um bem grande, amor, para eu fazer para o jantar. Vou pescar, o safado disse. E eu fiquei lá. Daí começou a demorar e o sol foi embora e o tempo virou. Comecei a trovejar eu mesmo de raiva. Cadê você, pescador, volta logo antes que eu escureça de vez. Vou chover torrentes essa noite se você não vier. E não veio não. E a maré subiu antes do tempo.
Apareceu só no dia seguinte, o safado, todo de ressaca e com uma paixão pelo mar que só. Me subiu o sangue e só não foi chuva de canivete porque. Ventei forte até que ele falou tá bom, tá bom, vou pescar um pouco, e saiu de novo, trançando as pernas, o bêbado. Fui atrás eu mesmo submarino, me escondendo atrás das árvores e só colocando o telescópio para enxergar. E o safado indo para o mar sem barco, sem boia, sem nada. Só com a roupa do corpo.
Quando a água chegou na cintura eu falei peraí, vai se matar é? Tá morrendo de bêbado? E saí correndo. Lá na pedra a bonitona estirada, com o rabo balançando, livrinho na mão. E o babaca encantado com o canto da sereia, e a sereia cantando poesias, vê se pode. Eu tava com tanta raiva que deixei ele lá se jogando no mar e fui atrás dela. Me perguntaram “Mas e aí, tapou as orelhas para não morrer também?” e eu disse “O quê? Eu precisando disso?” Ela abriu a boca e despejou aquela voz de sinfonia em cima de mim, mas eu não sou de sereia, cáspita. Não gosto daquele rabo escamoso no meio do corpo. Gosto de membro, entende? Membro de pé. Fui lá e disse nem sei mais o quê, e levei o livrinho comigo.
E o safado nem pra se afogar. Ficou lá só lembrando a poesia, todo torpe. Cheguei em casa e enfiei a sereia num armário e nunca mais. Vê lá. De vez em quando eu pensava “Podia aprender a escrever como ela”, mas aí nem. Pior é que depois desse dia, nem como eu mesmo eu não consegui mais. Uma letrinha sequer. Nem cantar nem escrever. Quando imagino, céus, aquele cachorro mexendo nas páginas dela, mão na cintura, mão no cabelo, mão sei lá mais onde, e aquelas letrinhas de moça que escreve diário. Eu aqui pensando em verso e prosa, quando pra ele caneta bic já basta. Daí eu parei. De cantar e de escrever. Não falava com mais ninguém.
Até aparecer esse outro moço. Tchooooooff. Vem lá das profundezas – que de razos já me enchi até a margem. Rato de livros. Devora todo papel que vê. E escreve, feito promessa – me deixa pensando que eu, perto dele, só sei juntar “ca” com “sa”. E meu comichão, aquele diabinho no meu ombro, me diz “Vai lá, bobo, dá um dos teus escritos pra ele”, e eu digo “Mas qual deles?” Não tem nada digno dessa minha paixonite de agora. O que fiz foi para os outros pescadores. Aqueles que. Droga. Até que um foi e me trocou por uma sereia. Sequestrei os versos da maldita para imitar, mas nem.
Logo eu, que sempre escrevi para que caíssem por mim. Agora aqui. Mundo de merda. Posso? Daí eu chego e digo “Olha o que encontrei numa lojinha da praia. Um livrinho que mais parece um diário de sereia” pra quê? Pra ele ir procurar por ela e me deixar antes de dizer “oi”? Tiro a sereia da bolsa e vou folheando as páginas velhas (cabelos, cintura e sei lá mais o quê). Poeminhas de debutante. E de repente eu caio em mim: “Conquistar alguém com tais tolices?”
Tenho de súbito a atenção roubada pela sirene do submarino. Uíiii uíiiii. Emergência: aqui está ele. Nem deu tempo de ver o telescópio – ele apareceu antes, no meio das estantes. Fecho o livrinho da sereia atônito e guardo. Ele nem percebeu, ou quase – deve ter pensado ser uma agenda. Deu um sorriso do tamanho de um transatlântico, que me fez pensar que eu era um náufrago sendo salvo. “Você deixou cair isso quando levantou” Isso o quê? Céus, meus papéis. Há quantos anos eu só rascunho sem terminar nada. Ele fica sem jeito e dispara o torpedo “Foi você que escreveu?” Tchoooooofff, “Em cheio no encouraçado!”, diria a apresentadora da batalha naval. A couraça treme e racha. “Meus rascunhos”, acabei dizendo, e ele “Sério?” O encouraçado afunda. Mas não era só uma jangadinha com remos? Vou me afundando cada vez mais fundo só de imaginar ele abrir a boca para cantar. Sereios homens? Nunca ouvi dizer.
“São bonitos, os escritos. Quero ouvi-los lidos por você, então” ele diz, e eu me afogo por completo. Pode uma sereia se apaixonar por cantores?
Leio sim, meu caro, eu quase disse. E quase completei com um Mas antes me amarra no mastro e me tampe as orelhas. Que se eu te ouço sorrir, é feitiço contra o mago, e não pode.
Então ele me puxa do fundo do mar e logo estou em terra firme, nos seus braços compridos.
Meu barquinho desaparece de vista.
No sofá da biblioteca, ainda ficaram os remos boiando.