A paz
(música de João Donato, cantada por Gilberto Gil)
a paz invadiu o meu coração
de repente, me encheu de paz
como se o vento de um tufão
arrancasse meus pés do chão
onde eu já não me enterro mais
a paz fez um mar da revolução
invadir meu destino; a paz
como aquela grande explosão
uma bomba sobre o Japão
fez nascer o Japão da paz
eu pensei em mim
eu pensei em ti
eu chorei por nós
que contradição
só a guerra faz
nosso amor em paz
eu vim
vim parar na beira do cais
onde a estrada chegou ao fim
onde o fim da tarde é lilás
onde o mar arrebenta em mim
o lamento de tantos “ais”
a paz invadiu o meu coração…
Trilhos (Destino)
acordei com um sobressalto. nunca me acostumei a dormir com o barulho dos trens passando a cada vinte minutos. levantei e fui tomar um copo de água.Estela veio falar comigo enquanto eu estava debruçado na sacada, com o copo na mão.
ela disse “você nunca dorme direito quando vem pra cá, não é?”, e eu disse “é verdade. mas venho porque gosto de você.” levei o copo à boca, mas desisti de beber quando notei o quanto estava empoeirado. “está com insônia?” perguntei.
ela respondeu “não. acordei quando percebi que você levantou.” eu brinquei “céus! você consegue dormir com estes trens que passam aqui toda hora, mas acorda com o som dos meus passos?”
“é que estou acostumada” ela respondeu, e continuou “sabe aqueles desenhos em que o bandido amarra a mocinha nos trilhos para chantagear o mocinho? me sinto presa a este lugar às vezes.”
fiquei meio sem jeito porque sempre imaginei aquela casa como um refúgio, mesmo sendo ao lado dos trilhos do trem. aliás, acho que este era o motivo principal: aquele monte de gente partindo e chegando e aquela casinha ali, parada. era para aquele lugar que eu sempre tinha que voltar quando algo dava errado – quando eu queria recomeçar.
disso ela já sabia. tanto sabia que me lançou a pergunta que eu daria tudo para não responder: “você ainda não disse por que veio. você se encontrou com aquele rapaz de novo, não é isso?” só então que eu fui reparar que as minhas roupas ainda estavam molhadas por causa da chuva que eu tomara à tarde. resolvi udar o rumo da conversa: “sou só eu ou o vendo esfriou de uma hora para a outra?”
ela se fingiu de brava e disse “ora, ora. como sempre, você querendo desviar do assunto. espera aí, vou pegar pra você uma blusa que era do meu irmão.”
fiquei abismado. “irmão? nunca soube que você teve um irmão!”
“pois é, tive sim. se chamava Henrique. sabe o que significa?” “não,” eu disse. “significa ’senhor da pátria’. pobrezinho, era um verdadeiro Alexandre, o grande. gostava de desbravar, de viajar pelo mundo e de conquistar as pessoas.”
não pude deixar de perguntar “o que houve com ele?”
ela fez uma pausa. dramática. abaixou a cabeça e apertou os olhos. nesta hora passou um trem lá embaixo e um lá em cima, nos trilhos elevados. eles formaram um estranho “x”, como se o destino quisesse cruzar dois caminhos diferentes ali naquele lugar.
“ninguém nunca te contou? o Henrique gostava de caminhar nestes trilhos. ele sentava no elevado e ficava lá em cima balançando as pernas. um dia ele se cansou da vida e não quis sair quando o trem vinha vindo. ele, que sempre foi o dono do próprio destino, resolveu deixar o dele bem aqui, na hora em que o caminho de dois trens se junta.”
ela respirou e continuou: “sabe o que é mais estranho? isso nunca acontece: de dois trens passarem ao mesmo tempo no trilho de cima e no de baixo. foi como se o destino, de uma forma irônica, quisesse marcar com um ‘x’ o caminho de duas viagens distintas.”
naquela hora eu até me esqueci do encontro que eu tivera naquela tarde – os dentes de leão no jardim, de manhã, o vidro embaçado no carro. que estranho ela nunca ter me contado nada disso.
ela foi para o quarto pegar a blusa e só então eu notei que nenhuma lâmpada fora acesa. apertei o interruptor da cozinha e sentei em um dos banquinhos. o local onde eu apoiara meus braços na mesa ficou respingado de água.
longos minutos se passaram sem que ela voltasse. resolvi ir até o seu quarto, já esperando vê-la chorando. entrei pela porta e acendi a luz. não havia ninguém ali. as paredes estavam repletas de fotos de um rapaz. Henrique?
saí pela casa procurando por ela, acendendo as luzes. tudo o que encontrava eram mais coisas do moço. roupas de homem no guarda roupa. cores sóbrias na mobília.
de súbito, um barulho vindo da porta da frente paralizou meus movimentos. fiquei atento.
“quem está aí?” chamou uma voz. permaneci imóvel. o dono da voz prosseguiu: “responda: quem é você e como entrou aqui?”
eu me apresentei: “sou o Dado, amigo da Estela. estava conversando com ela agora mesmo. mas ela sumiu.”
ele olhou desconfiado e respondeu: “você que é o Dado? que estranho. ela falou em você hoje cedo. me diz: como você esteve com ela até agora? isto é impossível.” “Como?”, perguntei. ele explicou: “Estela está no hospital há duas semanas. tentou suicídio com um monte de comprimidos.”
ele deu um suspiro e continuou: “ela, que sempre foi dona do próprio destino, cansou da vida e resolveu ir ao encontro do próprio.” ele olhou os trilhos do trem lá fora – estranhamente, os dois ainda estavam passando, vagarosamente, tanto o do trilho de baixo quanto o do trilho elevado. “sabe o que é mais estranho? isso nunca acontece: de dois trens passarem ao mesmo tempo no trilho de cima e no de baixo. é como se o destino, de uma forma irônica, quisesse marcar com um ‘x’ o caminho de duas viagens.”
fiquei pasmo com a repetição da frase. com a notícia da Estela no hospital, principalmente por eu ter conversado com ela há poucos intantes. só me restou uma última pergunta: “quem é você?”
ele saiu do súbito transe de olhar para os trilhos pela sacada. olhou para os meus olhos e disse:
“eu sou o irmão da Estela. me chamo Henrique. muito prazer.”
Forca
tive tempo de entrar no carro antes que começasse a chover.
ele disse, com tom sarcástico: “pensei que você gostasse de uma tempestade.”
eu respondi “sim, mas daquelas que são em copo d’água. as de verdade, prefiro ficar longe, só observando.”
ele ficou quieto. o silêncio ficou tão denso naquele carro, no meio da chuva, que os vidros foram se embaçando.
“você gosta demais de brincar com as palavras”, ele disse, por fim, caçoando do meu dramalhão. céus! para quê me lembrar disso logo agora que estou suscetível? tenho ganas de escrever ele inteiro num papel, feito um poema visual. está vendo o que eu sinto? é você o que eu sinto, essa coisa sem nome!
olho para o semi reflexo do vidro embaçado ao meu lado e vejo mais você do que eu, por cima do meu ombro, feito quem dá ordens para um vassalo. olho de volta para você, mas por incrível que seja, tua imagem está mais distante que a do reflexo.
há um vidro frio aqui
entre nós
como se eu estivesse beijando a minha imagem num espelho
embaçado pela respiração.
(enquanto eu te beijo, só me apaixono pelo que há em mim.)
toco o vidro embaçado com o dedo indicador, a fim de formar um risco
e mais outro
e mais outro.
“sim, eu brinco com as palavras. mas é para não me sufocar. elas se acumulam na garganta
até tampar tudo.”
ele responde: “o que são estes riscos? você está brincando de forca?”
“sim, estou. eu brinco com as palavras.”
“me dá uma dica, então”, ele pede, ávido.
“eu e você, com quatro letras.”
“eu não sei”, ele disse. “você me odeia?
amor e ódio têm o mesmo número.”
eu olhei para ele e caí em mim.
“realmente não sei”, eu disse. “e você, me odeia?”
ele pensou um pouco. depois se debruçou sobre o meu colo e começou a rabiscar o vidro, naqueles quatro espaços que eu escrevera. “amor”. “estamos há quatro letras de distância.”
respirei fundo de olhos fechados enquanto uma luz acendia na minha cabeça – um trovão ou uma idéia? eu disse: “não”. desenhei uma cabeça na forca. depois o corpo e os membros. o homenzinho de palitos pendurado pelo pescoço – tudo errado logo na primeira tentativa – e o carro fechado, quente, maturando o seu silêncio desafiante. eu disse “está tudo errado. estou sufocando”, feito o homenzinho da forca.
abri a porta, mas antes que pudesse sair, ele me pegou pelo braço, enquanto a chuva invadia minha roupa. mais um beijo – banho de água gelada.
fugi. sem abrir a boca, escrevi mais três letras nos traços do vidro. “desamor”.
soltei meus braços de suas mãos e bati a porta. saí caminhando pela rua molhada.
não me contive e ainda virei para vê-lo uma última vez. ele tinha rabiscado aquelas letras e feito uma nova palavra com o que eu tinha escrito:
“meu amor.”
ele abriu o vidro e gritou algo que não pude ouvir por causa da chuva. desabei, com aquele excesso de palavras na minha garganta. quando fechou o vidro de volta, aquilo tudo que fora escrito estava apagado.
o carro foi embora e me deixou no temporal.
de olhos fechados, ainda pude ver um clarão na minha cabeça.
um trovão
ou uma idéia?
Migalha
Três anos de blog. Não venho escrevendo com o mesmo fôlego que antes, mas certamente com muito mais paixão. Os últimos meses foram de uma certa reclusão, mas às vezes é necessário, como as bebidas fortes que precisam maturar, e ficam anos nas garrafas aguardando serem abertas. Elas são mais bem apreciadas por causa da qualidade. Então, neste momento, nada melhor do que falar em abandono. Para os amantes dos vinhos, três anos de tonel. Comemoremos. Bebei, amigos!
Migalha
a última vez que nos vimos, foi para tomar um café na minha casa. ele veio de surpresa, sem avisar. “não repare o abandono”, eu disse, morrendo de vontade de terminar a frase dizendo “é que fui abandonado muito tempo antes de deixar a poeira tomar conta de casa.”
contive a frase cortante, soltando um sorriso pálido: “você se esqueceu de me visitar.”
“é que eu tenho uma memória meio fraca”, disse naquele tom zombeteiro, “como aqueles dentes-de-leão que nasceram ali no seu quintal. repara só: você assopra e saem todos os pelinhos voando. é uma flor esfarelenta, que solta um monte de migalhas.”
eu não tinha reparado nos dentes-de-leão, mas reparei que a sua memória tinha realmente evaporado. esqueceu de mim. não vinha mais me visitar. de um dia para o outro, a minha grama verde ficou infestada destas pequenas flores, como que anunciado a sua chegada.
continuou com ar de sabido: “sabe como os índios chamavam esta flor? ‘pegada de homem branco’. eles achavam que era uma maldição trazida pelos europeus, porque onde eles pisavam, nasciam dentes-de-leão”. dei uma risadinha, porque ele sempre contava esta história deste jeito, numa frase só, como quem resume a história de anos em duas linhas na folha de um caderno.
“então elas sabiam que você viria, meu caro homem-branco”, diparei. só então fui reparar no tempo que ele não toma sol. a pele mais parecia um copo de leite. “um pouco de leite?”, “sim, mas sem café”. esqueço da sua falta de sono. não bebe café nem na hora em que acorda porque acelera o coração e tem daquelas crises. bem aventuradas estas pessoas do coração selvagem, que não precisam de mais estímulos do que aqueles que já possuem naturalmente.
eu, ao contrário, tremia como quem toma litros de café. era visível na ponta do meu queixo. segurei a asa da xícara com mais força para não deixar transparecer. ele pousou os olhos nos meus dedos rígidos naquela asa de louça. “calma, a xícara não sai voando”. pegou a minha mão enquanto eu largava a xícara. as pontas dos dedos retomaram o vermelho habitual depois de ficarem brancas com o aperto da louça. junto com o vermelho nos meus dedos, vem o calor dos seus dedos, e a sensação de soltar um passarinho dócil que não voa, só fica ao redor. bicando as migalhas. minhas migalhas. isto é um banquete de migalhas suas – agora minhas – que eu fui juntando e juntando, de grão em grão.
foi assim: eu fui colhendo cada pedacinho tão modestamente atirado na minha direção. às vezes nem era para mim, mas eu corria e pegava. coleção de migalhas. eu me ocupei em colecionar as suas migalhas, sem nunca dar uma mordida inteira,
sem nunca me alimentar como deveria,
só para tentar juntar aqueles pedacinhos minúsculos
a fim de um dia montar algo inteiro.
e cá estamos agora, trocando mais migalhas do que eu já não tenho para dividir.
mas aquelas mãos ainda aqueciam as minhas, cessando o tremor. e isto me dava ganas de continuar. de fazes as mãos viajarem fundo, por outras partes do meu corpo.
mas me contive.
interrompi o momento, dizendo:
“coma mais pão. eu que fiz. ficou um pouco esfarelento, mas está gostoso”. ele se desconcertou e fez menção de se levantar. “não, obrigado. já comi o bastante. vai começar a chover daqui a pouco. devo ir embora”. achei bonita a forma como olhou para o céu – limpo, sem núvem alguma – procurando por chuva – procurando, quem sabe, por redenção. menitra. estava procurando motivos para se esquecer novamente. e não voltar a fazer visitas.
“a gente se vê”. sério? “você volta?”
saiu sem esvaziar a xícara,
deixando na mesa migalhas do pouco pão que comeu.
tirei a toalha a fim de chacoalhá-la no gramado. atirar embora estes farelos de vez. os dentes-de-leão balançavam tristemente, feito quem dança a dança dos que ficaram de novo sozinhos.
de súbito um vento – como aquele que levou as memórias dele embora – espalhou todos aqueles pelinhos até eles desaparecerem por completo.
antes que o último fiapo das flores se esfarelasse no ar, ele já tinha desaparecido pela rua.
no céu, uma núvem preta começava a se aproximar.
Doença
eu queria todas as janelas fechadas. tanto as de casa quanto as da alma. tive os olhos fechados até a sua chegada, assim, lacônico.
não movi um músculo.
sim, é por sua causa. e também por causa de outros como você.
você disse “é este um quarto de morcego? escuro feito uma caverna. você está pálido como se estivesse há um ano numa caverna”.
não respondi, mas pensei “na tua caverna, meu caro. passei um ano neste colo cavernoso”.
“vamos deixar a luz entrar” continuou, mesmo com os meus pedidos – silenciosos – por clemência. não ofusque os meus olhos
de novo,
feito aquela primeira vez, em que por mais de um mês não via outra coisa que não fosse você
em todos os lugares.
sem acordo. fui obrigado a ver a cor do teu rosto claro de novo, mas não sem antes me aterrorizar com a tua divindade negativa: ao abrir as cortinas assim, como quem rasga as roupas de um amante, aquele sol, aquele tempo, foi como se toda a sua silhueta se transformasse num desenho inteiramente negro, feito um diabo assustando um bom cristão com seus braços abertos. a capa assustadora – as cortinas – tremeluzindo e sua imagem negra crescendo diante de mim.
isso não mudou: você ainda me dá medo como antes.
medo e todo o resto de sensações
boas ou ruins.
“bem melhor. luz para o seu dia”, disse e se sentou na cama. o peso no colchão fez com que eu me inclinasse em sua direção, como se eu não fosse inclinado o bastante para a sua pessoa, mais esta ajuda para eu cair todinho. já estou caído, meu bem. você me deixou doente – e caído – de tanto bem que fez.
fez bem, tão bem, que enjoou e foi embora. por que voltou como se nada tivesse acontecido? assim todo faceiro com uma bandejinha de café da manhã.
“trouxe chá”, sinalizou. adoro chá, ele bem sabe. cada um para uma dor do corpo. chá para a cabeça, chá para os ouvidos. um conhecido tomava um chá que era para os rins: chá de quebra-pedra. aqui não há pedras para quebrar – meu caminho é sempre aberto para ele. mas e chá para quebrar gelo, será que existe?
olho com aquela cara de que não vai adiantar, meu apetite está do avesso mesmo. tão avesso quanto meu pijama. avesso como esta situação. não tenho vontade sequer para perguntar “o que faz aqui?”
feito quem notasse a tremura dos meus olhos, ele debruça sobre os cobertores a fim de cobrir melhor o meu peito e fita meus olhos a queima-roupa: agora, nesta luz da tarde, de diabo passa para deus, de tão clarividente esta feição. não adianta, a reza é antes de dormir, que vem sendo a única boa hora. só mesmo a reza. mas entre acordar e dormir só mesmo este quarto de caverna, que agora é aquela caverna em que colocam estátuas de santos para adoração – o rosto do santo sob a luz dourada da tarde.
você me dá uma emoção assim de perto. tão mais perto, lentamente mais perto.
eu sinto a emoção do primeiro beijo. eu fecho os olhos diante da emoção do beijo.
subitamente mergulho na escuridão cavernosa de antes da sua visita.
sem chá. sem luz da janela.
ainda ninguém encontrou um chá de quebra-gelo
para amenizar a doença que eu tenho.
Fogos
no meio do meu escuro, de súbito um brilho
que mesmo aguardando, eu fico surpreso:
tua aparição é acompanhada de artífícios ilusionistas -
momento que insiste em causar impressão.
magicamente, sobe uma fumaça branca do cigarro da tua boca que é feito um gelo seco derretendo em minhas mãos.
me sobre um gelo no caminho da espinha que adentra todas as vértebra da minha coluna.
eu tento te manter por perto, mas te prender é igual a capturar esta fumaça
numa rede de caçar borboletas:
algo que não pára nos meus dentes, nem nos dedos
nem na língua -
na mesma hora que chega, vai embora,
e fica este cheiro impregnado pelo resto do dia.
eu tenho em mim o teu cheiro impregnado
que faz morada pelo resto do dia
até a hora da chegada
à noite
já escuro
com o cigarro aceso.
aquele minúsculo ponto vermelho luminoso no escuro -
aceso.
a tua chegada me acende -
me traça um risco
vermelho feito a linha do termômetro
crescente na hora de calor.
a tua chegada me acente
um fogo
luminoso como a ponta do cigarro
que risca o quarto escuro
na minha direção.
me acende ainda mais quando atira o cigarro de lado, que no escuro mais parece um fogo de artifício rumo ao chão:
quando cai estouram fagulhas por todos os lados, como uma árvore de luz que cresce em direção ao céu
e estoura uma copa repleta de frutos luminosos.
o teu beijo me acende
um fogo
assim bem luminoso
feito fogos
de artifício
bem no céu da minha boca.
o teu agarro me estoura
um estrondo
assim de bate-estaca
que embala meus ritmos
e me acende o peito
num bombear
ensurdecedor.
eu te vejo claro
no escuro.
vem,
que eu entro no ritmo do teu corpo
para me esfumaçar conforme eu soo
nas tuas mãos cheias de nervos.
vem,
que eu me enervo em sobressalto
sem a tua respiração
fumegando em meu pescoço.
vem,
que quero meu instante máximo
enroscado no teu corpo:
um ponto colorido
luminoso no escuro.
vem,
que eu estouro radiante.
me acendo em tua boca,
no assopro do teu fumo,
no esvair da tua fumaça
e me apago no final.
.
vem.
traz o fogo.
e depois me traga o fogo.
Transparência
gosto de dizer que as pessoas transparentes têm o rosto feito de vidro.
assim, por mais máscaras que vistam, sempre é possível encontrar o que há por dentro.
mas sinto na pele os efeitos desta comparação – os materiais que compôem o mundo possuem uma imensa contradição:
quando mais rígidos, mas facil se quebram quando caem no chão.
isso coloca em prova a hora que eu protejo o meu coração -
que às vezes parece de pedra, de tão macia a tua mão.
mas tal esforço é em vão: coisas de vidro são feitas para manterem repouso,
e não serem jogadas para lados diversos
sob o risco de se quebrarem na queda brusca.
ainda tenho nos olhos aquela luz da tua transparência, que mais parece vinda do vidro das janelas da tua alma – fresta clara na escuridão das minhas núvens.
mas eu sei prever as tuas tempestades vendo o canto dos teus olhos. as mínimas linhas de expressão do teu desencanto, feito uma rachadura num vidro quente ao passar por água fria.
o canto dos teus olhos formou uma rachadura de vidro bem fina, que mais parecia com a linha do raio de trovão que rasga o céu em dia de chuva.
eu não posso com a tua chuva.
não sou dado a tempestades.
eu sou feito um pó de açúcar entre os teus dentes, viajando ao redor da língua – milhares de cristais quebrados.
uma areia de caquinhos espalhados dos teus vidros.
cristal de areia.
eu sou um cristal de açúcar.
não destempere o meu doce, que eu derreto em meio as chuvas -
copo d’água
que transborda
no teu choro
compulsivo -
perco a rima
há muito tempo.
toma a água do copo – chovida de tempestade – com colher de açúcar pra se acalamar.
não fique bravo, que eu já te dou colher de chá.
me derreto com teu calor, que é pra depois recompensar:
carapaça, caramelo,
transparente -
eu sou uma estátua feita de doce.
–
ainda te vejo através dos teus vidros,
muito antes de o tempo se fechar.
Cruz
engana-se quem imagina que o desencontro é uma história de “não se ver”.
o meu maior desencontro começou justamente quando eu cruzei o teu caminho.
é neste cruzar de caminhos que eu guardo fé.
as rotas dos teus passos traçadas nos meus mapas formam uma rede cheia de encruzilhadas,
como aguardar em vias engarrafadas o sinal abrir para presseguir viagem.
mas o sinal está fechado.
eu traço uma série de desencontros meticulosamente planejados. eu tenho que saber por onde você vai passar para me desencontrar urgentemente,
como alguém que planeja chegar atrasado ao próprio enterro
e fica mais tempo rezando em casa na frente de uma cruz.
(eu tenho fé no que peço)
justamente por isso eu me recordo:
te olhar asism, distraído, de braços abertos, é como ver uma cruz de pé na terra
que acalanta um povo desconsolado.
eu sou fiel ao mandamento de amar ao próximo mais do que a mim mesmo. desde que o próximo tenha a tua feição benevolente. para isso preciso estar perto, mesmo que meio de longe, me encontrando sóbrio para te desencontrar.
tocar a borda das vestes para receber o milagre da cura.
eu carrego este peso ao te acompanhar, na emergência de quem tem o corpo mutilado -
cruzar o teu caminho é traçar uma ferida sangrenta, aberta tal como a cruz vermelha dos carros de ambulância.
é preciso abrir caminho no meio dessas ruas obstruídas, com o estrondo da sirene portadora de mensagem de pânico -
esta rua morta é uma gangrena nas veias da cidade,
e a cruz vermelha dos feridos não é igual à cruz da igreja dos que têm fé.
doença mais forte é a que afeta corpo e espírito: você grita comigo como um padre que exorcisa os demônios.
mas não me crucifique por conta destes pecados:
os males do coração devem ser tratados com rapidez.
–
a minha religião é amar os homens.
você está no centro da minha cruz.
Seda
as aranhas são seres com hábitos bastante curiosos:
não bastasse serem engenhosas a ponto de tecer suas próprias teias (e caminhar no alto mesmo sem poder voar), elas ainda são mestras em cuidar de coisas que levam tempo.
terminada a delicada tapeçaria, elas esperam até que uma mosca desavisada pouse as inocentes patas nos fios grudentos amarrados.
agora a presa está presa.
mas ainda deve aguardar
até que a aranha apareça, sádica, para enrolá-la toda em mais teia.
a pobre mosca fica coberta de seda
instantes antes de virar banquete.
talvez coincidentemente, tenho um medo mais do que primitivo por aranhas. aquelas oito patas ágeis que sobem em qualquer lugar me dão arrepios agudos.
uma das espécies mais perigosas deste monstro é chamada de viúva negra.
misteriosamente, a viúva negra tem estampada no ventre uma mancha vermelha no formato de uma ampulheta. dois triângulos, um apontando para o outro, justo na região do corpo onde ela produz a seda das teias.
é como se a aranha mostrasse maliciosamente que é capaz de gerar no ventre a hora de nos prender,
justamente como ela faz com as coisas antigas e há tempos intocadas.
feito os móveis daquele nosso quarto, cobertos de teia.
como o tempo tricotado ao redor da existência,
e todo o pó numa crosta de um cinza,
típico daquelas coisas que
já estão velhas
demais
eu saio de perto sem apagar a luz, já que você mantém o quarto ocupado (sem mim).
fica na porta fechada, olhando daqui de fora, o contorno do retângulo iluminado no meu corredor escuro. é feito o fio mais do que fino tecido por uma aranha conforme o nosso tempo foi esgotado — toda a areia da ampulheta jogada embora –
e só me sobrou esta porta fechada,
tecida enquadrada,
no formato do caminho que me levava até você.
eu ainda me penduro neste fio de memória que tenho de ti, de quando subitamente me acendia um sorriso bem mais forte do que a luz dessa (velha) lâmpada,
eu era como a mariposa girando ao redor do lustre,
de tão ilustres que eram os meus dias
(mundo que gira em torno do sol)
acho que vivi no estranho móbile das linhas deste tempo antigo
sem ligar de correr para longe da teia
que conduziria ao nosso fim.
(é tão bom deitar na tua rede
para participar do teu balanço
e me acomodar no conforto
do teu luxo
sem perceber que é justamente nesta
hora que eu acabo coberto
pelo teu manto de seda
vermelha
como a ampulheta do ventre
da viúva negra)
nosso quarto ficou todo empoeirado
como se toda a areia do tempo tivesse se espalhado pelo lugar.
(eu tenho aracnofobia).
Hematoma
os garotos têm uma estranha forma de se divertir
que quase sempre termina com manchas no corpo:
o prazer que os garotos procuram é roxo feito uma marca de pancada.
eu, que não fujo à regra, me machuco de tanto prazer ao notar que a tua vinda é próxima. o aguardo dos teus passos martela os meus ouvidos enquanto cerro os punhos com um aperto na garganta – aperto tão forte quanto o de te cumprimentar com um aperto de mãos.
é o prazer de comprar briga, típico dos meninos. competir sempre: quem chega primeiro, quem fica por cima,
quem é o melhor.
fica na minha mão só uma impressão tirada no aperto dos teus dedos, que me dá ganas de lutar sozinho pela direção dos teus olhos. eu me debato feito um louco preso em cela solitária para ter as marcas do teu prazer em meu corpo,
só pra te mostrar que eu também sei ser menino,
e também brigo para ver quem chega na frente.
solto a gravata para respirar melhor debaixo do esmagamento da tua atmosfera – antes que fique roxo de falta de ar. mas fico roxo mesmo é com o corte das tuas idéias agudas – cabelos espetados: idéias pontudas feito uma coroa de espinhos.
os garotos que fogem da linha são os que carregam a pesada cruz.
eu faço parte desta irmandade de desviados.
eu compro a tua briga para me manter no topo.
saio de perto roxo de um prazer dolorido que a tua presença me causa. eu me embrenho nesta luta com o aperto de que o tempo se mova a tempo que eu não fique pra trás.
o laço forte do aperto do peito que só se alivia frente ao aperto do teu abraço – um laço dentro dos teus braços – o amarro dos teus dedos.
eu não tenho saída senão mirar a minha boca cheia de dentes em tua direção – e deixar marca roxa bem no teu pescoço. aproveitar o aperto das mãos para me concentrar no aperto dos teus lábios – lutar uma luta que não trégua,
e que não finda.
me aperta firme que é para controlar o caminho, com a mesma força que eu me agarro aos teus braços com medo que parta. eu luto pela sobrevivência,
tanto que já tenho os olhos roxos – é o aperto da briga
e o aperto da insônia -
é o aperto dos meus dentes
na ponta dos meus dedos -
nas unhas roídas de aflição.
os meninos têm uma forma de prazer dolorida -
dessas que deixam uma marca roxa.