A temperança
Eu estava picando morangos quando a campainha tocou. Fim, fam fum, sinto cheiro de humanos, diria o gigante vivendo no castelo no alto das nuvens, e o pequeno João escondidinho atrás do sofá. Vai, João, corre enquanto ele não ta te vendo e rouba a harpa-cantora!
Dou uma olhadinha no espelho do corredor – tudo ok – e depois no olho mágico da porta. Céus. Meu olho mágico te vê, querido. Quase uma bruxa te assistindo pela superfície borbulhenta do caldeirão, ô! A fumaça da poção se espalhando num fio violeta, saindo pela janela. Te encontra na rua e faz que nem nos desenhos, chamando zombeteira, feito um dedo tamborilando teu nariz. Vem, querido, que eu estou fazendo doce pra você.
Abro a porta e ele está vermelho de tão ofegante. “O que houve, João Pimentão?”, digo e tapo a boca num risinho. Ele entra, me dá um beijo no rosto e senta antes de conseguir responder um engasgado “É que o elevador ta quebrado!” que me põe em apuros: Rapunzel aprisionada na alta torre com seu cavaleiro lá embaixo, sem conseguir subir. “E esse cabelo novo, curtinho?” pergunta ele com um jeito de quem diz E agora? Não vou mais conseguir escalar esses tijolos!
Eu digo: “É chanel, ta? Moderno à beça”, mas céus, meninos não sabem nomes de penteados. Então eu brinco: “Se eu amarrar a parte de trás assim, no alto da cabeça, fico parecida com a fada Sininho, não fico não?”, mais uma risadinha – mas peraí: eu fico mais parecida com a Sininho ou com aquela estatuazinha de ouro presa na harpa da casa do gigante? Era só começar a tocar e a danada cantava com voz de flauta. Shhhh, o gigante vai acordar, e ela gritava “Está mentindo, tindo, tiiiiindooooo!”
“Quem está mentindo?”, ele pergunta, ainda esbaforido – sem fôlego para nada, este meu João Glutão – e eu me pergunto: por que é mesmo que ele subiu de escada? Não tinha mais no bolso aqueles feijõezinhos mágicos? “Eles não são para você comer”, disse o comerciante misterioso, com um turbante enorme na cabeça e uma esmeralda pendurada no meio da testa – terceiro olho? “Troco essa vaquinha por estes cinco feijões. Eles são mágicos! Você vai ver só o que vai acontecer com eles”, e o Joãozinho com aqueles outros olhos – também verdes, uma loucura – vidrados nos grãozinhos na mão do indiano – quem disse que ele era indiano? – e eu assistindo tudo na superfície do caldeirão, dizendo “Não! Não! João Bobalhão, sua mãe vai ficar brava! Vende a vaca e leva o dinheiro pra casa!”
“Tive uma idéia!”, digo e saio em disparada pela minha cozinha. Abro o armário e fico procurando meus ingredientes mágicos – toda mulher é uma bruxa no meio de suas panelas – vamos ver: patas de aranha, unha de lagarto, dentes de morcego… feijões mágicos! Levo o frasco até ele e pergunto “Quer uma bala, querido?”, e ele: “Ah, eu aceito!” Pega um pacotinho prateado e coloca no bolso da camisa. BANG, bem no peito. Dei um tiro à queima roupa em você, amor. Minha bala vermelha se alojou bem no coração. Não era ele que gostava desses filmes de tiros, onde o mocinho é um rapaz bonito que ganha a vida roubando bancos? Senhor! Tudo invertido nesse mundo e eu lá, amarrada na linha do trem e ninguém pra me salvar, porque o mocinho está ocupado demais assaltando o banco. Um faroeste, esse mundo, isso sim. Até no vídeo game aquele monte de pipoco, Jesus!
“Você ainda joga aqueles jogos de tiro?”, pergunto, voltando para os meus morangos. Tinha até um controle em forma de pistola. “Claro! Como não?” Pergunta boba, Maria Clara. O João vai ser daqueles avôs (ou tio-avôs, se não tiver filhos, vai saber) que dão doces para as crianças escondido, que é para os pais não brigarem. Um vovô com a cabeça nas nuvens. “Se tivesse um bigode, te chamaria de Mario!”, e ele ri um riso bonito de menino sem maldade. O mundo caindo em cima da gente e ele correndo atrás de estrelas brilhantes. Não tem nenhum jogo em que da pistola saiam estrelas? Desse eu chegaria no fim rapidinho. Para passar de fase, você teria que recolher uma bandeirinha branca, lá no alto da montanha, quase no castelo do gigante. Pronto! Fase de bônus. E eu cantando marchinha de carnaval: “Bandeira branca, amor… Não posso mais… Pela saudade que me invade, eu quero paz”.
“E aquela guitarrinha de plástico com botões coloridos?”, e ele: “Ah, o Guittar Hero! Fechei um dia desses.” Guittar Hero… Herói das Guitarras? Imediatamente me pego imaginando um rapazinho do bem – assim, de olhos verdes, como ele – lutando contra dragões e mortos-vivos para libertar a princesa – eu, lógico – da torre medieval. Daí ele chega na entrada, põe um joelho no chão e começa a cantar: “I have climbed… the highest mountains… I have run… through the fields… Only to be with you… Only to be with you…”
“Mas naquela época ainda não existia guitarra, não é?” eu penso em voz alta e ele solta um “Hã?”. “Ah, esquece”, e volto para os meus morangos. “O que você está preparando?”, diz o curioso. Eu? Uma poção para encolher gente. Daí você fica bem pequenininho e eu te guardo dentro da minha bolsa. Daí, quando for hora de comer, te dou um biscoito e pra você vai ser um banquete, que nem naquele filme. Ô. Quem sabe assim você percebe o quanto são poderosos meus doces – já disse: toda menina é uma bruxa quando cozinha. Te dou carinho e você fica sendo o meu mascote. Daí ele vai dizer mas eu vou ficar um anãozinho para sempre? E eu vou dizer não, Joãozinho Miudinho, quando eu cansar, faço a poção ao contrário: em vez de esquentar os morangos no fogo, deixo gelar na geladeira, pra fazer você voltar ao tamanho normal – ou então, te dou um cogumelo que nem aquele do Mario – ele cresce quando come um, não é?
Será que eu digo isso tudo só para ele nem desconfiar que o que estou fazendo é na verdade um encantamento para lhe despertar paixão? Querido, meu amor é doce. Vem provar, que tem bem mais de onde veio este.
Acabo dizendo: “Eu? Uma calda de morango para o pudim que está na geladeira. Inclusive, já está pronta”, termino e despejo o conteúdo da panela em uma tigela de vidro sobre a mesa, na frente dele, para esfriar um pouco. Ele olha hipnotizado o líquido vermelho. Fim, fam, fum. De quê é esse cheiro você que sente agora, amor?
Tiro o pudim da geladeira e coloco na mesa, dizendo: “Ora, João Comilão, deixa eu ver o seu dedinho se já está bem gordinho!” Ele ri e diz “Clarinha, eu não estou gordinho por vontade própria. A culpa é da minha mãe!” Ah, a mãe. A bruxa-mor. Cozinha divinamente. Culpa da dele e da minha, não é? “Você vive na casa desse menino João. Vão acabar casando”, dizia a mamma com avental na cintura e tigela de bolo nos braços, batendo a massa. A infância tinha cheiro de bolo na minha casa. E de torta na casa do João. Duas casas de doces, geminadas. A janela de bolacha. Chaminé de chocolate. Cama de pão de ló. Casas de bruxa no meio da floresta. Opa, joga migalha no chão pra não perder o caminho de volta. E a adolescência, tinha cheiro de quê? A minha, de pimenta. A dele, de canela, pé de moleque. Corre, rapazote, mexa tuas pernas para longe. Os meninos correm o tempo todo. Correm pra lugar nenhum, só pra correr, pra chegar primeiro. Nunca vi. Correu tanto que sumia e mal voltava. E eu com as minhas panelas, aprendendo magia. Chá de carqueja, Maria Clara, é bom para o estômago. Alecrim é pra dor de cabeça. É, mãe? E camomila? Camomila faz dormir tranquilo, minha filha. Então tá. Toma camomila pai. Toma camomila, mãe. Toma camomila, amor. Quero paz pra todo mundo. Todo mundo sonhando com os anjos. Mas o João não dormia, com aquelas canelas rápidas. Ia pra longe, longe da minha casa, com seus joguinhos coloridos – os reais e os irreais. Vem dormir, amor, em paz. Comigo. Vem descansar na minha cama. Comigo. Vem que eu te faço chás.
Daí um dia ele chegou – correndo – na porta da cozinha. Perguntou “Clarinha, o que você cozinha para alguém quando está apaixonada?” Céus, será que meu encanto funcionou? Andou comendo meus bolos com tanto afinco, tadinho. Os olhos até brilham mais quando a boca está cheia. Será que ele se lembra que eu disse para ele preparar uma calda quente com morangos? Serve para qualquer coisa: bolo, pudim, sorvete. Se fosse pra mim, nem de magia precisava. Um rapaz cozinhando só por amor, precisa de mais?
Mas meu doce açucarou. Perdi o ponto quando soube que era para outra moça. E a mãe, querido, ainda cozinha? O que ela recomenda para a dulcíssima nora que espreita a confeitada casa de doces da floresta? Essas doceiras do interior e seus tachos. Irmãs: jamais revelai teus segredos. Os rapazes, estes belos e formosos, criados com nossos manjares, nos queimarão na fogueira assim que dermos as costas. Pior: nos nossos próprios fornos. Mãe, prepare mais chás para digestão, que o prato do dia é João na brasa, amarrado pelas mãos e pés e preso num espeto. Uma maçã na boca e acompanhado de batatas coradas. Um banquete. Camomila, filha? Sim, mãe, camomila.
Eu durmo aquele eterno sono das plantas. Todo mundo dormiu. Adeus, mamãe, papai. Dormiram e não acordaram mais. João e suas canelas correram. Da casa de doces, carcomida, fugi, com aquele monte de panelas, todas aguadas de tanta água e sal – sal das lágrimas. Céus, saem ingredientes de mim quando eu choro. Um destempero. O rastro de migalhas na floresta foi todo comido pelos pardais. Ninguém voltou. O gosto agora era de amargo, folha verde-escura de catalonha. Refogada? Crua, com sal. Amargor. Tem jiló maduro, moço? Aqui não tem não, moça. Mas na barraca ali na frente deve ter. Fui para a barraca da frente e não aguentei e enfiei um jiló na boca – uma gana por amargor que eu peguei, meu pai, na rua, em qualquer lugar. Mas… esse jiló estava doce. Deus, o que há com meu amargor preferido? Fiquei tão aflita que nem reparei que do lado tinha um indiano – quem disse? – com um turbante e uma pedra verde, brilhante no meio. Será que era o terceiro olho? Só reparei quando escutei um sininho. Todo mundo devia andar com um sininho, que nem as cabras, para não se perder, dizia um livro que li. Blem blem. Era uma vaquinha, na mão do indiano. Na historinha, um menino levava a vaca para vender na feira, e um comerciante misterioso oferecia feijões mágicos em troca do bicho. Ele trocou e a mãe, quando viu, atirou os feijões pela janela. Nem reparou que durante a noite começaram a crescer grossos troncos que iam em direção ao céu.
O nome do menino da história era João, não era? Conheci um, quando era pequena. Crescemos juntos. Nossas mães eram doceiras lá no interior. Ele vivia jogando vídeo game. Foi embora por quê, mesmo? Faculdade? Casou? “Clarinha!”, alguém grita. João? Na feira? “É, tou morando num apartamento aqui perto. É por ali” e apontou na mesma direção que eu ia. Fomos. Era o mesmo prédio. Céus. Que andar? “Nono” Céus. Somos vizinhos. “Não vai querer uma xícara de açúcar, querido?”, brinquei. “Te faço um bolo. Vem comer.”
Ele veio um dia. Outro dia. Mais outro. E mais outro. A minha casa, cheia de jilós, começou a ficar doce. O vidro da janela ficou que nem caramelo. A maçaneta era de chocolate. Da torneira saía guaraná. No vaso de violetas nasceram morangos. E os morangos já estão maduros. “Quer passar a tarde comigo, meu caro?” Ele veio. Esbaforido.
“A calda já está morna. Podemos comer”, e ele despertou como num estalo. “Ah, antes que eu me esqueça”, começou João. “Tenho uma coisa pra você em casa”, e saiu correndo pelo corredor do prédio. Revirou o apartamento dele e voltou com uma tigela forrada com um pano. “Olha o que aprendi a fazer.” O quê, meu querido? “É pra você. Pega!”
Cortado em pedaços, um brownie marronzinho. Fiquei sem ação. “Mas…?” Ele sorriu aquele sorriso – tão de menino sem maldade. “Ta vendo? Eu aprendi”, disse e foi atacar o meu pudim – com calda morna. Fiquei ainda um tempo admirando aquele bolo tão inofensivo. Então resolvi mordê-lo. Tinha uma noz no meio. Divino.
Céus. Uma ansiedade subitamente me domina. Quando me viro para voltar à cozinha, ele já estava atrás de mim. Antes que pudesse articular qualquer palavra, me rouba um beijo. O mais doce de todos. Sai correndo para seu apartamento em seguida.
Tarde demais.
Estou enfeitiçada.
Fecho a porta que ele deixara entreaberta e me olho no espelho do corredor. O canto da minha boca ficara sujo com a calda vermelha do pudim. Um pouco mais quente do que imaginei que estivesse.
O barco
Cheguei à biblioteca já meio mareado. Tem gente que voa quando sonha, mas eu faço mesmo é navegar. E foi assim que fui chegando, com as mãos já meio enrugadas, de tanto enfiadas na água. Às vezes eu sinto o tempo virando e logo mexo meus remos para fugir do temporal, mas agora eu vejo sol e só. Sento em uma das poltronas perto da janela, com a luz do meio da tarde, das mais preguiçosas. Fico quietinho, só ouvindo o vento na água.
Daí ele me aparece num susto. Vê se avisa, que eu sou distraído. Sempre me esqueço que você é meio submarino. Vem sorrateiro, com seu telescopiozinho e tchooofff, dispara um torpedo, tchooooofff. A moça da televisão ficava gritando “tiro na água!” quando o espectador escolhia um quadradinho errado, e você nem espera escolher outro e manda: tchooooofff. Eu fico até sem saber para onde fugir nesse barquinho tão roto.
Antes do ponteiro da bússola mexer um tracinho sequer, abro o sorriso que passei a manhã ensaiando e digo “Olá, meu querido espião. Te procuro pelos céus e você me aparece pelas profundezas…” Ele sorri com cara de quem não entendeu e pergunta “O que está lendo?” Lendo? Ah, sim, de repente me lembro que estou numa biblioteca e não num barquinho. Uíii, uíii, fazia a sirene do submarino, hora de emergência! Todos a postos. Capitão, o senhor vai ter que parar de ler para analisar o cenário, e o capitão preguiçoso lá deitado, como em filme pastelão. Vamos, o telescópio está a postos. Mas peraí, não era num barquinho de pescador que eu estava? Era, era, mas foi bem assim que ocorreu com ele, saindo correndo daquela estante com seus livrinhos cheios de papéis dentro. Tudo porque me viu. Foi bem assim.
Pois é, eu precisava estar lendo para a desculpa colar, eu que tinha ido ali só para. Vasculho a minha bolsa com cuidado, para ele não ver o tesouro que tinha ali dentro. Shh. fica quieto, tesouro. Tem livro que não fica em silêncio. Grita, berra. E aquele ali, meu pai, livro de sereias. Será que ele vai gostar? Sequestrei uma sereia só para mostrar que eu sei cantar. E foi cantarolando que eu tirei um livro lá dos porões da bolsa. “Estou lendo isso aqui”.
Nem olhei qual era. Ele encolheu aqueles olhinhos de ler bula de remédio e leu o título só na contracapa – a capa era daquelas todas pretas, de livros recauchutados. “Olha só, A insustentável leveza do ser. Obra prima.” Jura, meu amado? Você também gosta desse? Olha como fomos feitos um para o outro, então. Vamos discuti-lo um dia desses, lá na minha casa. Tenho uma cabeceira com mais livros que a prateleira, vê se pode, só para eu ler antes de dormir. Podemos ler na minha cama. A noite toda lendo as desventuras de um amor corrompido. Você pode?
“Legal”, ele diz. “Ouvi dizer que você escreve. É verdade?”, minha Nossa Senhora, o que eu não faria para ele não perguntar isso. Ouço um barulho estranho vindo da bolsa. Sereia maldita, fica quieta. Invento uma desculpa qualquer “Meu celular tá tocando”, e me enfio no meio das prateleiras antes da tirana da bibliotecária me colocar para fora pelo colarinho. Ponho as costas contra a estante e respiro fundo até entrar sal pelas narinas. Mas qual é o problema? Responde logo, que você roubou um tesouro pra ele, conta. Não era ele que gostava de histórias de piratas? Então.
Vai lá, sorri daquele jeito que você ensaiou e diz “Meu querido, olha o que eu trouxe só pra você” e entrega. Céus, faço isso mesmo? Logo eu que. Deus, olha só o que eu fiz, roubando desse jeito. Logo eu que. Um dia me perguntaram “Nossa, quem foi que te ensinou a escrever desse jeito?” e eu, grosso que nem o diabo, fui e respondi “Meus amantes. Aprendi a escrever de tanto ver navios. Acabei morando no mar”. Depois disso, passei a escrever só para seduzir, que nem as sereias cantando. E vão lá e cantam. Aparece um pescador e NHAC! Tchau, pescador, ia dizer a esposa. Idiota. O macho foi se engraçar com a bonitona e tchau. E a pobre lá, com um monte de filho, na beira da praia, gritando “Amoooor, amoooor”. E ele lá na farra com a sereia. “Esposa? Que esposa?”, até que ela vai e. Adeus ao mundo, pescador. Mas se despeça logo, que Deus não gosta dos adúlteros e não vai te esperar muito. Adeus ao mundo, disse o pescador. Pois é, querido, eu fazia isso: escrevia só para aqueles tolos se apaixonarem. E eles, ó. Vem, meu poeta, me guarda nas tuas páginas. E eu dando de beber, escrevedo e dando de beber. Agora diga adeus ao mundo, pescador bobinho. Diga adeus.
Foi num dia que nem esse, com um sol desses, preguiçoso. Daí eu quis dormir tomando sol e ele ficou lá, pescando. Pesca um bem grande, amor, para eu fazer para o jantar. Vou pescar, o safado disse. E eu fiquei lá. Daí começou a demorar e o sol foi embora e o tempo virou. Comecei a trovejar eu mesmo de raiva. Cadê você, pescador, volta logo antes que eu escureça de vez. Vou chover torrentes essa noite se você não vier. E não veio não. E a maré subiu antes do tempo.
Apareceu só no dia seguinte, o safado, todo de ressaca e com uma paixão pelo mar que só. Me subiu o sangue e só não foi chuva de canivete porque. Ventei forte até que ele falou tá bom, tá bom, vou pescar um pouco, e saiu de novo, trançando as pernas, o bêbado. Fui atrás eu mesmo submarino, me escondendo atrás das árvores e só colocando o telescópio para enxergar. E o safado indo para o mar sem barco, sem boia, sem nada. Só com a roupa do corpo.
Quando a água chegou na cintura eu falei peraí, vai se matar é? Tá morrendo de bêbado? E saí correndo. Lá na pedra a bonitona estirada, com o rabo balançando, livrinho na mão. E o babaca encantado com o canto da sereia, e a sereia cantando poesias, vê se pode. Eu tava com tanta raiva que deixei ele lá se jogando no mar e fui atrás dela. Me perguntaram “Mas e aí, tapou as orelhas para não morrer também?” e eu disse “O quê? Eu precisando disso?” Ela abriu a boca e despejou aquela voz de sinfonia em cima de mim, mas eu não sou de sereia, cáspita. Não gosto daquele rabo escamoso no meio do corpo. Gosto de membro, entende? Membro de pé. Fui lá e disse nem sei mais o quê, e levei o livrinho comigo.
E o safado nem pra se afogar. Ficou lá só lembrando a poesia, todo torpe. Cheguei em casa e enfiei a sereia num armário e nunca mais. Vê lá. De vez em quando eu pensava “Podia aprender a escrever como ela”, mas aí nem. Pior é que depois desse dia, nem como eu mesmo eu não consegui mais. Uma letrinha sequer. Nem cantar nem escrever. Quando imagino, céus, aquele cachorro mexendo nas páginas dela, mão na cintura, mão no cabelo, mão sei lá mais onde, e aquelas letrinhas de moça que escreve diário. Eu aqui pensando em verso e prosa, quando pra ele caneta bic já basta. Daí eu parei. De cantar e de escrever. Não falava com mais ninguém.
Até aparecer esse outro moço. Tchooooooff. Vem lá das profundezas – que de razos já me enchi até a margem. Rato de livros. Devora todo papel que vê. E escreve, feito promessa – me deixa pensando que eu, perto dele, só sei juntar “ca” com “sa”. E meu comichão, aquele diabinho no meu ombro, me diz “Vai lá, bobo, dá um dos teus escritos pra ele”, e eu digo “Mas qual deles?” Não tem nada digno dessa minha paixonite de agora. O que fiz foi para os outros pescadores. Aqueles que. Droga. Até que um foi e me trocou por uma sereia. Sequestrei os versos da maldita para imitar, mas nem.
Logo eu, que sempre escrevi para que caíssem por mim. Agora aqui. Mundo de merda. Posso? Daí eu chego e digo “Olha o que encontrei numa lojinha da praia. Um livrinho que mais parece um diário de sereia” pra quê? Pra ele ir procurar por ela e me deixar antes de dizer “oi”? Tiro a sereia da bolsa e vou folheando as páginas velhas (cabelos, cintura e sei lá mais o quê). Poeminhas de debutante. E de repente eu caio em mim: “Conquistar alguém com tais tolices?”
Tenho de súbito a atenção roubada pela sirene do submarino. Uíiii uíiiii. Emergência: aqui está ele. Nem deu tempo de ver o telescópio – ele apareceu antes, no meio das estantes. Fecho o livrinho da sereia atônito e guardo. Ele nem percebeu, ou quase – deve ter pensado ser uma agenda. Deu um sorriso do tamanho de um transatlântico, que me fez pensar que eu era um náufrago sendo salvo. “Você deixou cair isso quando levantou” Isso o quê? Céus, meus papéis. Há quantos anos eu só rascunho sem terminar nada. Ele fica sem jeito e dispara o torpedo “Foi você que escreveu?” Tchoooooofff, “Em cheio no encouraçado!”, diria a apresentadora da batalha naval. A couraça treme e racha. “Meus rascunhos”, acabei dizendo, e ele “Sério?” O encouraçado afunda. Mas não era só uma jangadinha com remos? Vou me afundando cada vez mais fundo só de imaginar ele abrir a boca para cantar. Sereios homens? Nunca ouvi dizer.
“São bonitos, os escritos. Quero ouvi-los lidos por você, então” ele diz, e eu me afogo por completo. Pode uma sereia se apaixonar por cantores?
Leio sim, meu caro, eu quase disse. E quase completei com um Mas antes me amarra no mastro e me tampe as orelhas. Que se eu te ouço sorrir, é feitiço contra o mago, e não pode.
Então ele me puxa do fundo do mar e logo estou em terra firme, nos seus braços compridos.
Meu barquinho desaparece de vista.
No sofá da biblioteca, ainda ficaram os remos boiando.